Filhos depois do câncer

Entre 2008 e 2012, estatísticas do programa Vigilância, Epidemiologia e Resultados Finais do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos mostraram pequena diminuição da incidência geral de câncer e também da mortalidade pela doença em pessoas com até 49 anos de idade. Entre os dados, constava a expressiva chance de sobrevivência de mulheres que receberam diagnóstico de câncer antes dos 45 anos – cerca de 84% teriam pelo menos mais cinco anos de vida pela frente. Além disso, nos Estados Unidos e na Europa, a sobrevida de crianças com câncer atinge hoje taxas próximas de 80%, o que nos leva a imaginar que, em cada 600 adultos jovens, haja ao menos um sobrevivente de câncer na infância ou adolescência.

São dados animadores e que remetem a avanços importantes na medicina. Mas também são dados que trazem novas preocupações: a sobrevida desses pacientes pode ter sua qualidade comprometida pelos danos adversos da quimioterapia ou radioterapia pela qual tiveram que passar. Um desses efeitos é a infertilidade, pelo comprometimento de ovários e testículos durante o tratamento.

Em um tempo em que a incidência e as consequências do câncer diminuem, ainda que discretamente, e em que proliferam sobreviventes, observa-se também outra tendência paralela: a de deixar a maternidade para mais tarde, depois dos 30 ou mesmo dos 40 anos. Nesse cenário, é possível que cada vez mais diagnósticos da doença sejam dados a mulheres que ainda não foram mães. Essas pacientes sofrerão as consequências dos tratamentos anticâncer e verão comprometidos seus possíveis planos de maternidade.

 

Oncofertilidade

Com essa preocupação, nasceu, há cerca de uma década, a oncofertilidade, uma fusão entre as disciplinas de reprodução assistida e oncologia. Esse campo interdisciplinar de estudo das estratégias de preservação da saúde reprodutiva de sobreviventes do câncer busca garantir aos pacientes que, quando livres da doença e em condições de procriar, possam ter chances de tentar a maternidade ou a paternidade biológica por meio da fertilização in vitro.

A cada ano, mais de 830 mil mulheres em todo o mundo poderiam ser beneficiadas pela preservação da fertilidade

Ao considerarmos que cerca de 10% dos casos de câncer nas mulheres ocorrem antes dos 45 anos de idade, com sobrevida de cerca de 85% – segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde –, podemos deduzir que, a cada ano, mais de 830 mil mulheres em todo o mundo poderiam ser beneficiadas pela preservação da fertilidade.

Porém, no início, os programas de oncofertilidade eram voltados aos homens e limitavam-se à oferta de coleta de sêmen como opção para preservação da fertilidade em indivíduos com câncer. As mulheres jovens não tinham opções, pois faltavam dados à medicina reprodutiva e informação à oncologia.

Felizmente, desde então, os avanços mais relevantes na área contemplaram as mulheres. Um dos mais importantes foi o desenvolvimento de técnicas de congelamento e descongelamento de óvulos, muito utilizadas na atualidade. Hoje, podemos dizer que a taxa de gestação a partir de um óvulo congelado é muito próxima à observada com um óvulo in natura, e a saúde das crianças concebidas das duas formas também é bastante parecida.

 

Desafios

Mas ainda há desafios. Um deles é que, para oferecer as melhores perspectivas à mulher que deseja congelar óvulos, a estimulação dos ovários é obrigatória. No entanto, essa estimulação implica necessariamente o adiamento do tratamento anticâncer, o que, em teoria, poderia interferir nas chances de cura. Nos casos de tumores de pendentes de hormônios sexuais, há outro fator complicador: a produção aumentada de estrogênio pelos ovários estimulados incorre em maior risco de crescimento tumoral.

Os dois problemas estão próximos de uma solução, pois os protocolos mais modernos de tratamento em oncofertilidade permitem à mulher reduzir o adiamento da quimio ou radioterapia a apenas duas semanas aproximadamente. Eles incluem também o uso de drogas seguras, que diminuem significativamente ou até eliminam o risco de eventual estimulação tumoral. Embora a literatura científica ainda apresente apenas estudos pequenos e com baixo nível de evidência, os resultados são considerados promissor es e sufi cientes para encorajar oncologistas a encaminhar precocemente suas pacientes para orientação sobre a preservação da fertilidade.

Em situações específicas, como o câncer na infância, o congelamento de tecido ovariano desponta como principal estratégia de preservação da fertilidade. Apesar de ser ainda uma técnica considerada experimental, em 2015 já se documentavam pelo menos 60 nascimentos por meio dela. Acreditamos que este já seja um motivo suficiente para que a modalidade passe a integrar, em breve, a rotina de serviços especializados.

 

Desconhecimento

Embora estudos recentes apontem para um interesse crescente dos oncologistas em relação à saúde reprodutiva de seus pacientes, essas mesmas pesquisas revelam que o desconhecimento é a principal barreira para que a oncofertilidade beneficie um número maior de pessoas.

Para difundir o tema, educar profissionais de saúde e desenvolver opções para preservação da fertilidade em homens e mulheres de qualquer faixa etária, criou-se, há cerca de 10 anos, o Consórcio de Oncofertilidade, uma rede de parcerias com 126 serviços de assistência em reprodução humana espalhados por 28 países. Depois dos Estados Unidos, onde a iniciativa surgiu, o maior número de parceiros credenciados ao consórcio encontra-se no Brasil – 21 centros integram a Rede Brasileira de Oncofertilidade.

A preservação de gametas com motivação médica não se restringe a pacientes com câncer, mas se aplica também a pessoas que enfrentam outras doenças

Por fim, vale notar que a preservação de gametas com motivação médica não se restringe a pacientes com câncer, mas se aplica também a pessoas que enfrentam outras doenças cujos tratamentos possam agredir irreversivelmente os ovários, como certas doenças autoimunes, além de portadoras de doenças de caráter progressivo, como a endometriose, que pode reduzir o potencial reprodutivo com o passar dos anos.

Em um futuro breve, esperamos que a oncofertilidade seja capaz de modificar a cultura médica e inovar ao abrir os olhos do mundo para a perspectiva da maternidade ou da paternidade biológica como fator de qualidade de sobrevida a uma doença devastadora.  

 

Bruno Ramalho de Carvalho
Clínica Saúde da Mulher (DF) e
Rede Latino-americana de Oncofertilidade

Matéria publicada em 31.08.2016

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