Ciência e política em tempos de negacionismo

Compreender os fatores que culminaram na decisão de vários governantes de voltar às ruas antes do tempo recomendado para enfrentar a pandemia do coronavírus demanda uma análise cuidadosa. Não se trata de falta de entendimento do problema por parte da população, mas de uma incompatibilidade de mundos: as verdades científicas não têm conseguido engajar a maioria das pessoas num projeto comum, nem servido de ponte para conectar necessidades individuais a projetos coletivos.

A ciência tem ocupado boa parte dos debates nas redes sociais e nos noticiários. Ainda assim, tem sido difícil convencer os brasileiros da necessidade de manter o isolamento social enquanto a pandemia continuar a avançar. As explicações são muitas e – frequentemente – elitistas: vão desde a natureza de nosso povo, que gosta demais de convívio social e da rua, até certa deficiência educacional ou moral, que atrapalharia sua compreensão das verdades científicas ou o tornaria alheio ao bem comum.

Claro que um presidente que desafia a medicina, as instituições internacionais e a ciência contribui para o enfraquecimento da palavra dos especialistas. Mas as vozes que enfatizam a gravidade da pandemia e a necessidade do isolamento social são significativas: parlamentares, instituições científicas e grande mídia (principalmente, a campeã de audiência!). Governadores e prefeitos também estiveram do lado da quarentena num primeiro momento. Havia escolha, portanto, para quem quisesse ouvir os conselhos da ciência. Diante disso, compreender os fatores que culminaram na decisão de voltar às ruas antes do tempo recomendado demanda uma análise cuidadosa.

Neste artigo, rejeitamos de antemão hipóteses que partam da separação entre ‘nós’ – as analistas esclarecidas – e ‘eles’ – um povo supostamente ignorante, inculto ou egoísta. Uma matéria do jornal O Globo, publicada em 11 de junho de 2020, tratava da impressionante multidão atraída aos shoppings do Rio de Janeiro, reabertos à frequentação naquele mesmo dia. Muitos ficaram assombrados – não sem razão – pela decisão da prefeitura de permitir a reabertura dos estabelecimentos comerciais num momento em que a pandemia estava ainda longe de ser controlada. Mas, justamente porque tantos de nós já não esperamos coerência ou proteção desses governantes, o que aparentemente causou mais espanto foi a avidez com que tantas pessoas responderam ao chamado de ‘retorno à normalidade’, mesmo com os números de infectados e mortos aumentando.


O que aparentemente causou mais espanto foi a avidez com que tantas pessoas responderam ao chamado de ‘retorno à normalidade’, mesmo com os números de infectados e mortos aumentando

Nesse contexto, a frase dita por um dos entrevistados na reportagem, que aguardava pacientemente na fila para entrar no shopping, pode soar atordoante: “É engraçado: sou contra, mas estou aqui. Acho que o shopping é lazer, bem-estar, conforto e segurança. Mesmo vindo, acho que não era o momento da reabertura. Estamos em uma situação crítica e acredito que vai aumentar o número de casos. Mesmo assim, a gente é tentado a vir”.

 

Sinais contrários

O testemunho expressa desorientação, de fato, mas não ignorância. As narrativas da ciência são ouvidas, mas não bastam para induzir comportamentos. Esse é o nó. Vivemos tempos em que sinais contrários são emitidos todo o tempo, evidenciando um conflito de autoridade, declarado de modo assustadoramente exemplar nos gestos do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Uma pesquisa do final de maio de 2020, conduzida pelo Datafolha, mostrou que, ainda que 60% dos entrevistados se digam a favor do lockdown (confinamento estrito), 52% acham que pessoas fora do grupo de risco devem voltar a trabalhar. Não faria sentido, assim, explicar essa aparente contradição afirmando que falta informação. Parece que essas pessoas queriam manter o isolamento – e até radicalizá-lo! – mas se sentem compelidas a voltar à normalidade. Claro que parte importante se explica pela necessidade daqueles que não têm meios materiais para sobreviver na quarentena.

