Construindo com a natureza

A erosão costeira é um problema grave que atinge vários países no mundo e que requer medidas de mitigação e prevenção. No Brasil, ela ocorre em 40% do litoral. Em áreas litorâneas urbanas, já é possível constatar severos transtornos, como a redução de território, a destruição de infraestrutura e de propriedades privadas, a perda de hábitats e a fragilização dos ecossistemas costeiros. As soluções, entretanto, não são óbvias nem simples, mas devem ser pensadas levando em conta a ajuda da natureza.

A erosão costeira é uma alteração no meio físico, durante determinado intervalo de tempo, que ocorre quando os mecanismos que promovem a retirada de areias de determinado segmento do litoral são mais eficientes do que aqueles que as suprem. Esse ‘saldo’ entre areias que chegam e saem é chamado de balanço sedimentar e, quando negativo, resulta em erosão.

Recentemente, o engenheiro costeiro Arjen Luijendijk e colaboradores verificaram, por meio de modelagem e imagens de satélite, que 24% das praias do planeta recuam pelo efeito persistente da erosão costeira. Nas áreas onde o recuo ocorre em taxas superiores a 5 metros ao ano, a erosão é extrema e já representa 4% do conjunto global de praias.

As causas da erosão costeira podem ser evolutivas, apontando uma tendência geológica lenta de mudanças na forma do litoral, ou episódicas, em que impactos erosivos pontuais e esporádicos, de curto prazo, modificam a linha de costa.

No primeiro caso, a erosão pode ser uma resposta à elevação relativa ou absoluta do nível do mar. Mudanças climáticas podem também levar a alterações no suprimento de sedimentos e na energia que é direcionada para o litoral. No segundo caso, a erosão ocorre em função de tempestades (ressacas) excepcionais e, sobretudo, pela alteração que o ser humano promove na linha de costa. Nesse cenário, em escala global, os fatores atribuídos à interferência humana são mineração de areias e construção de estruturas costeiras.

A excessiva extração de areias de calhas fluviais resulta em déficit de materiais para abastecer a costa. A construção de estruturas costeiras em áreas onde existe intenso transporte de sedimentos e os efeitos a sotamar (para onde se dirige a corrente ou os sedimentos) das estruturas promovem a erosão (figura 1).

Na imagem, é possível notar uma assimetria na linha de costa, como resposta da natureza à construção de estruturas perpendiculares no litoral de Barra do Furado (RJ), barrando o transporte de sedimentos.
FOTO: Roberto Moraes, 2013

Esses impactos e seus variantes, tanto associados à construção de barragens e mineração de areias em rios e estuários quanto a obras costeiras, são muito comuns no mundo inteiro. No Brasil, o geógrafo DieterMuehe mostrou, em 2005, que os problemas de erosão surgem devido à urbanização que avança sobre as praias e imobiliza faixas de movimentação da areia ainda ativas.

A erosão ocorre ao longo de 40% do litoral brasileiro e é um dos riscos ambientais importantes nas áreas litorâneas urbanizadas, que já estão enfrentando – ou devem enfrentar –problemas severos, como a redução de território, destruição de infraestrutura urbana e propriedades privadas, perda de hábitats e fragilização dos ecossistemas costeiros. E as soluções não são óbvias nem simples.

 

Soluções para defesa do litoral

Figura 2. Campo de espigões em Fortaleza, Ceará
FOTO: ME/Portal Da Copa:

Nenhuma opção de estabilização da linha de costa consegue interromper permanentemente a erosão costeira. O nível de proteção depende da opção escolhida, dos recursos disponíveis, das dimensões do projeto e das condições específicas da área em erosão. Todas as opções de defesa do litoral precisam de manutenção, com maior ou menor frequência, e requerem propostas de mitigação dos impactos ambientais negativos que proporcionam.

Para minimizar ou mitigar problemas de erosão costeira, é usualmente considerada a execução de obras que buscam a defesa do litoral. São também indispensáveis estudos que determinem parâmetros relacionados à variação relativa do nível do mar, aspectos meteorológicos e oceanográficos, estimativas de evolução da faixa costeira, entre outros, para detectar possíveis tendências do comportamento recente da área a ser tratada.

