A dor do esquecimento: história, memória e testemunho

História e memória são perspectivas de entendimento do passado que nem se confundem, nem se complementam. O núcleo do testemunho é a memória, mas nem a memória é matriz da história, nem cabe à história “historiar” a memória.

 

“Fale-me coisas boas sobre sua mãe”. Essa é a frase inicial do filme Blade Runner, o caçador de androides, lançado nos anos 1980. No filme, androides projetados para imitar os humanos regressam a Terra. Eles voltam para perseguir objetivos bem definidos: saber de onde vieram, quem os fez, qual o seu passado. São carentes de recordações. O ato de recordar significa “chamar de volta ao coração”. Recordar significa “trazer à tona o saber ainda não consciente do passado”, e, por conta disso, também significa descobrir, desconstruir, desterritorializar. Na recordação, a memória não repete, nem racionaliza: ela tece, com imagens revividas no presente, a experiência do passado.

Androides não podem falar daquilo que não possuem. Ao contrário de nós, não conhecem as relações entre história, tempo e memória. Não são humanos. Mas, não é fácil lidar com esse impulso de se dirigir ao passado para compreender a nós mesmos. Talvez a dor do esquecimento e a complexidade dessas relações tenha se tornado uma necessidade para a sociedade brasileira muito recentemente. Tomar o passado como o lugar de uma reflexão sobre uma experiência vivida veio à tona, sobretudo, a partir da importância assumida pela modalidade do testemunho e sua transformação em recurso privilegiado para reconstituição do passado durante os anos da ditadura civil militar brasileira.

Heloisa M. Starling

Departamento de História
Universidade Federal de Minas Gerais

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