A narrativa de Bolsonaro e de outros governantes usou descaradamente essa chantagem para minar o isolamento social. Isso só reforça o imperativo material como fator determinante para que a verdade científica induza ações e comportamentos, tornando ainda mais elitistas os diagnósticos que tentam eclipsar a agência e a autonomia de boa parte da população ao ‘escolher’ sair às ruas. Nossa hipótese é a de que não há déficit de conhecimento ou de saber atuando como pressuposto dessas ações: as pessoas sabem dos riscos, mas o que explica a contradição entre o que elas sabem e fazem é uma ‘incompatibilidade de mundos’.


Não há déficit de conhecimento ou de saber atuando como pressuposto dessas ações: as pessoas sabem dos riscos, mas o que explica a contradição entre o que elas sabem e fazem é uma ‘incompatibilidade de mundos’

Essa defasagem se estabelece não apenas entre as diferentes classes sociais, mas também no interior delas, com a crescente cisão que a chamada ‘crise da democracia’ vem provocando entre nossas vidas privadas – incluindo nossas relações mais próximas – e nosso senso de pertencimento a uma coletividade ampliada (a sociedade). Essa crise da democracia, evidentemente, reverbera nas instituições que a sustentam, o que não exclui a ciência. É assim que suas verdades não têm conseguido engajar a maioria das pessoas num projeto comum, não têm contribuído para a construção de um tecido social coeso, não têm servido de ponte para conectar necessidades e desejos individuais a projetos coletivos.

 

Relações complexas e imprescindíveis

Conhecer não implica necessariamente se engajar. E as verdades que mais afligem nos dias de hoje demandam ação, mais do que informação. É aqui que as relações entre ciência e política se tornam tão mais complexas quanto imprescindíveis.

As contradições vividas na pandemia servem de pistas para outras ainda mais graves – pois menos efêmeras – que virão com o colapso climático. O filósofo francês Bruno Latour vem alertando, desde muito antes da pandemia, para a necessidade de enxergar o engajamento como tarefa bem distinta do convencimento ou do debate racional. Cientistas e ativistas do clima, mesmo legitimados por instituições como o IPCC (Painel do Clima da ONU), estão sendo contestados por negacionistas que reivindicam precisamente “a liberdade de investigação científica para poluir não apenas a atmosfera, mas também a esfera pública”. A explicação sugerida por Latour é incômoda: ambos os lados, climatólogos e negacionistas, usam o mesmo repertório ‘ciência versus política’.

Diz Latour: “Em primeiro lugar, ‘ambos os lados’ sustentam que a ciência trata de fatos da natureza, distantes e desapaixonados, ao passo que a política envolve a ideologia, as paixões e os interesses, cuja intrusão na ciência não pode fazer outra coisa senão distorcer os fatos propriamente ditos. Em segundo lugar, ‘ambos os lados’ concordam que as políticas devem seguir a expertise científica e que não podemos tomar decisões baseadas em uma ciência incerta. A dificuldade é que esse repertório (refutado por 50 anos de estudos de casos históricos) é também compartilhado por grande parte do público. (…) Parte um: a ciência trata de fatos incontroversos e incontestáveis. Parte dois: a ciência fornece subsídios para as políticas. Uma vez que é nisso que todos os políticos – e todos os espectadores – acreditam, e uma vez que é essa também a maneira pela qual os programas de TV organizam os debates como se fossem juízes em uma sala de tribunal, torna-se incrivelmente fácil fazer emergir dois lados mesmo quando existe apenas um”.


Somos tentados a usar a ciência como arma contra a política porque temos políticos ruins

Durante a pandemia, foram inúmeros os exemplos desse tipo de argumentação, usando a ciência para submeter a política, como se, de um lado, houvesse apenas neutralidade e, de outro, apenas interesse e ideologia. Somos tentados a usar a ciência como arma contra a política porque temos políticos ruins. Contra a “gripezinha” de Bolsonaro, amplificamos o alarme de números de mortos beirando o milhão, com base em estudos cuja incerteza era bem menos enfatizada do que a autoridade.

