Biohacking, o que é isso?

Privadas capazes de analisar fezes e urina. Cidades iluminadas por organismos vivos. Obras de arte produzidas por organismos geneticamente modificados. Tudo criação de biohackers!

Normalmente, quando ouvimos a palavra hacker pensamos em alguém que invade computadores. Na verdade, o termo é muito mais amplo. Surgiu na década de 1950, para designar quem se dedicava muito a determinado assunto. Nesse sentido, hacker seria alguém que aprende sobre algo, modifica ou melhora o conhecimento adquirido e compartilha isso com a sociedade. Por essa lógica, biohacking é o movimento que tem como objetivo aprender mais sobre a biologia – seja como modificar um organismo, uma molécula ou um equipamento biológico – e compartilhar isso com a sociedade. Na prática, podemos pensar em privadas capazes de analisar nossas fezes e urina, enviando o resultado diretamente aos nossos médicos; em cidades iluminadas por organismos vivos e brilhantes; em obras de arte sendo produzidas por organismos geneticamente modificados, e muito mais! O que você acha disso? A bióloga Liza Felicori Vilela está à disposição para conversar e tirar dúvidas no chat da Ciência Hoje. Use a seção abaixo para interagir!

Liza Felicori Vilela
Universidade Federal de Minas Gerais

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Matéria publicada em 14.08.2019

COMENTÁRIOS

  • Augusto

    Prezada Liza, há projetos de pesquisadores brasileiros nessa área? Algo que possa se tornar realidade em um futuro próximo?

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

    • Anônimo

      Bom Dia Augusto e muito obrigada por sua pergunta. O conceito de biohacking é bem amplo, mas uma das ideias do movimento é que pessoas da comunidade que não sejam pesquisadores possam desenvolver seus próprios projetos. Para isso, nós criamos na UFMG, em Belo Horizonte, um laboratório aberto a comunidade onde oferecemos a infraestrutura e apoio técnico para que entusiastas possam desenvolver suas ideias: https://sites.icb.ufmg.br/biolabideareal/. Por exemplo, temos professores do ensino médio atualmente desenvolvendo material para ensino de biologia para deficientes visuais e material para aulas práticas por exemplo. Temos também artistas que tem procurado o espaço. Por exemplo, este ano um artista recriou a obra de arte Gênesis do Bioartista Eduardo Kac: http://www.ekac.org/geninfo2.html.
      Uma das áreas da pesquisa que facilitou este movimento é a biologia sintética e o movimento faça você mesmo (Do-It- Yourself). Existem já alguns grupos no Brasil na área de Biologia Sintética. Meu grupo mesmo tenta desenvolver dispositivos diagnósticos, “células inteligentes” para o diagnóstico de acidentes causados por animais peçonhentos e desta maneira facilitar o tratamento. Temos também o grupo do pesquisador Tiago Mendes da Universidade de Viçosa que tem tentado produzir um parasita geneticamente modificado para produzir drogas. Temos o grupo do Professor Gonçalo Amarante, da Unicamp que tem trabalhado na melhoria de microorganismos e de enzimas para produção de biocombustíveis. Marie-Anne Van Sluys, da USP trabalha no desenvolvimento de kit de diagnóstico para monitorar canaviais. Diversos outros pesquisadores brasileiros tem trabalhos super interessantes na área. O quão perto ou longe está de chegar ao mercado é difícil estimar. Alguns ex-alunos por exemplo da USP (ANDRÉS OCHOA) e UFMG (CAROLINA REIS) se uniram para montar uma startup no Estados Unidos que se chama OneSkin com o intuito de fazer pele sintética: https://lavca.org/2017/03/08/entrepreneur-profile-carolina-reis-andres-ochoa-ceo-cto-oneskin/.

      Publicado em 15 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Bom Dia Augusto e muito obrigada por sua pergunta. O conceito de biohacking é bem amplo, mas uma das ideias do movimento é que pessoas da comunidade que não sejam pesquisadores possam desenvolver seus próprios projetos. Para isso, nós criamos na UFMG, em Belo Horizonte, um laboratório aberto a comunidade onde oferecemos a infraestrutura e apoio técnico para que entusiastas possam desenvolver suas ideias: https://sites.icb.ufmg.br/biolabideareal/. Por exemplo, temos professores do ensino médio atualmente desenvolvendo material para ensino de biologia para deficientes visuais e material para aulas práticas por exemplo. Temos também artistas que tem procurado o espaço. Por exemplo, este ano um artista recriou a obra de arte Gênesis do Bioartista Eduardo Kac: http://www.ekac.org/geninfo2.html.

      Publicado em 15 de agosto de 2019 Responder

  • Ana Maria

    Como essa área se relaciona com a bioética? Há alguma preocupação sobre isso?

