Astronomia em formato digital

Quatro anos de trabalho, 63 pesquisadores envolvidos e 1.297 páginas divididas em dois volumes. Os números por trás do livro História da Astronomia no Brasil são justificados pela ambição do projeto: apresentar um panorama do passado, presente e futuro da área no país. A obra, referência para profissionais do setor e leigos apaixonados por astronomia, foi publicada em 2014 e acaba de ser disponibilizada gratuitamente pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) em formato digital.

A publicação veio em boa hora, já que os (poucos) textos anteriores sobre o tema não apresentavam de forma integrada descobertas recentes e novos estudos sobre episódios do passado. Escritos especialmente para o projeto, os capítulos incluem temas como pesquisas em raios cósmicos, astronomia espacial, histórico dos meteoritos brasileiros e a relação entre as mulheres e este campo da ciência.

Os capítulos incluem temas como pesquisas em raios cósmicos, astronomia espacial, histórico dos meteoritos brasileiros e a relação entre as mulheres e este campo da ciência

O livro também dá destaque a pesquisas sobre a história da astronomia, fundamentais para a compreensão das origens das tradições astronômicas brasileiras. “Os resultados originais dessas pesquisas se encontravam dispersos em teses, artigos, comunicações e livros. Nosso objetivo foi reuni-los numa narrativa cronologicamente abrangente”, destaca o astrônomo Oscar Matsuura, organizador da publicação.

Modernização e visibilidade internacional

Segundo Matsuura, o projeto também busca recontar a trajetória da astronomia brasileira a partir de um processo de modernização da área nas últimas décadas, que incluiu o surgimento de cursos de pós-graduação para formação de astrônomos profissionais e o investimento em pesquisas. “A comunidade astronômica brasileira se organizou e passou a interagir com a comunidade internacional. Esse processo deu abertura a novas subáreas da astronomia como arqueoastronomia, etnoastronomia, história, ensino e divulgação da astronomia”, exemplifica.

Trata-se de um contexto bem diferente daquele retratado no texto “A Astronomia no Brasil”, escrito em 1955 pelo astrônomo e matemático Abrahão de Morais e publicado no livro As ciências no Brasil, organizado por Fernando de Azevedo. Naquela ocasião, o autor lamentava a falta de relevância internacional da produção brasileira na área e a carência de investimentos. Para Matsuura, as pesquisas astronômicas recentes refletem o aumento do interesse do poder público na astronomia brasileira. “Uma característica marcante dessas pesquisas foi impressa pela política adotada pelos órgãos de financiamento da ciência, que criaram canais específicos para o que poderíamos chamar de megaprojetos temáticos”, explica Matsuura. “No bojo dessa política, a astronomia brasileira passou a desenvolver projetos de maior vulto, a ganhar presença e protagonismo internacional” completa o astrônomo.

História da Astronomia no Brasil
Dividida em dois volumes, publicação abrange desde primeiras descobertas astronômicas a pesquisas mais recentes na área. (foto: Reprodução)

Além de atualizar a trajetória do campo no país, Matsuura espera que a obra ajude a fortalecer a identidade da comunidade astronômica brasileira. “Conhecendo melhor suas origens, seus sucessos e fracassos, essa comunidade estará mais apta para vislumbrar e planejar um futuro próprio, coerente com a experiência adquirida e com seu potencial inovador e empreendedor”, acredita.

Vale pontuar, no entanto, que a linguagem escolhida para o livro, ao evitar termos técnicos e utilizar diversas ilustrações, tem agradado a outros públicos além dos profissionais da área. “Já temos recebido, até com certa surpresa, muitos retornos que atestam o amplo alcance do e-book não só por todo o Brasil, mas também nos países latino-americanos e lusófonos”, comemora Matsuura. Um impulso e tanto para levar a história da astronomia brasileira ainda mais longe. “Estamos pensando em preparar também uma versão em inglês, para promover ampla divulgação internacional”, revela o astrônomo.

 

Simone Evangelista
Especial para a CH On-line

 

Matéria publicada em 23.09.2015

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