Admiráveis urnas novas

Os moradores de uma comunidade na zona rural do município de Tefé (AM), a 523 quilômetros de Manaus, tiveram uma surpresa ao entrar em contato com a história do local onde moram. Durante a construção de uma escola na região, foi encontrado um conjunto de urnas funerárias antropomorfas indígenas no subsolo, que foram batizadas de “admiráveis urnas novas”.

Logo após a descoberta, os objetos foram entregues ao Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, que iniciou uma série de análises para estudar o passado da região do rio médio Solimões. Segundo a arqueóloga do instituto Jaqueline Belletti, que também é pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e participou da pesquisa, esses achados muito têm a dizer sobre a cultura dos povos que ali viveram.

Esses achados muito têm a dizer sobre a cultura dos povos que ali viveram

“As urnas encontradas em Tefé são de extrema importância porque revelam o comportamento funerário das populações ameríndias da região”, afirma Belletti. “Sabe-se que eles tinham o costume de sepultar ou cremar os corpos, mas queremos compreender minuciosamente como ocorriam esses ritos.”

A arqueóloga explica que o conjunto de vestígios de cerâmica pré-colonial encontrados em região demarcada desde os afluentes do Alto Amazonas até o começo do baixo Amazonas e o rio Madeira é conhecido como Tradição Polícroma da Amazônia. Uma das características dessa tradição é a presença de urnas funerárias antropomorfas (com figuras humanas) e o uso de policromia como aspecto decorativo, sobretudo o uso de pintura vermelha e preta sobre uma pasta branca de argila diluída.

Apesar de já terem sido encontrados outros conjuntos arqueológicos em regiões do Amapá e no Pará e em alguns trechos da floresta amazônica fora do Brasil, como no Equador e no Peru, Belletti afirma que há uma singularidade nas urnas antropomorfas de Tefé. “Normalmente, elas contêm restos ósseos resultantes da cremação dos corpos. No entanto, uma das urnas encontradas guardava alguns ossos inteiros”, diz.

Segundo a arqueóloga, a forma também é uma característica singular nos achados arqueológicos, já que todas as urnas achadas em Tefé estão colocadas sobre bancos de cerâmica. “Isso pode sugerir que os corpos pertencessem a figuras de prestígio dentro dos grupos”, explica. “Além disso, no caso de Tefé, existe um padrão específico de deposição, já que as urnas estavam deitadas.”

Algumas urnas datam dos anos 1400 e outras de 1600

As análises ainda não permitem relacionar as peças a um grupo indígena específico, já que havia uma imensa diversidade étnica no local. “Alguns pesquisadores acreditam que materiais desse tipo podem estar associados a grupos falantes de línguas do tronco tupi”, afirma Belletti.

O que já se sabe é que algumas urnas datam dos anos 1400 e outras de 1600. A técnica usada no laboratório para determinar esses dados foi a datação por carbono 14, que avalia a idade da matéria orgânica depositada nos achados arqueológicos.

Agora, os arqueólogos querem avaliar a composição morfológica e a representação dos elementos antropomorfos presentes nas urnas antes de serem expostas ao público. “Estamos analisando elementos específicos representados na superfície dos objetos, como a tinta e os desenhos encontrados”, diz a arqueóloga. “Embora seja um estudo demorado, estamos otimistas quanto aos resultados.”

Valentina Leite
Ciência Hoje/ RJ

Texto originalmente publicado na CH 323 (março de 2015). Clique aqui para acessar uma versão parcial da revista.

Matéria publicada em 01.04.2015

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

Inteligência artificial, para onde vamos?

Inteligência Artificial (IA) é um tema que atrai muita atenção e parece sempre remeter ao futuro. Mas ela já faz parte do nosso dia a dia há tempos. A questão é: para onde a IA pode nos levar?