Do outro lado, não faltaram especialistas encarnando o negacionismo. Salta aos olhos que o mais influente tenha sido um francês, Didier Raoult, o médico por trás das primeiras hipóteses sobre a efetividade da cloroquina. Não foi só entre nosso povo supostamente ignorante – que eufemismos condescendentes apontam como ‘pouco escolarizado’ – que a crença na cloroquina se disseminou. Uma pesquisa mostrou que mais de 60% dos franceses acreditaram na sua eficácia, levando o presidente Emanuel Macron a mudar radicalmente sua atitude, inicialmente refratária, passando a acolher Raoult em seus círculos de influência – para terror dos ‘esclarecidos’.

Políticos são eleitos pelo povo e precisam dar respostas firmes. Os negacionistas adquirem poder em momentos agudos justamente porque trazem soluções prontas, tarefa que a ciência séria não pode realizar. A cloroquina era essa mágica de que alguns políticos, principalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Bolsonaro, precisavam para ‘retomar a economia’. Especialistas servem bem à política quando produzem certezas. Mas, embora a imagem de experts detentores de um saber indisputável tenha servido para a consolidação da autoridade da ciência, as incertezas que cercam as questões prementes de nosso tempo – como o comportamento do vírus e os impactos das mudanças climáticas – acabam sendo usadas pelos detratores da ciência para desqualificar o conhecimento que ela produz.

O imbróglio do artigo da revista britânica The Lancet que supostamente atestava a ineficácia da cloroquina ilustra bem o quanto a temporalidade da ciência é incompatível com a demanda da opinião pública. Na pressa de apresentar uma resposta para a controvérsia, a credibilidade dos dados do estudo não foi verificada, o que acabou servindo de munição para os que atacam a ciência de forma deliberada.

Um descuido análogo foi cometido pela chefe da unidade de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria Van Kerkhove, que afirmou que doentes assintomáticos não transmitiriam o coronavírus. Ainda que a hipótese científica seja plausível (carecendo, contudo, de uma melhor especificação da diferença entre pré-sintomáticos e assintomáticos), seu anúncio em uma tribuna da OMS, palco de especialistas por excelência, a converteu imediatamente em certeza, tendo causado repercussões imediatas nas decisões políticas.

 

O papel da ciência

A força da ciência é a dúvida; sua matéria-prima, a incerteza. É pela investigação paciente e obstinada que as dúvidas vão se transformando em conhecimento confiável, ainda que nunca irrefutável. Por isso, diante da atual investida dos negacionistas para deslegitimar esse conhecimento, a ciência não pode mais se portar como a detentora de uma verdade indisputável que silencia as divergências.

Esse papel nem sempre converge com o dos expertos, que funcionam como fonte de certezas para escolhas políticas. É aos governantes que compete tomar decisões firmes, mesmo diante de uma realidade incerta e ambígua, para transmitir segurança. Foi o que fez Alberto Fernández, presidente da Argentina. Em entrevista na TV em 18 de junho de 2020, ele afirmou: “Dizem que sou um frouxo por não prestar atenção à economia. Os que prestaram atenção à economia, olhem aqui do lado, o Brasil tem 45 mil mortos. Não me façam explicar o que todos sabemos”.

A relação entre ciência e política foi especialmente caótica em países com governos negacionistas. Diante do hábito de crer em uma ciência imperial, vocalizada por expertos e reveladora de verdades incontestáveis, acabamos reforçando, sem querer, o sentimento antipolítica, desacostumando o povo a responsabilizar os governantes pelas decisões que lhes cabem. A decepção só se multiplica, o que acaba fornecendo à população razões para não escutar mais nem os políticos nem os expertos – nem mesmo cientistas, enquanto fizerem questão de ocupar o posto de especialistas.