Em geral, obras de defesa do litoral são intervenções que visam transportar sedimentos, estabilizar ou ampliar a linha de costa e defendê-la contra a erosão. Podem ser classificadas entre ‘obras artificiais’ e ‘obras naturais’. As primeiras, chamadas também de ‘obras rígidas’, feitas em áreas com transporte litorâneo intenso, devem dispor essencialmente de estruturas de defesa perpendiculares à costa, ou quase, como espigões, guias-corrente e molhes (figura 2), que consistem usualmente em blocos rochosos sobrepostos utilizados para conter a ação das ondas e correntes. Nas áreas onde o transporte litorâneo é nulo, as obras devem ser dimensionadas de forma longitudinal à praia, de modo a fixar a posição da linha de costa ou a conter o efeito das ondas, como no enrocamento, no quebra-mar destacado, em muros ou paredões (figura 3).

Já as ‘obras naturais’, também chamadas de ‘obras leves’, buscam aproveitar as condições que praias e dunas, entendidas como linhas de defesa naturais, proporcionam. É o caso dos sistemas de transposição artificial de areias e dos projetos de recuperação (ou alimentação) artificial de praias e dunas. Essas são as únicas intervenções que preveem a adição de materiais semelhantes aos perdidos para repor o estoque e conter os avanços da erosão costeira.

Figura 3. Estrutura longitudinal aderente à costa do tipo enrocamento, usada para fi xar a posição da costa em Rio das Ostras (RJ)
FOTO: Eduardo Bulhões, 2018

Os sistemas de transposição artificial de areias visam suprir o déficit de sedimentos causado pela interrupção parcial ou total, seja ela por causas naturais ou artificiais, do transporte de sedimentos. Os princípios são simples e consistem no bombeamento (ou na dragagem), no transporte e na deposição das areias, da área fonte para a área de intervenção. No entanto, algumas etapas operacionais partindo do projeto do sistema e das distâncias do transporte podem ser complexas e onerosas.

 

Exemplos clássicos

O Corpo de Engenheiros Militares Norte-americanos (Usace) considera o preenchimento artificial do sistema praia-duna como a solução de melhor custo/benefício para proteger o litoral da erosão costeira. O consenso é que a construção ou recuperação do sistema praia-duna com a alimentação artificial de dunas e praias atende o problema da erosão costeira, uma vez que a duna protege a comunidade e a praia protege a duna. A duna age como uma barreira frente ao impacto de ventos e ondas e reduz a possibilidade de inundações. A praia e a duna absorvem a maior energia de uma tempestade antes que ela afete as propriedades e a infraestrutura à retaguarda.

Uma percepção enganosa comum sobre os projetos de alimentação artificial de praias e dunas é que eles são falhos, já que são destruídos pelas ondas durante tempestades. Na verdade, esses projetos têm a finalidade de absorver a energia e fazem isso se movimentando e mudando suas formas. A continuidade é uma das ideias chave, uma vez que as areias desses projetos que são ocasionalmente erodidas serão livremente movimentadas para outras áreas do litoral, o que não compromete sua estabilidade.

No Brasil, o principal exemplo desse tipo de intervenção é o que foi feito na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 1969-70, visando defender a orla urbanizada do ataque de ondas de tempestade, assim como ampliar a faixa de praia recreativa (figura 4). O engenheiro português Daniel Vera Cruz apresentou, em 1972, o resumo dos estudos e procedimentos técnicos dessa intervenção, indicando o crescimento da faixa de areia de 55 para 140 metros provenientes de 3,5 milhões de m³ de areias dragadas da zona submarina.

Figura 4. À esquerda, praia de Copacabana, no trecho do Leme (Rio de Janeiro), antes do projeto de alimentação artifi cial. À direita, visão panorâmica da praia depois do projeto
CRÉDITO: Biblioteca Nacional (esq.): e Jovita Trajcovski (dir)

Dunas protetoras

Nos Estados Unidos, proprietários de imóveis na faixa costeira costumavam ver as dunas como empecilhos para avistar o mar e ter acesso à praia. No passado, os projetos de recuperação artificial de praias mantinham o foco no alargamento da praia e não na recuperação ou construção de dunas artificiais.Após a passagem do furacão Sandy, em outubro de 2012, e contabilizadas suas consequências catastróficas, o contraste óbvio entre os segmentos litorâneos que foram protegidos da tempestade graças à absorção da energia pelas dunas e aqueles segmentos que não continham dunas e tiveram perdas materiais maiores provocou uma mudança drástica na opinião pública sobre a presença das dunas.

