Magneto: o supervilão que não estudou física

Se o grande inimigo dos X-Men soubesse explorar todo o potencial de seu poder de controlar campos magnéticos, ele seria capaz até de ficar invisível e de dominar mentes e poderia se tornar o mais perigoso vilão dos quadrinhos.

Foi no contexto do nazismo alemão que nasceu Max Eisenhardt. De família judia, o garoto viu todos os seus familiares serem mortos, e ele próprio só conseguiu escapar do campo de concentração tempos mais tarde. Após muitos anos reconstruindo sua vida na Rússia, a tragédia retornou à sua porta. Ao ver a filha morrer em um incêndio, o homem, tomado de ira, usou seus poderes magnéticos em público pela primeira vez para matar os responsáveis e se revelou um mutante.

Ele passou então a atender pelo nome de Erik Magnus Lehnsherr – mais tarde, Magneto, um dos principais inimigos dos X-Men, personagens do universo Marvel. Magneto atua como um violento ativista (ou, se preferir, um ‘terrorista’) contra os humanos e em defesa dos mutantes.

Mas aposto que você não faz ideia do quão poderoso é Magneto e de tudo o que seu poder de gerar e controlar campos magnéticos é capaz de fazer.

 

Magnetismo e eletricidade

O magnetismo é uma capacidade de atração ou repulsão que certos materiais têm. Essa capacidade, somada ao fenômeno da eletricidade, compõe o chamado eletromagnetismo, que é uma das quatro forças fundamentais da natureza.

Toda vez que uma carga elétrica se movimenta no espaço, ela gera efeitos magnéticos e a área sobre a qual incidem esses efeitos é chamada de ‘campo magnético’.

Em 1831, o físico e químico inglês Michael Faraday (1791-1867) descobriu que qualquer variação em um campo magnético provoca o surgimento de um campo elétrico, que, por sua vez, pode produzir uma corrente elétrica em um material condutor. Essa foi uma importante descoberta, que deixou clara a íntima ligação entre eletricidade e magnetismo e a influência mútua de um sobre o outro.

Se Erik ‘Magneto’ Lehnsherr soubesse que o controle de campos magnéticos também lhe dá o controle de campos elétricos – e, por sua vez, o controle de cargas elétricas – e que basicamente toda a matéria que conhecemos é feita de cargas elétricas, o que significa que tudo que existe é afetado pelo magnetismo, ele provavelmente seria o vilão mais perigoso e poderoso de todos os universos dos quadrinhos.

 

Muito além de levitar carros

Levantar objetos metálicos, como carros, e controlar o ferro do sangue de policiais é a maior parte das coisas que Magneto faz nos filmes. Mas isso é muito pouco perto do tanto de coisas que ele poderia fazer!

Como o magnetismo é capaz de afetar fótons, as partículas de luz, ele poderia fazer, por exemplo, com que toda a luz que viesse em sua direção o contornasse, sem atingi-lo. Ao impedir que raios luminosos atinjam seu corpo e sejam refletidos para os olhos das pessoas, ele simplesmente ficaria invisível. É claro que isso tem suas desvantagens e, se você leu o texto publicado nesta seção no mês passado, sabe do que estamos falando.

Usando a Lei de Faraday, Magneto poderia gerar um campo magnético de altíssima intensidade ao redor de um metal para induzir nele uma alta corrente elétrica. Essa corrente elétrica circulando pelo metal geraria uma quantidade de calor cada vez maior, podendo fazê-lo derreter completamente de tão quente. A propósito, é com base nesse princípio de gerar calor a partir de campos magnéticos que os fogões de indução funcionam. Esse poder do Magneto é uma péssima notícia para o Wolverine, cujos ossos contêm grande quantidade do metal adamantium. Sim, o Magneto poderia fazê-lo derreter de dentro para fora.

Por fim, vale lembrar que o nosso cérebro funciona à base de impulsos elétricos. Cada ordem do cérebro para toda e qualquer parte do nosso corpo é mediada por eletricidade. Com muito estudo, Magneto poderia ser capaz de estimular ou até desligar qualquer área do cérebro, exercendo um fino controle sobre cada ação da pessoa e até da sua personalidade e de suas emoções.

Algo que não faz tanto sentido do ponto de vista científico é a capacidade que Magneto tem de extrair o ferro presente no sangue de uma pessoa, como fez com guardas da prisão onde estava, no filme X-Men 2. De fato, o ferro é um material que responde muito bem a campos magnéticos. Esse tipo de material, chamado de ferromagnético, é fortemente atraído por ímãs. No entanto, o ferro presente em nosso sangue não está na sua forma ferromagnética, ele está diluído e ligado às moléculas de hemoglobina. E, nesse estado, ele se comporta como um material paramagnético, ou seja, ele responde muito pouco a campos magnéticos e, por consequência, é fracamente atraído por ímãs.

Um ímã é um material capaz de gerar um campo magnético ao seu redor, o que lhe confere a propriedade de atrair ou repelir determinados objetos. O ímã atrai fortemente objetos de metal, como os pregos na imagem
Crédito: Adobestock

Para extrair o ferro da molécula de hemoglobina, Magneto teria que separar o guarda inteiro átomo por átomo. E o campo magnético necessário para isso acontecer seria milhões de vezes maior que o maior campo magnético já gerado no planeta Terra.

Grupo heme, parte da molécula de hemoglobina que contém ferro (Fe), localizado bem no centro. Além de se ligar a quatro átomos de nitrogênio (N), o ferro também se liga ao oxigênio, e é dessa forma que a hemoglobina transporta oxigênio no sangue.

A lista de coisas que Magneto poderia fazer se soubesse um pouco de física é muito mais longa, mas vamos parar por aqui (vai que ele lê esse texto!). E você, consegue pensar em mais poderes derivados do controle total do magnetismo?

Lucas Mascarenhas de Miranda

Editor do blogue Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

Matéria publicada em 23.01.2020

COMENTÁRIOS

  • Bruno Soares

    A pessoa que fez a matéria, não viu o filme direito. O magneto não extrai o ferro do sangue do guarda, ele extrai um metal líquido que a mística injeta nele.

    Publicado em 31 de janeiro de 2020 Responder

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