A ciência de ensinar ciências

O neurocientista Roberto Lent afirma que a chave para o desenvolvimento da educação científica está na valorização do professor, na modernização dos métodos pedagógicos e na aproximação com a realidade dos alunos hiperconectados do século 21.

Crédito: Mauro Bellesa

De costas para a turma, um professor – mal formado, mal remunerado e mal utilizado – escreve no quadro, enquanto explica discursivamente a matéria aos alunos, que, por sua vez, estão mais atentos aos celulares que parecem ter nascido grudados em suas mãos. A cena, na opinião do neurocientista Roberto Lent, é o retrato do fracasso no ensino de ciências e também de outras disciplinas no Brasil. Para o cientista, chefe do Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, as mudanças são urgentes e, no entanto, difíceis de serem implementadas no Brasil de hoje. Por isso mesmo, Lent coordena a Rede Nacional de Ciência para Educação, que reúne mais de 120 pesquisadores brasileiros em torno de um objetivo: usar a ciência para desenvolver a educação. Nesta entrevista, ele fala dessa missão e também analisa o ensino de ciências no país.

Ciência Hoje: Como vê o ensino de ciências, nos diferentes níveis, no Brasil atualmente? Avaliações como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) ou mesmo análises dos resultados do Enem(Exame Nacional do Ensino Médio) apontam que a maior parte dos estudantes termina o ensino básico sem os conhecimentos necessários na área. Por quê?

Roberto Lent: O ensino de ciências no Brasil não tem desempenho muito diferente do de português e do de matemática. Ou seja: os três são igualmente ruins, e as notas do Pisa mostram isso, pois são muito parecidas e bem abaixo da média internacional. A conclusão é que o problema é mais geral, e na verdade envolve muitos aspectos.

Talvez o mais importante e grave seja a baixa valorização social dos professores (de ciências e das demais disciplinas). Nossa sociedade não os valoriza como nos países com educação de ponta: são mal formados, mal remunerados e mal utilizados. Mal formados, porque as faculdades de pedagogia e as licenciaturas ainda têm um viés conservador –ideológico e intuitivo, indiferente ou hostil às propostas pedagógicas derivadas do método científico. Mal remunerados, porque perdem de longe para os médicos, engenheiros, advogados… E, com isso, são obrigados a se dedicar parcialmente a diversas escolas em cada dia. E mal utilizados, porque as escolas em geral estimulam que prefiram metodologias discursivas, as mesmas com que eu aprendi há 60 anos!

 

CH: Como valorizar mais o docente, atrair jovens para o magistério e também melhorar a formação do professor?

RL: É um problema de solução complexa, que depende fortemente de bons salários, que garantam a dedicação exclusiva do professor a uma única escola. Professores deveriam receber os melhores salários do país: seria uma aposta da sociedade no futuro. Juízes, procuradores e advogados, com todo respeito à sua importância social, cuidam do passado, dos crimes que já foram cometidos. Médicos, em sua maioria, atendem doenças presentes. No entanto, é o professor e a escola que vão garantir a diminuição da criminalidade e de muitas doenças futuras na sociedade. Além disso, estou certo de que os bons salários atrairão os melhores alunos para a carreira docente nos vários níveis, e crescerá a pressão social por qualidade na formação de bons professores.

Valquíria Daher
Jornalista / Instituto Ciência Hoje

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