As dunas passaram, então, a ser vistas como commodities (produtos de qualidade) que agregam valor aos imóveis situados na frente da praia. O volume de investimentos federais para proteger a costa nos Estados Unidos vem sendo direcionado para projetos de recuperação artificial de praias, uma vez que eles são considerados como defesas ‘leves’, flexíveis, naturalmente reversíveis e facilmente modificáveis.

Figura 5. Construção de dunas artificiais para proteção costeira
CRÉDITO: PXPHERE

Diversos projetos na costa leste, oestee no golfo podem ser tomados como exemplo onde esse tipo de prática é atualmente a mais comum para resolver questões de erosão costeira(figura 5). Entre 1950 e 2006, o Usace ajudou a construir aproximadamente 550 km de projetos de recuperação artificial de praias no litoral norte-americano.

Na Holanda, desde a Idade Média, os habitantes se protegem de inundações construindo diques de frente para o mar e ao longo dos canais. Nas áreas litorâneas onde existiam dunas, os diques não eram necessários. Naquele país, dunas são historicamente conhecidas por defender o litoral e são valorizadas por abastecer as fontes de água potável através da infiltração, por criar áreas de recreação e por serem áreas críticas do ponto de vista ecológico.

Em um país onde 26% do território e 21% da população vivem abaixo do nível do mar, por determinação governamental, as obras de defesa do litoral são construídas para manter a costa na posição atual, preferencialmente por meio de alimentação artificial do sistema praia-duna. O maior projeto desse tipo em curso hoje no mundo visa conter a erosão costeira e preparar o litoral holandês para a elevação do nível do mar. Chama-se de Sandengine, ou ‘motor de areia’, e muda o paradigma de projetos para defesa do litoral ao se antecipar aos problemas de erosão e inundação, ao concentrar volumes de 21 milhões de m³ em um mega terraço arenoso, que visa atender cerca de 20 km de linha da costa em 20 anos a um custo estimado de 81 milhões de dólares – mais eficiente do que implementar projetos individuais ao longo do litoral (figura 6).

Vista aérea de sul para norte do Sand Engine na Holanda. 
Crédito: Pmblom

Ativos econômicos, sociais e ambientais

Recentemente, o governo federal brasileiro, por meio do Ministério do Meio Ambiente, lançou o Programa Nacional para Conservação da Linha de Costa (Procosta), que prevê uma série de subprojetos. Entre eles, destaca-se o de Monitoramento e Gestão para a Conservação da Linha de Costa, no qual as regiões litorâneas terão a possibilidade de transformar os ecossistemas costeiros, que cumprem a função de proteção natural (dunas, restingas, manguezais, recifes de coral), em ativos econômicos, sociais e ambientais dentro de algum tipo de mecanismo de valoração e pagamento a ser trabalhado entre os três níveis de governo.

As oportunidades no âmbito federal de conservação dos ecossistemas costeiros, em uma escala de tempo de 5 a 100 anos, deverão ser acompanhadas de mecanismos de incentivo aos estados e municípios com esses ativos ambientais.

Ao que parece, existe agora, no Brasil, uma nova e ainda incipiente consciência dos pesquisadores, cientistas e especialistas e algum esforço em nível federal de adotar as soluções baseadas na natureza (naturebasedsolutions) para defesa e restauração dos ecossistemas costeiros, entendendo-os como ativos fundamentais para a adaptação frente aos riscos de desastres naturais. É o caso da inundação e da erosão costeira, fenômenos que tendem a aumentar e se espalhar com o atual cenário de aceleração das mudanças climáticas, incluindo as projeções de elevação do nível do mar e do aumento na frequência e na magnitude das tempestades (ressacas) mais fortes.

