Enterrados e esquecidos

Trinta e oito esqueletos masculinos estendidos lado a lado sem roupas mortuárias ou artefatos. Foi com essa situação que uma equipe de arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fundação Seridó se deparou ao fazer a escavação preventiva de uma área da favela de Pilar, em Recife, onde será construído um complexo habitacional do governo do estado. A identidade e o grupo cultural dos corpos ainda não foram desvendados pelos pesquisadores, mas suscitam diferentes hipóteses sobre sua origem e a evolução da cidade a partir do século 17.

A maioria dos esqueletos foi encontrada com os braços cruzados sobre o peito, o que indica que o local provavelmente era um cemitério organizado. Os corpos também não apresentam vestígios de roupas. Os arqueólogos acreditam que tenham sido enterrados com uma mortalha de tecido fino que já se degradou. 

Matos: “Pela formação da arcada dentária, é muito provável que se trate de caucasianos, de origem europeia”

O achado veio justamente quando os pesquisadores da Fundação Seridó procuravam por um antigo cemitério de escravos que se acredita que tenha existido na região. A descoberta logo suscitou especulações entre a população, mas os pesquisadores ressaltam que ainda é cedo para fazer afirmações sobre quem eram os mortos.

“Temos certeza de que se trata de um cemitério porque estão todos os esqueletos na mesma posição, com crânio e bacia voltados para o leste, e no mesmo nível de profundidade, mas não podemos fazer muitas outras afirmações”, disse a arqueóloga Manuela Matos durante a apresentação do estudo na 65ª Reunião Anual da SBPC. “Pela formação da arcada dentária, é muito provável que se trate de caucasianos, de origem europeia.”

Esqueletos
Foram encontrados 38 esqueletos de homens jovens, 14 deles já estão sendo analisados. (foto: Fundação Seridó)

Uma das possibilidades levantadas é de que o local tenha sido um cemitério de judeus, que são tradicionalmente enterrados sem roupas. A hipótese ganha força por causa de registros históricos que indicam uma grande ocupação de judeus na região em torno no século 17. 

Mas existe ainda a chance de se tratarem de trabalhadores do mar ou soldados. A ideia se baseia na grande quantidade de fraturas de ossos que poderiam estar ligadas a ambas as profissões. “Um dos esqueletos tem fratura da clavícula cicatrizada e quatro apresentam escoliose, o que indica que carregavam peso”, disse o bioarqueólogo Sérgio Monteiro, da UFPE. “Outro tem um tumor ósseo na tíbia, provavelmente decorrente de queda e batida, e os dentes apresentam sinais de uso de cachimbo.”

A teoria dos soldados tem ainda a seu favor a ausência de vestimentas, que poderia ser explicada pelo reaproveitamento dos uniformes e pelo fato de os sepultamentos estarem próximos do antigo Forte de São Jorge, construção bélica do século 16.

À margem 

O local onde o cemitério foi encontrado era conhecido como Fora de Portas durante o início do século 17, por ficar além das portas da cidade de Recife. Os arqueólogos e historiadores acreditam que o cemitério seja daquela época porque está em uma camada mais profunda que os alicerces das primeiras casas construídas na região, que liga Recife à Olinda.

Localização
O mapa mostra a localização do cemitério em relação ao local onde ficava a porta da cidade de Recife e o Forte de São Jorge. (foto: Fundação Seridó; modificado de MENESES, José Luis, Atlas Histórico Cartográfico do Recife)

“Esse trecho do bairro não era habitado nos séculos 16 e 17, as casas só começaram a surgir depois de 1680, quando o Forte de São Jorge foi transformado em Igreja”, comentou o historiador Antonio Moura, da UFPE.

Moura chamou a atenção para o fato de não haver registros desse cemitério em documentos da época. O historiador acredita que a memória dos sepultamentos pode ter sido esquecida propositalmente, por interesse de algum grupo. “A memória dos enterros desapareceu em algum momento e o local passou a ter moradias”, apontou.

Os pesquisadores acreditam que a memória dos sepultamentos pode ter sido esquecida propositalmente

Já a historiadora Socorro Ferraz, da UFPE, pensa diferente. Segundo ela, a região era habitada por pessoas pobres, que, sem opções, não se importariam de ocupar o cemitério. “Esse lugar sempre foi ocupado por classes menos abastadas, fora das portas da cidade moravam os pobres, o ‘povo’”, disse. “Os ricos não querem morar onde foi um cemitério, mas, para os pobres, que não têm onde morar, isso não é uma questão.”

À espera de mais dados

As dúvidas ainda são muitas. Mas os arqueólogos esperam obter mais respostas com a datação e a análise do DNA dos esqueletos, que poderão determinar a etnia dos homens e a época em que viveram. Para a arqueóloga que chefiou as escavações, Gabriela Martin, da Fundação Seridó, o caso ilustra bem o fazer arqueológico. 

“As pessoas pensam que a arqueologia é isenta por se deter em dados materiais”, refletiu. “Mas, na prática, existem muitos interesses ideológicos e políticos envolvidos na interpretação dos dados.”

A pesquisadora acredita que a comunidade judaica esteja torcendo para que os esqueletos sejam do seu povo. Por outro lado, a comunidade afrodescendente também teria interesse que o cemitério fosse de seus antepassados. “Mas temos antes de tudo um compromisso com a verdade e, para que a subjetividade seja cada vez menor, temos que nos apoiar nas outras ciências, como a química e a física envolvidas nas análises de DNA.”

 

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

Veja a cobertura completa da 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e confira nossa galeria de fotos do evento.

Matéria publicada em 01.08.2013

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