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

    • Anônimo

      Ana Maria, sua questão é de extrema importância. O biohacking tem criado muita polêmica devido ao fato de vários entusiastas na área não se preocuparem com a questão bioética e quererem testar em si próprios dispositivos ou sistemas que ainda não sabemos quais as consequências isso possa ter para os indivíduos. Nós, do meio acadêmico somos muito preocupados com as questões bioéticas e de biossegurança. Atualmente, seguimos a legislação brasileira que se aplica ao uso de organismos geneticamente modificados. Mas é claro que a legislação precisa evoluir visto que temas como reprogramação de embriões e alterações dos códigos genéticos humanos estão avançando muito rapidamente. Mas, é realmente difícil controlar o que se passa fora da academia. Respondi à sua questão?

      Publicado em 15 de agosto de 2019 Responder

      • Liza Figueiredo Felicori Vilela

        Ana Maria, sua questão é de extrema importância. O biohacking tem criado muita polêmica devido ao fato de vários entusiastas na área não se preocuparem com a questão bioética e quererem testar em si próprios dispositivos ou sistemas que ainda não sabemos quais as consequências isso possa ter para os indivíduos. Nós, do meio acadêmico somos muito preocupados com as questões bioéticas e de biossegurança. Atualmente, seguimos a legislação brasileira que se aplica ao uso de organismos geneticamente modificados. Mas é claro que a legislação precisa evoluir visto que temas como reprogramação de embriões e alterações dos códigos genéticos humanos estão avançando muito rapidamente. Mas, é realmente difícil controlar o que se passa fora da academia. Respondi à sua questão?

        Publicado em 15 de agosto de 2019

  • João Raphael

    O q já está sendo aplicado na vida real?

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Boa Tarde João Raphael e muito obrigada pela pergunta.
      A área que motivou o movimento Biohacking é a biologia sintética e desta área existem vários projetos no mercado. Por exemplo, o site http://www.synbioproject.org/cpi/applications/ lista 116 produtos que estão no mercado ou próximo de serem lançados. Por exemplo, já foi produzida um medicamento para o tratamento da malária, a artemisinina, através da manipulação genética de leveduras. A humanização de pulmões de porcos, por exemplo, para utilização em transplantes já está em fase final de desenvolvimento. Além disso, produtos para o diagnóstico de doenças e que não utilizem organismos geneticamente modificados estão sendo produzidos pela empresa francesa SkillCell. Além disso, os próprios biohackers desenvolveram equipamentos caros de laboratórios como pipetas, máquinas de PCR, entre diversos outros, com baixo custo, o que facilita a democratização e acesso à essas máquinas.
      Ainda, biohackers desenvolveram kits para sequenciamento dos nossos genomas a baixo custo ou para o ensino da engenharia genética para o grande público. Esses são apenas alguns dos inúmeros exemplos que já existem na área.

      Publicado em 15 de agosto de 2019 Responder

  • Joana Vieira

    Esses exemplos citados no texto já existem? Onde?

    Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Obrigada Joana pela pergunta! Alguns dos exemplos existem e outros estão em desenvolvimento. Por exemplo, no caso de obras de arte feita por organismos geneticamente modificados temos o exemplo de obras do artista Eduardo Kac, brasileiro mas atualmente professor nos Estads Unidos. O Eduardo fez a obra Alba, um coelho que teve inserido nele um gene que codifica para uma proteína fluorescente da água viva. Esse coelho fica fluorescente: https://www.ekac.org/gfpgalaxia.html. Este artista desenvolveu também a obra gênesis, no qual ele selecionou um trecho do livro gênesis da Bíblia e transformou esse trecho em código morse e depois em sequência de DNA e depois inseriu essa sequência em uma bactéria e desta maneira desenvolveu sua exposição. A idéia de privadas inteligentes ainda precisa vencer algumas barreiras como a de combinar componentes eletrônicos em um ambiente molhado, então vários estudos ainda precisam ser feitos antes deste projeto se tornar realidade em nossas casas. Já no caso de iluminar cidades com organismos vivos. Essa idéia começou a ser desenvolvida em 2010 por alunos de graduação da Inglaterra, no qual eles combinaram o gene que codifica a proteina luminescente do vagalume e o inseriram em bactérias. Desta maneira, as bactérias começaram a brilhar. Depois disso, surgiu uma empresa, a glowing plant em que o gruop está tentando fazer plantas que brilhem no escuro. Já imaginou se ao invés de postes tivermos plantas brilhantes? A empresa ainda está tendo alguns problemas para otimizar a tecnologia e além disso questões de biossegurança e bioética precisam ser discutidas até que o projeto chegue até nós.

      Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

  • Carlos

    Há diferença entre biohacker e geneticista?

    Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Olá Carlos, existe bastante diferença sim. Geneticista é um profissional, alguém que teve uma formação de vários anos e que atua no campo da genética (de microorganismos, plantas, animais ou humanos por exemplo). Já o biohacker é geralmente um curioso, não necessariamente alguém que teve uma formação na área ou nenhum tipo de formação. Podem ser alunos de graduação, artistas, empresários ou simplesmente curiosos. Além disso, não necessariamente eles trabalham com genes. Eles podem, por exemplo, trabalhar com eletrônica e produzir dispositivos de baixo custo. Mas, um geneticista pode ser um biohacker. Ficou clara a diferença?

      Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

  • José Mello

    Olá, professora, tudo bem? Por um lado qualquer nova descoberta na ciência é sempre bem-vinda, e seus possíveis usos. Mas quais os riscos que a aplicação e a administração de biohacking no nosso dia-a-dia podem trazer? Pergunto isso pois imagino poder haver um descontrole “populacional” desses organismos, podendo acontecer catástrofes de todos os tipos, além de possíveis doenças e poluição. Acredito que a nanotecnologia apesar de bem diferente corre esse risco parecido, o de descontrole da autoreprodução desses organismos/máquinas. Pode parecer meio óbvio, mas a ciência do biohacking está se preparando para os ônus de se manipular em larga escala organismos vivos, assim como os bônus.
    Obrigado desde já!

    Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

  • José Mello

    (Corrigindo)
    Olá, professora, tudo bem? Por um lado qualquer nova descoberta na ciência é sempre bem-vinda, e seus possíveis usos. Mas quais os riscos que a aplicação e a administração de biohacking no nosso dia-a-dia podem trazer? Pergunto isso pois imagino poder haver um descontrole “populacional” desses organismos, podendo acontecer catástrofes de todos os tipos, além de possíveis doenças e poluição. Acredito que a nanotecnologia apesar de bem diferente corre esse risco parecido, o de descontrole da autoreprodução desses organismos/máquinas. Pode parecer meio óbvio, mas a ciência do biohacking está se preparando para o ônus de se manipular em larga escala organismos vivos, assim como o bônus?
    Obrigado desde já!

    Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Caro José, sua pergunta e suas colocações são extremamente relevantes e importantes. É muito difícil estimar os riscos que poderemos ter. Para te dar um exemplo sobre essa complexidade vou falar sobre os alimentos transgênicos. Até hoje nós não sabemos se existem riscos ou não. Sabemos que a maioria da soja e do milho do Brasil são transgênicos. Isto apresenta risco para a nossa saúde? Provavelmente não, mas pelo meu conhecimento não temos estudos sufientes que mostram isso. Sabemos que a transgenia ocorre naturalmente. Temos o exemplo de batatas doces gigantes que “roubaram” genes de hormônios de crescimento de microorganismos do solo e desta maneira são naturalmente transgênicas. Agora, se fizermos isso em laboratório aceleraria o risco de ocorrer essa transferência de genes mais rapidamente entre os organismos? Realmente não sabemos. O importante é sabermos dos possíveis riscos para tomarmos nossa decisão de consumir ou não esses produtos por exemplo. Eu particlarmente consumo.
      Se tivermos um milho muito bom feito por transgenia isso vai acabar com as outras espécies de milho? Talvez.. Esse é um outro aspecto. Isso sim creio que possa causar como você falou o desequilíbrio populacional. Esta questão que você levantou é uma das mais complexas da área e exige um esforço muito grande da comunidade para nos preparmos para tudo o que está acontecendo com muita rapidez.

      Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

  • Nayara Ferreira

    Olá, estou a ponto de me formar em biomedicina, porém minha profissão anterior foi como programadora, na área de tecnología. Com algumas pesquisas, verifiquei que fora do Brasil, existe a profissão de Bioinformata (pós graduação em informática biomédica)…. Gostaria de saber, por onde seria interessante começar a melhorar minhas skills, onde focar…. E se aqui no Brasil há um espaço pra esse profissional, ou se há apenas no exterior. Ansiosa pela resposta, além de muito feliz por existirem profissionais, pra admirar e ver que é possível ser cientista 😀

    Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

    • Liza Figueiredo Felicori Vilela

      Olá Nayara! Você tem um perfil de formação maravilhoso! De que região do Brasil você é? Temos vários programas de pós-graduação em Bioinformática no Brasil. A UFMG mesmo possui o melhor curso do Brasil, nível 7 da CAPES. Temos alunos tanto da área de informática quanto da área de biológicas. Eu mesma sou professora do curso. Além disso, existem os programas de pós-graduação em Bioinformática da USP, da UFPA, da UFPR entre outros. No Brasil há muito espaço para esse profissional. Nossos alunos são muito procurados e são rapidamente inseridos no mercado de trabalho principalmente por empresas da área de saúde e laboratório privados que desenvolvem pesquisa. No Brasil existem realmente muitos profissionais incríveis e apesar de muitos desafios a ciência é fascinante.

      Publicado em 16 de agosto de 2019 Responder

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