Invisibilidade: superpoder cientificamente possível?

Muitas tecnologias capazes de tornar objetos invisíveis já estão sendo testadas, mas ainda há alguns desafios a serem vencidos para que esse poder tão comum nos quadrinhos e na ficção científica seja usado no mundo real.

A invisibilidade é um clássico superpoder dos quadrinhos e da ficção científica. Mas qual a viabilidade científica de desenvolvermos um poder como esse no mundo real? Temos alguma tecnologia similar à capa da invisibilidade do Harry Potter ou ao jato invisível da Mulher Maravilha?

Para início de conversa, precisamos entender como somos capazes de enxergar as coisas. Quando os raios de luz refletidos por determinado objeto atingem nossos olhos, os milhões de fotorreceptores da nossa retina convertem a luz em impulsos elétricos e enviam essa informação para o cérebro. A cor, em particular, é detectada pelas células chamadas cones, cuja falha no desenvolvimento pode levar a alguns tipos de daltonismo (redução na capacidade de diferenciar certas cores).

Em vez de ser refletida, a luz pode passar de um meio para o outro (por exemplo, do ar para a água) e, com isso, sofrer um desvio de direção. Esse fenômeno, chamado de refração, ocorre devido à mudança da velocidade da luz em diferentes meios e pode ser facilmente observado quando colocamos um lápis dentro de um copo com água e ficamos com a impressão que o lápis está torto.

Mas será que há alguma forma de evitarmos que a luz seja refletida ou refratada por algum objeto, para que ele se torne invisível?

Ao olharmos um lápis dentro de um copo com água, temos a impressão de que o lápis está torto, porque a luz sofre um desvio de direção quando passa de um meio para outro (do ar para a água, por exemplo)
Pixabay/ ScienceGiant

Transparência, a solução de alguns animais

Uma das maneiras de tornar algo invisível ou, ao menos, disfarçado é a transparência. Objetos transparentes são aqueles que permitem que a luz os atravesse, diferentemente dos opacos, que apenas a refletem.

Na natureza, existem muitos exemplos de animais transparentes ou com partes do corpo transparentes.

A borboleta-asa-de-vidro, por exemplo, tem apenas parte das suas asas transparentes. Já o sapo-de-vidro tem parte considerável da pele abdominal transparente, tornando visíveis alguns órgãos. A carambola-do-mar, por sua vez, é gelatinosa e quase completamente transparente (figura 2). Um estudo científico recente demonstrou que os ctenóforos, filo ao qual pertencem as carambolas-do-mar, foram os primeiros animais a surgir na Terra.

O problema dessa habilidade é que ser transparente não é o suficiente para ser invisível. Afinal, é possível enxergar vidros, lentes de óculos e plásticos transparentes, assim como os animais aqui citados. Isso acontece justamente por causa do fenômeno da refração, o desvio sofrido pela luz ao mudar de meio.

Nós, humanos, até possuímos a capacidade de produzir tecido transparente, como a córnea, que permite a entrada de luz no nosso olho. Mas, mesmo se conseguíssemos nos tornar completamente transparentes – pele, órgãos, sangue, ossos etc. –, ainda assim, ao comermos qualquer coisa, o alimento seria totalmente visível descendo pelo nosso sistema digestivo. Ou seja, esse poder só funcionaria em jejum.

Alguns animais usam a transparência para não serem vistos. A carambola-do-mar (Mnemiopsis leidyi), que faz parte do grupo dos primeiros animais a surgir na Terra, é gelatinosa e quase completamente transparente
Stefan Siebert, Brown University

Dando a volta por cima

Outra forma de tornar invisível um objeto que não é transparente é dobrar a luz ao seu redor, evitando que os raios de luz atinjam esse objeto e sejam refletidos para o olho de um observador. Nas últimas duas décadas, tem sido comum a veiculação de notícias sobre o desenvolvimento de tecnologias de invisibilidade. Muitas dessas tecnologias que vêm sendo testadas se baseiam nesse princípio.

A invenção mais atual é a chamada Quantum Stealth, dispositivo semelhante a uma lente extremamente fina e maleável colocada na frente ou ao redor do objeto que se quer tornar invisível. A tecnologia foi patenteada pela empresa canadense Hyperstealth Biotechnology Corp em outubro de 2019. Mas ainda é cedo para dizer se ela realmente funciona e se tem potencial de produção em larga escala para ser comercializada.

O fato é que muitos cientistas estão se dedicando a descobrir a chave da invisibilidade, afinal, esse superpoder tem enorme potencial militar e estratégico e, portanto, é de interesse de muitos governos.

 

Desafios pelo caminho

É muito comum pensarmos na invisibilidade como um conceito que não depende do referencial, ou seja, não depende do observador. Mas isso não é verdade.

Se você estiver em uma sala completamente escura, por exemplo, não haverá fonte de luz visível, o que significa que nenhuma luz será refletida por nenhum objeto e você não enxergará nada (nem será visto por ninguém). Porém, não pense que você estará invisível nessa escuridão. Se, nessa sala, tiver uma cobra, pode ter certeza de que ela irá te enxergar. O nosso corpo emite, constantemente, ondas de calor, que são a chamada luz infravermelha, uma forma de luz que não conseguimos ver com nossos olhos. Mas muitos animais (e tecnologias) são capazes de detectar essas e outras formas de luz invisíveis ao olho humano.

Portanto, mesmo que seja razoável pensar na tecnologia de um manto da invisibilidade, que deixaria um ser humano invisível a outro humano, é difícil acreditar em uma tecnologia de invisibilidade completa, que o impeça de receber e emitir qualquer tipo de radiação (ou luz). O já citado Quantum Stealth promete bloqueio quase total de todo o espectro termal, ou seja, de todas as radiações emitidas pelos objetos terrestres, incluindo as invisíveis a olho nu. Será que ele realmente tem essa capacidade?

Haveria um segundo problema se um ser humano tivesse esse superpoder. Todas as alternativas para se buscar a invisibilidade apresentadas nesse texto teriam um efeito negativo em comum: a pessoa que se tornasse invisível consequentemente não enxergaria mais nada.

Para que possamos enxergar, a luz refletida ou refratada por um objeto precisa ser absorvida pelas nossas células da retina. E isso não aconteceria se nossa retina fosse transparente ou se usássemos um manto que contorna a luz ao nosso redor.

Dos personagens da ficção, o que mais faz sentido, do ponto de vista científico, é o Predador, que tem a capacidade de deixar de refletir as luzes que os humanos conseguem enxergar, mas continuam recebendo e emitindo luz infravermelha e, consequentemente, continuam enxergando luz infravermelha. Por isso, são capazes de ver o calor emitido pelas suas presas.

Lucas Miranda

Editor do blogue Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

Matéria publicada em 27.11.2019

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