Resta saber se a opinião pública, as grandes empresas e corporações e os gestores em nível estadual e municipal conseguirão responder e adotar as novas boas práticas de defesa da costa para os problemas atuais e futuros de erosão costeira no litoral brasileiro.

Leia mais

Alfredini, P; Arasaki, E. Obras e gestão de portos e costas: a técnica aliada ao enfoque logístico e ambiental. Editora Blucher, 2a edição, 776 p., 2009.

Loza, P. Sand bypassing systems.Masters in environmental engineering,Universidade do Porto, 2008.

Ministério do Meio Ambiente. Panorama da Erosão Costeira no Brasil. Brasília, DF, 761p., 2018.

Verhagen, H.J. Coastal protection and dune management in the Netherlands.Journal of Coastal Research, v. 6, n. 1, p. 169-179, 1990.

Eduardo Bulhões

Departamento de Geografia
Universidade Federal Fluminense

Matéria publicada em 28.02.2019

COMENTÁRIOS

  • Carlos Cézar de Freitas

    Os problemas e as soluções mostradas são acompanhadas desde muito tempo, mas, depois de 2013, o engenheiro Carlos Cézar, foi convidado a resolver um problema de “eros costeira” em uma praia no estado do Ceará, praia de Icaraí-CE. De lá prá cá estudou os problemas e chegou a uma conclusão, que é uma inovação, o projeto “CÉZARSWELL” eológico. estruturas pré-moldadas de concreto, lançadas a “offshore”, aprox. 250m, da costa, com objetivo de diminuir a intensidade das ondas, não interferindo na vida ambiental.

    Publicado em 2 de março de 2019 Responder

    • ana clara e clara

      seu saite e muito comfiavel e interesante

      Publicado em 7 de março de 2019 Responder

  • Carlos Cézar de Freitas

    O projeto “CÉZARSWELL” ecológico, são estruturas pre-moldadas de concreto armado, instaladas a “offshore”, 250m da costa. Seus módulos são constituídos de uma seção inclinada e vazados para passagem livre dos sedimentos existentes na praia, A instalação dos módulos são geralmente na zona de arrebentação, onde se aproveita o acréscimo das grandes tempestades, não deixando que as ondas agressivas cheguem a costa, evitando dano aos bens públicos e privados. A seção inclinada, vazada e o local exato da instalação dos módulos, tem o objetivo de apenas tocar na massa das ondas de tempestades, quando por ventura aparecer, se tornando uma solução que funciona com ajuda da Natureza. A seção instalada apenas toca nas ondas de tempestades, deixando os sedimentos a deriva, deixando o balanço sedimentar “livre”. A seção apenas diminui a intensidade das ondas de tempestades. A seção tem a tendência a corresponder uma estrutura como “obra Natural”, pois, apesar de ser aparentemente uma obra artificial (Rígida) com funcionamento de uma obra Natural, pois, não tocamos nos sedimentos, não existe transportes de sedimentos. E com a seção vazada passa a ser uma “obra leve”, existindo uma grande possibilidade de uma engorda natural, e não engorda artificial., que é muito cara aos olhos de hoje. Quando se fala em regenerar praias e dunas para conter a erosão costeira é uma obra muita cara, com a inexistência de jazidas próximas as necessidades. O objetivo do projeto é preservar a costa sempre “nativa”, sem a presença de “rocha” ou qualquer outra estrutura, como muros, enrocamentos, espigões, que venham poluir o meio ambiente. O projeto “CÉZARSWELL” ecológico, está no contexto do PLANO NACIONAL DE COMBATE AO LIXO NO MAR (PNCLM),pois acha que a “rocha” utilizada nas obras contra erosão costeira é poluição ambiental, uma visão de lixo costeiro. O uso da “rocha” traz impactos no turismo, saúde, segurança dos usuários (banhistas), sendo a “rocha” uma degradação do meio ambiente. O PNCLM, apoia e incentiva projetos que desenvolvem tecnologias relacionadas ao combate ao lixo do mar. O projeto “CÉZARSWELL” ecológico, é um projeto NOVO, uma INOVAÇÃO, e, tem um impacto ambiental positivo em defesa do litoral mais equilibrado, proporcionando melhor qualidade de vida ao cidadão brasileiro.

    Publicado em 27 de março de 2019 Responder

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