Jogos de imitação

Em um dos episódios da série de TV americana Os Simpsons, um grupo de meninos observa um homem que pinta manchas em um cavalo para um filme que está sendo rodado na própria cidade de Springfield. Um deles pergunta: “Eh… Senhor, por que vocês não usam vacas de verdade?”. O homem responde, sem vacilar: “Vacas não parecem vacas em filmes… Você tem que usar cavalos!”.

Ao se fazer um filme, é inevitável que a realidade seja deformada, um pouco que seja, para parecer ‘mais real’: policiais são mais altos e fortes, carros mais lustrosos, explosões mais impressionantes. E cientistas não fogem à regra. Cientistas reais não pareceriam cientistas em um filme, pelo menos de acordo com a mentalidade de grandes produções, assim como as vacas não parecem vacas nos filmes rodados em Springfield. Aparentemente, um cientista cinematográfico tem que ser mais próximo de uma máquina do que de um ser humano, deve ser atormentado e, por mais absurdo que pareça, não deve ter senso de humor.

A superprodução O jogo da imitação, baseada – talvez seja mais apropriado dizer ‘inspirada’ – no livro Enigma (Princeton University Press), de Andrew Hodges, trata de um dos cientistas mais intrigantes do século 20, o britânico Alan Mathinson Turing (1912-1954), matemático, criptógrafo, pai da ciência da computação e um dos pioneiros da biologia matemática. Dono de um brilhante e variado trabalho científico, Turing era homossexual em uma época em que isso era considerado crime na Inglaterra. (Clique aqui para acessar uma biografia resumida de Turing, escrita pelo próprio Hodges.)

Como entretenimento, sem dúvida O jogo da imitação prende a atenção, emociona e empolga, vale o ingresso. O problema é que ‘ao pintar’ Turing e Bletchley Park, o filme entrega uma versão empalidecida da realidade

O trabalho de Turing como criptógrafo e seu período em Bletchley Park, antiga instalação militar secreta onde se realizou o esforço britânico de decodificar os códigos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, é o centro de O jogo da imitação, que ganhou o Oscar 2015 de melhor roteiro adaptado. Mas o filme se distancia muito, e de muitas formas, da realidade.

Como entretenimento, sem dúvida O jogo prende a atenção, emociona e empolga, vale o ingresso. O problema é que ‘ao pintar’ Turing e Bletchley Park, o filme entrega uma versão empalidecida da realidade. Aliás, a opção de A. Hodges, autor da biografia Enigma (sem tradução para o português), por não comentar o filme é significativa.

O filme toma emprestados elementos da realidade, mas os deturpa de tal modo que ficam irreconhecíveis. Por exemplo, é sabido que Turing adorava um amigo de escola, Christopher Morcom, que morreu prematuramente e é retratado em cenas de infância no filme. A morte de Morcom teve um impacto profundo em Turing, que trocou cartas com a mãe de seu amigo por vários anos após sua morte. Em uma cena irreal, Turing dá o nome do amigo à máquina que decifraria, Enigma. Na verdade, a perda se manifestou na vida de Turing de forma mais profunda. Em cartas trocadas com a mãe de Morcom, Turing descreve seu interesse pelo problema da separação entre mente e matéria, um embrião de seu trabalho futuro em inteligência artificial.

Esforço coletivo de decodificação

Em Bletchley Park, Turing fez parte de um grupo heterogêneo, que reuniu linguistas, enxadristas, especialistas em palavras cruzadas e outros matemáticos e engenheiros, e foi peça central na decodificação da criptografia Enigma, que os alemães consideravam indecifrável. Foi um trabalho monumental que envolveu, literalmente, milhares de pessoas em Bletchley Park, e não apenas um pequeno grupo brilhante como mostra o filme.

A máquina Enigma foi desenvolvida na Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial para que mensagens fossem transmitidas rapidamente e de maneira segura. Para isso, usaram ondas de rádio, que podem ser interceptadas. Mas a confiança na criptografia Enigma era tamanha que sua intercepção não preocupava os nazistas, que acabaram sendo um pouco displicentes em seu uso.

Enigma
Diversas versões da máquina Enigma foram usadas por alemães e outras potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial para criptografar suas comunicações. (foto: Bob Lord/ Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)

O esforço de decodificação britânico do qual Turing fez parte foi baseado no trabalho anterior de criptógrafos poloneses, que já tinham decodificado uma versão primitiva da Enigma, e no próprio trabalho realizado em Bletchley Park anos antes, e que havia culminado na construção de Colossus, o primeiro computador programável da história.

Esse fenômeno, a colaboração entre cientistas, separados no espaço e no tempo, é um dos aspectos fundamentais de qualquer trabalho científico, ainda mais no caso de Bletchley Park, mas que O jogo da imitação deturpa completamente, fazendo parecer uma atividade virtuosística de um pequeno grupo genial. Do ponto de vista da representação de como a ciência é feita coletivamente, essa é a maior distorção do filme.

Turing cinematográfico

Finalmente, a maneira como Turing é representado em O jogo não só o transforma em um personagem completamente diferente, mas introduz elementos de caráter totalmente opostos aos do Turing real. Turing tinha, sem dúvida, uma personalidade excêntrica, como o hábito de ir a Bletchley Park com uma máscara de gás na primavera, na época da febre do feno. Além disso, não era uma pessoa exatamente asseada e, apesar de seu interesse por máquinas, preferia usar uma bicicleta defeituosa, parando periodicamente, depois de certo número de pedaladas, antes que a corrente perdesse o encaixe.

Mas, excentricidades à parte, Turing tinha um senso de humor bastante apurado, era muito vivaz em seu grupo de amigos, atlético, maratonista – quase participou das Olimpíadas de 1948 – e tinha boas relações profissionais com os colegas criptógrafos. E Turing era um patriota.

Excentricidades à parte, Turing tinha um senso de humor bastante apurado, era muito vivaz em seu grupo de amigos, atlético, maratonista e tinha boas relações profissionais com os colegas criptógrafos. E era um patriota

Possivelmente o erro mais grave cometido pelo filme é a história inventada sobre a chantagem feita por um espião a respeito de seu homossexualismo. Não só não corresponde de forma alguma à realidade, mas transforma Turing em um traidor, ao ocultar a identidade de um espião, algo absolutamente contrário ao que ele era de fato.

Na verdade, ao ser questionado pela polícia durante a investigação sobre um roubo em sua casa, Turing declarou abertamente que estava com um parceiro em atividade homossexual, o que o levou a ser processado por indecência e condenado a um tratamento de castração química, que resultou no crescimento de seios. Mesmo passando por tal humilhação, após o término do tratamento, Turing viveu 14 meses produtivos, continuando seu trabalho pioneiro em morfogênese. Turing morreu por ter ingerido uma maçã envenenada, e há dúvidas se foi suicídio, como ficou estabelecido na época, ou um acidente, como sua mãe sempre acreditou.

A história de Turing é rica, interessante e serve, por si só, como um belo exemplo de independência intelectual e trabalho conjunto, de coragem e determinação, de autenticidade e ousadia. O jogo da imitação, por mais que entretenha, perdeu uma grande oportunidade de abrir uma porta para um mundo mais complexo e interessante para o grande público. De gênios antissociais o cinema e a indústria de entretenimento já estão cheios. Contar a história do Turing real teria sido muito mais valoroso para todos. Mas, infelizmente, essa chance foi desperdiçada por um simples jogo de imitações.

Marco Moriconi
Instituto de Física
Universidade Federal Fluminense

Matéria publicada em 03.03.2015

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