A ciência precisa abandonar a posição de mera enunciadora de verdades a serem obedecidas e se posicionar verdadeiramente como aliada da sociedade, mostrando sua contribuição para reduzir os efeitos dessa ameaça na população

Isso não significa que a ciência deva permanecer neutra. Se, como diz Latour, não é um suposto ‘déficit intelectual’ que explica a adesão aos anticientificismos, mas sim ‘um déficit de prática comum’, o papel da ciência não pode ser meramente o de informar e esperar que obedeçam, mas sim o de suscitar o interesse por como seu conhecimento é produzido e engajar as pessoas nas possibilidades de transformação da sociedade que tal conhecimento pode permitir.

Participar de uma construção de mundo, por si só política, pode voltar a fazer sua verdade importar e, mais que isso, servir como uma aliada da reconstrução do tecido social. Um fato científico não se impõe simplesmente pela força de sua evidência, mas também pela percepção de sua relevância, pelas promessas nele encerradas, pelo engajamento que consegue suscitar na sociedade que o acolhe. Em seu mais recente livro, intitulado Onde aterrar?, Bruno Latour analisa o contexto em que se deu a eleição de Donald Trump. Para ele, não são apenas os apoiadores de Trump e do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) que vivem uma realidade alternativa: aqueles que maldizem a “estupidez das massas ignorantes” também nutrem uma concepção de mundo que carece de materialidade, apostando na crença de que “os fatos se sustentam sozinhos, sem precisar de um mundo compartilhado, de instituições e de uma vida pública”.

No que diz respeito ao colapso climático, cujo negacionismo é objeto de preocupação de Latour nesse livro, o paradigma da divulgação científica parece se pautar na ideia de que saber que há consenso científico acerca da questão tende a fazer as pessoas acreditarem que o problema existe. Contudo, a maioria da população já sabe que a mudança climática está ocorrendo (ainda que subestimem o nível de consenso científico, que hoje já beira os 100%).

Por isso, também no que diz respeito a esse fenômeno, a explicação para a falta de mobilização não se deve a uma lacuna de entendimento, mas de comunidade política. Para enfrentá-lo de forma efetiva, portanto, a ciência precisa abandonar a posição de mera enunciadora de verdades a serem obedecidas e se posicionar verdadeiramente como aliada da sociedade, mostrando sua contribuição para reduzir os efeitos dessa ameaça na população.

De forma análoga, a ciência precisa convencer as pessoas acerca da utilidade que o conhecimento científico pode ter em suas vidas. No caso das mudanças climáticas, trata-se de um desafio ainda maior, tanto mais porque o discurso ambientalista ainda hoje é percebido por grande parte da população como uma preocupação secundária, abstrata, desconectada das dificuldades mais imediatas que enfrentam no dia a dia.

Acreditamos que a ciência pode capitanear uma conexão vigorosa entre o ambientalismo e as questões sociais se deixar os interesses e as preocupações da sociedade influenciarem suas decisões e a forma como conduzem suas práticas, sem menosprezar as objeções que a sociedade pode vir a lhe fazer. Mas, para isso, ela precisa contribuir para reconectar a dimensão privada à coletiva, colocando o conhecimento confiável que produz e a extensão dos sentidos que permite a serviço da melhoria da vida das pessoas e oferecendo saídas para as aflições do presente e aquelas por vir.

Leia mais

LATOUR, B. “Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”. Tradução: Renato Sztutman. In: Revista de Antropologia (USP), v. 57, n. 1, 2014.

LATOUR, B. Onde aterrar. Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

ROQUE, T., ‘O negacionismo no Poder’, Revista Piauí, Rio de Janeiro, fevereiro/2020.

Alyne Costa

Fórum de Ciência e Cultura
Universidade Federal do Rio de Janeiro
e Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio)

Tatiana Roque

Instituto de Matemática
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 06.07.2020

COMENTÁRIOS

Envie um comentário