Carne cultivada em laboratório, é sério isso?

Preocupação ambiental? Solução para o abate de animais? Alternativa para vegetarianos e veganos? O que é e qual o propósito da carne cultivada em laboratório?

A carne cultivada em laboratório, também conhecida como clean meat, pode ser definida como uma carne produzida a partir da combinação de técnicas de biologia celular e bioengenharia. Ela é idêntica, em nível celular, à carne convencional. A tecnologia de produção dessa carne segue as etapas de cultura celular convencional em laboratório, que se dá com a retirada de um pequeno pedaço do tecido muscular do animal, isolamento das células, em geral células tronco, e cultivo dessas células em um meio contendo os nutrientes necessários para a proliferação e maturação do tecido muscular. O processo produtivo tem sido considerado mais sustentável que o método convencional e ainda não envolve a criação e abate de animais!

Roberta Viana
CEFET-MG

USE A SEÇÃO ABAIXO PARA INTERAGIR COM O AUTOR

Seu e-mail não será compartilhado com terceiros.

Matéria publicada em 21.08.2019

COMENTÁRIOS

  • Dyonei Januário (via Facebook)

    Tem que ter matéria esclarecendo pra alguns que se perguntam sobre essa carne ser cancerígena, Não sei de onde tiraram isso.

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • José Mello

    Olá, professora. Então todos os tipos de carne podem ser produzidos dessa maneira, bastando ter as células-tronco embrionárias de cada tipo? Mas e quanto aos possíveis riscos de defeitos genéticos que podem ser passados adiante, assim como a contaminação dessa carne assim como a da convencional, com doenças como a da “vaca louca” ou gripes aviárias? Como garantir na seleção e produção desse tipo de carne que não existam esses riscos?

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Olá José
      Em teoria todos os tipos poderiam ser produzidos sim, entretanto cada tipo de célula e cada espécie pode demandar de uma metodologia específica. Em geral, cada grupo de pesquisa ou startup tem um método próprio, muitas vezes protegidos em patentes. As células, em geral, são as células tronco adultas. Além disso, grande parte das pesquisas tem sido concentradas no desenvolvimento de linhagens celulares.
      A carne de laboratório, tem menos risco de contaminação que a convencional, já que é crescida em um ambiente limpo e controlado. Doenças como vaca louca e gripe aviária são evitadas simplesmente controlando-se a fonte de células.

      Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • Dioney froes

    A carne cultivada em laboratório também vem com a “gordurinha” que a carne do animal tem?

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      A carne de laboratório que vai chegar mais rapidamente ao mercado ainda não vem com a “gordurinha”. O que temos de mais desenvolvido atualmente é uma espécie de carne moída constituída somente de tecido muscular. Essa carne moída, tem sido combinada com outros ingredientes para compor hambúrgueres, nuggets, salsichas. Esse é primeiro tipo de produto que teremos no mercado. Algumas empresas têm concentrado esforços no desenvolvimento de um tecido mais complexo, composto de músculos e gordura. Essa carne mais completa é mais difícil de ser obtida, pois depende do crescimento de diferentes grupos celulares em um mesmo ambiente, exigindo o uso de técnicas mais elaboradas da Engenharia de Tecidos.

      Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • Ana Maria

    Olá, essa carne já é produzida? O q falta para chegar ao consumo? Há pesquisas nessa direção no Brasil?

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Olá Ana Maria!
      Ela já é produzida sim e inclusiva já foi experimentada por diversas pessoas. O que falta para que ela possa chegar ao consumidor é a produção em larga escala e a redução do custo de produção. Diversas startups ao redor do mundo, estão tentando desenvolver metodologias para superar tais desafios, sendo que uma dela é brasileira, a Biomimetic Solutions.
      Pesquisas para o desenvolvimento dessa carne também estão ocorrendo no CEFET-MG e na UFMG

      Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • João Vitor Soares

    A questão não é necessariamente se eu comeria ou sobre o gosto, mas sim se esse processo consegue sustentar, sei lá, pelo menos metade da população mundial, ou seja, se tem o mesmo poder da agropecuária atual. Tendo o mesmo poder de sustento da agropecuária atual, mas sendo mais ecologicamente adequado ao meio-ambiente, é muito válido o uso desse processo, diferentemente dos produtos “orgânicos” que são comercializados que sustentam apenas quase 1% da população mundial. Então não adianta ser somente “eco friendly”, tem que ser acessível, tem que usar menos recursos naturais no processo, tem que poluir menos o ambiente e ao mesmo tempo tem que sustentar muita gente, pois, em breve, seremos 10 bilhões.

