Arqueologia do resgate

Apenas seis meses após o incêndio que destruiu sua sede, Museu Nacional já inaugurou duas exposições, mostrando que ainda possui um rico acervo.

A exposição ‘Museu Nacional vive – arqueologia do resgate’ apresenta cerca de 180 itens, dos quais 103 foram resgatados dos escombros do palácio destruído pelo incêndio ocorrido em setembro de 2018.
Foto: Capim Filmes

Quem diria que,em apenas seis meses, o Museu Nacional já estaria realizando a sua segunda exposição após o incêndio que destruiu sua sede?

A primeira, intitulada ‘Quando nem tudo era gelo– novas descobertas no continente antártico’, foi inaugurada no dia 16 de janeiro, pouco mais de quatro meses depois da tragédia. A exposição, em cartaz no Centro Cultural Museu Casa da Moeda do Brasil, tem como foco os novos fósseis encontrados na Antártica nos últimos anos por pesquisadores de diversas instituições, sob coordenação do Museu Nacional.

A segunda exposição foi inaugurada no dia 25 de fevereiro: ‘Museu Nacional vive – Arqueologia do Resgate’. Financiada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), essa exposição tem como objetivo principal mostrar ao público que, apesar das enormes dificuldades, o Museu Nacional vive e continua dispondo de um riquíssimo acervo.

A mostra conta, basicamente, com três conjuntos de itens. O mais esperado e que, compreensivelmente, atrai mais atenção é o material resgatado do palácio após o incêndio. São mais de uma centena de itens que representam peças arqueológicas,exemplares zoológicos e fósseis.

Ao contrário do que o cenário de destruição sugeriu após as primeiras imagens do palácio, a recuperação do acervo dos escombros tem superado até a mais otimista das perspectivas.Muitas peças completas foram recuperadas, quase sem dano algum, como vasos e esculturas. Em outras peças,houve uma mudança de coloração;algumas ficaram enegrecidas devido à fuligem, como um crânio de um jacaré. Também existem aquelas que sofreram mais, porém estão preservadas o suficiente para serem identificadas, incluindo diversos fósseis e minerais. Teve até uma rocha sedimentar em que havia um fóssil de planta na parte externa – praticamente destruído no incêndio –e que acabou se partindo em duas, revelando um novo fóssil em seu interior. Uma verdadeira descoberta do acaso!

Outro conjunto de peças reflete exemplares que não foram, felizmente, afetados pela tragédia. São espécimes zoológicos, como a bela ave em posição de caça que está localizada na parte central da exposição, ou os vidros com peixes e invertebrados, plantas históricas e plumárias indígenas.

Por último, temos expostos, também, peças novas que foram recentemente doadas para reconstituir o acervo perdido da instituição. Destaque cabe a diversas caixas com insetos para as coleções entomológicas, que foram das mais afetadas pelo incêndio.

Muitas peças do acervo do Museu Nacional foram recuperadas quase
sem dano algum, entre elas, vasos e esculturas.

Foto: Capim Filmes
 

Trabalho de equipe

Curadores de todos os departamentos do Museu Nacional – Antropologia, Botânica, Entomologia, Geologia e Paleontologia, Invertebrados e Vertebrados –se uniram e atuaram nessa mostra, juntamente com os profissionais do CCBB e da Seção de Museologia do museu. Sem contar com a equipe de resgate, que tem se dedicado de corpo e alma nessa importante tarefa, que é a de recuperar a memória do nosso país que se encontra soterrada no palácio.

Por falar neles, cabe uma observação: essa atividade de recuperação do acervo acabou por abrir um novo campo de pesquisa, que pode ser denominado‘arqueologia de resgate’.O fogo intenso nos exemplares levou a modificações no material. Um exemplo é o caso de uma ametista, mineral de cor violeta que ficou amarelo, se transformando no que chamamos de citrino. Também houve significativas alterações em exemplares arqueológicos e fósseis, que implicam em mudanças de composição química.

A pesquisa sobre como se deram essas alterações é fundamental para se estabelecer o melhor procedimento para a preservação das peças. O próprio procedimento de resgate é algo que requer uma metodologia própria, que vai sendo aperfeiçoada com a experiência acumulada dia a dia. Como muitos colegas do exterior alertaram, cada situação de impacto em acervos de história natural e de antropologia é um caso distinto.Devido à grandeza do acontecimento, a situação do Museu Nacional, se bem estudada, poderá ajudar profissionais de outras instituições em caso de um sinistro similar.

Como último ponto, é importante o visitante compreender que essa mostra contém apenas uma pequena parte de todo o acervo resgatado,como também das coleções que não foram afetadas. Felizmente, podemos dizer que, apesar da tragédia, o Museu Nacional continua sendo um grande museu de história natural e de antropologia!

Agora precisamos de prédio renovado, com as melhoras normas de segurança, para voltar a exibir as riquezas de valor cultural, científico e histórico para a sociedade brasileira e as de outros países. Finalmente, a reconstrução do Museu Nacional é uma necessidade e responsabilidade de todos!

Aproveito para convidar o leitor para visitar as duas exposições! A primeira, ‘Quando nem tudo era gelo’, ficará em cartaz até 17 de maio,e a segunda, ‘Museu Nacional vive’,ficará até 29 de abril. Prestigie e se informe sobre como você pode ajudar a recuperar o Museu Nacional no site da instituição!

Alexander W. A. Kellner

Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Academia Brasileira de Ciências

Matéria publicada em 26.04.2019

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

A ciência contra o racismo e o preconceito

Como a herança e o conhecimento africano podem ajudar a construir um diálogo permanente no combate ao preconceito e a discriminação que tenham origem no racismo?

Museu Nacional: saindo do luto, indo para a luta

Depois de um ano do incêndio no museu mais antigo do Brasil, a instituição está virando a página e apresenta um balanço do apoio recebido e dos resultados alcançados até agora.