Informação: o melhor remédio contra as superbactérias

Conclusões do diálogo entre uma professora do Ensino Médio e uma pesquisadora especialista em microbiologia.

 

Você já ouviu falar em antimicrobianos? Essas substâncias estão presentes em nossa vida, mas talvez você as conheça por outro nome: antibióticos. Antimicrobiano é um termo que abrange todas as substâncias que inibem o crescimento ou causam a morte de microrganismos; tais substâncias podem ser naturais, sintéticas ou semi-sintéticas. O uso de antimicrobianos elimina as bactérias sensíveis a essas substâncias. Mas há bactérias resistentes que não são eliminadas e permanecem no organismo – diz-se que elas são ‘selecionadas’ em um processo chamado pressão seletiva.Se o indivíduo for acometido por doenças causadas por bactérias resistentes, leva muito mais tempo para o médico descobrir qual terapia será a mais adequada, o que gera riscos à vida do paciente.

Segundo o Plano de Ação da Vigilância Sanitária em Resistência aos Antimicrobianos (2017), calcula-se que, em 2050, caso o avanço da resistência aos antimicrobianos não tenha sido controlado, uma pessoa morrerá a cada três segundos, o que representa 10 milhões de mortes por ano.

Por isso é tão importante que o uso de antimicrobianos seja feito de maneira controlada: para que os pacientes não provoquem a ação da pressão seletiva de modo desnecessário. Nesse sentido, desde 2010, a venda de antimicrobianos em farmácias só é permitida com receita médica. Além da venda, o descarte de antimicrobianos também deve ser feito cuidadosamente: não se deve, por exemplo, descartar os antimicrobianos em lixo comum ou em vasos sanitários, pois esses medicamentos chegarão ao esgoto, podendo eliminar as bactérias sensíveis e ‘selecionar’ as bactérias resistentes que estão ali.

As superbactérias

Superbactérias são as bactérias causadoras de infecções cujo tratamento é extremamente escasso ou até mesmo inexistente; ou seja, são bactérias resistentes à maioria ou a todos os antimicrobianos.O surgimento dessa resistência pode ocorrer por meio de mutações no DNA dessas bactérias e daaquisição de genes que conferem tal resistência, por meio de diferentes mecanismos.

É comum observarmos a associação entre superbactérias e hospitais, uma vez que, nesses locais, há muitas pessoas debilitadas, com quebra de barreiras de proteção natural contra infecções ou que foram submetidas a procedimentos invasivos, o que as deixa mais suscetíveis a infecções.Mas é importante lembrar que as tais superbactérias não estão restritas a ambientes hospitalares. Elas estão presentes, por exemplo, em ambientes aquáticos, uma vez que o esgoto hospitalar é lançado sem o tratamento adequado em corpos d’água. A contaminação ambiental também ocorre devido ao descarte inadequado dos próprios antimicrobianos vindos do esgoto hospitalar e doméstico.

O uso de antimicrobianos na agropecuária também contribui muito para o surgimento de superbactérias: elas estão presentes no organismo de animais e plantas e no ambiente ao seu redor. Dessa forma, a carne dos animais pode conter superbactérias, assim como as fezes desses animais, uma vez que o intestino é o local de maior colonização bacteriana no organismo. Além disso, a maioria dos antimicrobianos é eliminada, em sua forma ativa,na urina e nas fezes desses animais. Isso significa que, em um mesmo ambiente, podem estar os microrganismos e os antimicrobianos, favorecendo a ação da pressão seletiva.

 

O que fazer?

Para evitar o surgimento de superbactérias, a população deve utilizar e descartar os antimicrobianos de modo adequado. Além disso, é preciso tomar todas as vacinas disponíveis no Calendário Nacional de Vacinação, já que muitas delas previnem infecções bacterianas e, consequentemente, evitam o uso de antimicrobianos e a ação da pressão seletiva.

Os governos devem implementar e fiscalizar ações de prevenção a infecções hospitalares, como manter o número correto de funcionários nos hospitais, conservar as instalações hospitalares e descartar, de maneira adequada, o lixo hospitalar. Também é preciso fiscalizar o setor agropecuário, para que sejam empregadas medidas higiênicas que evitem o uso de antimicrobianos.

 

Conscientizar para prevenir

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde lançou o Plano de Ação Global de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos. Esse plano enumerou cinco eixos estratégicos de atuação, sendo o primeiro deles: melhorar aconscientizaçãoeacompreensãoarespeitodaresistênciaaosantimicrobianos por meio de comunicação, educação e formação efetivas.

É muito importante conscientizar a população sobre o que é a resistência aos antimicrobianos e como ela é desenvolvida. Para isso, há várias ferramentas de comunicação, entre elas, as redes sociais e campanhas abrangentes veiculadas na televisão e no rádio. Mas a eficiência dessas campanhas depende da qualidade do material divulgado e do ativismo dos envolvidos.

A educação também tem papel fundamental na prevenção e no controle da resistência aos antimicrobianos. Devemos considerar os alunos da educação básica excelentes divulgadores da ciência (e, consequentemente, dos conhecimentos sobre a resistência aos antimicrobianos), uma vez que eles podem difundir as informações aprendidas em sala de aula para sua família e comunidade. Por isso, é preciso estimular a interação entre universidades e escolas do Ensino Básico.Ao abordarmos o tema com os alunos, eles devem ser tratados como atores capazes de transformar seu núcleo social. Dessa forma,poderemos atuar para desacelerar a evolução da resistência aos antimicrobianos na nossa sociedade.

Viviane Duarte Silva

Aluna do Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (ProfBio)
*Artigo resultante de entrevista com a pesquisadora Renata Picão, do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 30.11.2018

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