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • Guilherme

    Li afirmações de empresas como Mosa Meat, Aleph Farms, Just e Memphis Meats dizendo que hoje não se usa mais ingredientes animais (como soro bovino fetal) para fazer carnes artificiais. Alguns pesquisadores dizem que ainda não é possível substituir aminoácidos, proteínas e outros componentes nutricionais animais pro crescimento celular. Então pergunto, as empresas realmente já não estão mais usando nada de animal na produção ou existe um exagero no marketing quando o assunto é ética na produção de carne?

    Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Muitas dessas empresas tem buscado os componentes nutricionais em fontes vegetais, entretanto não há muita divulgação sobre a formulação exata utilizada por eles. A questão é que eles dependem desse meio livre de soro fetal bovino, também para escalar a produção. O SBF é muito caro, e nunca será possível obter levar essa carne para o mercado com um preço acessível ao consumidor, sem a eliminação desse soro.

      Publicado em 21 de agosto de 2019 Responder

  • Laenne

    Sabe-se que as carnes de modo geral, como todos alimentos e a vida em si, possuem micro organismos e vitaminas necessárias à vida humana.
    Em relação aos micro organismos, de que maneira eles estarão inseridos nessa carne e quais seriam as vantagens de consumir essa carne para a saúde humana ?
    Haveria a possibilidade de colocar nela algum antimicrobiano ou antibiótico que poderia combater alguma doença ?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Olá Laenne

      O processo de produção é similar ao cultivo de células em laboratório que demanda de um ambiente extremamente limpo e livre de contaminação com qualquer microorganismo. A presença desses poderia afetar o crescimento das células e o sucesso do processo de produção. Além disso, o cultivo da carne em laboratório permite que seja produzida uma carne “limpa” (Clean Meat), livre de qualquer microorganismo e também livre dos antibióticos e hormônios que são em geral aplicados nos animais para evitar a propagação de doenças e promover um desenvolvimento mais rápido desses animais.
      As vantagens de consumo dessa carne são o consumo de uma carne livre de hormônios e antibióticos, atualmente ingerimos uma certa dose dessas substâncias através da alimentação. Existe também a proposta de uma carne sem gordura animal, o que pode reduzir os riscos de aumento de colesterol devido à gordura animal. Empresas como a Memphis Meat tem adicionado de gorduras vegetais à carne, que seriam mais saudáveis.

      Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

  • Laura

    Oi, Roberta.
    A questão maior pra mim é se essa carne é de fato NECESSÁRIA pra saúde humana, ou seja, se o ser humano precisará se alimentar de produtos produzidos em laboratório ou se uma dieta equilibrada e nutritiva sem uso de carnes não bastaria para amenizar os tantos impactos ambientais gerados pela pecuária. A carne de laboratório não seria apenas uma forma melhor de manutenção de desejos e hábitos que hoje não são sustentáveis?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      /olá Laura,
      Eu entendo que a necessidade da carne de laboratório é sim para manter os nossos hábitos alimentares. Concordo com você que a adoção de uma dieta mais equilibrada é capaz de reduzir significativa os impactos ambientais, inclusive eu adoto esse conceito e sou vegetariana. Porém essa mudança não é tão simples, já que o consumo de carne está associado não só a uma necessidade nutricional, mas também a aspectos sócio-culturais. Os dados mostram que o número de vegetarianos e veganos, ou até mesmo de pessoas que simplesmente tem buscado reduzir o consumo de proteína animal (os flexitarianos), tem crescido no Brasil e nos EUA (considerados os maiores consumidores mundiais), porém o número de consumidores de carne em países, principalmente bovina, em países como a China e India ( tem aumentado consideravelmente.

      Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

  • Rosa de Paula

    De que é a composta a carne de laboratório e como é realizado o cultivo dela?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Olá Rosa
      A carne cultivada em laboratório que está mais próxima de chegar ao mercado é composta de fibras musculares somente. Porém, há pesquisas em andamento para fazer uma carne “completa”, ou seja, o tecido muscular constituído de fibras musculares, gordura e tecido conjuntivo.
      Há diversos processos de cultivo, alguns descritos na literatura e alguns ainda com um segredo industrial. De uma forma bem generalizada podemos descrever o processo processo para a produção da carne mais simples (fibras musculares) iniciando com o isolamento das células (células satélites ou mioblasto). Essas são expandidas e levadas a um biorreator contendo partículas de um polímero comestível (alginato é um exemplo). As células aderem à tais partículas, proliferam e diferenciam até a formação das fibras musculares. O biorreator é essencial para manter um meio dinâmico permitindo a disponibilidade de nutrientes para as células, trocas gasosas e mantendo o ambiente a uma temperatura igual a fisiológica.
      No caso da carne mais completa, é necessário o uso de técnicas mais elaboradas da Engenharia de Tecidos. Uma das propostas consiste de adicionar uma etapa de cultivo celular em uma matriz que mimetiza a matriz extracelular do corpo. Essa matriz é denominada scaffold. O scaffold serve de suporte para as células enquanto elas crescem e desenvolvem até formar o tecido. Ele é importante pois permite a co-cultura de células, além de dar uma forma para essa carne em desenvolvimento. Uma descrição simplificada para esse processo é: as células são isoladas, expandidas e levadas ao biorreator para a etapa de proliferação, em seguida elas são semeadas nos scaffolds para passar por um processo de maturação e formação do tecido.

      Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • Daniel Dionísio

    Em quanto tempo será possível comprar no mercado uma alcatra ou um filé mignon ?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Carnes do tipo alcatra ou filé mignon são consideradas um produto mais elaborado da Clean Meat. Esse tipo de carne mais complexa e estruturada ainda demanda de uma pesquisa elaborada, porém a empresa Aleph Farm que tem o processo mais avançado para esse tipo de produto propõe entrar no mercado no ano de 2023.

      Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

  • Janayna Terlera

    Existe produção desta carne no Brasil?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Ainda não. O que temos no Brasil são apenas experimentos em escala laboratorial.

      Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

  • Cibele

    Não será uma alternativa aos veganos ou vegetarianos, pq em sua essência ela ainda será retirada da carne. Mas acredito que seja uma excelente maneira de diminuir os impactos da pecuária no meio ambiente. Qual será o custo deste produto para o consumidor final? De nada adianta investir em uma tecnologia que não seja acessível a todos.

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Roberta

      Você tem razão sobre não ser uma alternativa para veganos e vegetarianos! Inclusive eles não são o alvo da Clean Meat. A proposta é ter uma carne com menos impacto ambiental para a parte da população que não pretende mudar os hábitos alimentares.
      A proposta das empresas que estão desenvolvendo a Clean Meat é levar para o mercado um produto com preço similar ou até mais baixo que o preço que pagamos hoje pela carne.

      Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • No

    Voces falam em carne livre de antibioticos, hormonios para desenvolvimento mais rapido dos animais, o que a cabamos ingerindo de forma indireta, O que seria os fatores de crescimentos celulares senao hormonios?

    Publicado em 22 de agosto de 2019 Responder

    • Lane

      Pergunta interessante

      Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • Leandro (via Instagram)

    Qual a toxicidade deste produto ?

    Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • Osbournealessandro (via Instagram)

    Qual a toxicidade dessa carne? Se acabar com a matança de animais, o q será feito da grande população de animais que já existe?

    Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • Brian (via Facebook)

    Os valores de lipídios e proteínas terão os mesmos níveis que a carne verdadeiramente animal?

    E essa ainda poderia ser uma forma de evitar a ingestão de príons como o causador da DCJ?

    Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • João Paulo (via Facebook)

    Daqui a quanto tempo a carne com sabor peixe estará disponível?

    Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

  • Mr. J

    Li em outras perguntas que ainda são usados compostos animais na confecção de carnes em laboratório. O que já existe sobre a confecção de carnes completamente artificiais que sejam vegan-friendly? Muito obrigado!

    Publicado em 23 de agosto de 2019 Responder

CONTEÚDO RELACIONADO

Biohacking, o que é isso?

Privadas capazes de analisar fezes e urina. Cidades iluminadas por organismos vivos. Obras de arte produzidas por organismos geneticamente modificados. Tudo criação de biohackers!

Pioneira na genética

Primeira mulher a se doutorar em história natural no Brasil, Chana Malogolowkin descobriu uma linhagem de drosófilas que não gerava machos, e usou, pela primeira vez, os órgãos genitais dessas moscas para classificar as espécies irmãs.