Na estante

Flerte do mundo fantástico com a ciência

De que autor você lembra quando falamos de aventuras fantásticas? Existem muitos clássicos nesse ramo literário. C.S. Lewis (1898-1963), J.R.R.Tolkien(1892-1973) e Lewis Carroll (1832-1898), por exemplo. Eles foram responsáveis por maravilhosas histórias cheias de aventuras, suspense e criaturas que encantam a todos até hoje. Suas obras são tão envolventes e famosas que foram adaptadas para o cinema, seja em live action (como é o caso de As crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis), seja em animação (como Alice no País das Maravilhas). Podemos falar ainda de autores mais novos, nascidos no século 20, como J.K. Rowling, que, com seu mundo de bruxos da série de livros Harry Potter, transformou esse gênero literário em uma febre. Mas o que dizer do não tão popular (pelo menos no Brasil) Philip Pullman e sua fantástica trilogia Fronteiras do Universo?

Cada um dos três livros da coleção é intitulado por objetos especiais e mágicos, que apresentam papel central na narrativa de cada história. Assim, temos: A bússola de ouro, A faca sutil e Aluneta âmbar.

Sim! O primeiro livro também virou um filme não muito bem aceito pela crítica, que o considerou por demais suavizado em relação à narrativa original. E isso é bem verdade! Mas acredite: toda trilogia é instigante e hipnotizante, sendo considerada por muitos uma das melhores obras de aventura fantástica. Mas o que se pode pontuar como principal diferencial dessa obra é que, mais do que trazer para o leitor um mundo único e encantador, cheio de seres fantásticos e personagens cativantes, ela mistura gêneros literários, além de flertar com a ciência.

A bússola de ouro apresenta a primeira protagonista da história, Lyra Belacqua, uma menina com personalidade forte, senso crítico, curiosidade aguçada e coragem invejável. Lyra vive em Oxford (Inglaterra), mais precisamente na Universidade Jordan (um centro de‘teologia experimental’), sempre acompanhada de Paintalaimon – somente Pan para ela. Na Oxford de Lyra, todo humano é acompanhado por um animal espiritual, o seu daemon.

Como Lyra é criança, Pan ainda não tem uma forma precisa. Só quando as pessoas se tornam adultas é que o daemon fica com uma forma fixa, que exprime a personalidade e o espírito de seu dono. Daí emerge uma das várias reflexões que a obra nos traz: a inocência das crianças e o fato de que sua personalidade é moldada até se tornar estável na puberdade, época em que seu caráter e espírito se estabilizariam. Os daemons e sua relação com as crianças têm papel fundamental na trama, sendo alvo do Magisterium, que representa a Igreja.

Trilogia Fronteiras do universo:A bússola de ouro, A faca sutil e A luneta âmbar

Philip Pullman
São Paulo, Suma de Letras. Vol.1: 344 p., R$ 47,90; vol.2: 288 p., R$ 42,90; vol.3: 504 p., R$ 52,90.

Partícula elementar

Há um elemento que desempenha função crucial na ligação entre o daemon e seu dono, principalmente na infância: o chamado ‘pó’. O leitor se depara com o ‘pó’ logo no início da trama, e ele terá papel chave para o entendimento da história. E aí é que começa a aproximação dessa aventura fantástica com teorias da física moderna. O ‘pó’ de Philip Pullman é uma partícula elementar ligada à constituição da matéria e à formação do universo. Tal debate instiga filósofos e pesquisadores há séculos. A isso se relaciona a pesquisa do neutrino (partícula subatômica sem carga elétrica), cuja descoberta de sua massa garantiu o prêmio Nobel da Física de 2016 ao japonês Takaaki Kajita e ao canadense Arthur B. MacDonald. Dentre as revoluções que a descoberta do neutrino trouxe, temos o questionamento sobre o Modelo Padrão, teoria da física de partículas usada para explicar a composição do universo. Veja bem: um livro de 1995 se relaciona a um prêmio Nobel de 2016! Mais atual impossível!

Toda a aventura de Lyra envolve daemons, sequestros de crianças, além de ursos guerreiros, ciganos e bruxas, em um mundo tão bem narrado e pensado que praticamente se torna realidade para o leitor. À medida que a história caminha, os dramas ficam mais complexos, trazendo à tona questões associadas também à ética científica – apesar de, no mundo de Lyra, ciência e religião serem muito relacionadas. A bússola de ouro é um instrumento chamado de aletiômetro (ou medidor da verdade), parecido com as cartas ciganas. É ele que guia Lyra ao longo de sua jornada, aproximando o misticismo da ciência.

 

Nem vilões, nem mocinhos no multiverso

Outra característica da trilogia é que não podemos apontar um mocinho ou um vilão. Os personagens que permeiam as três histórias vão ficando mais profundos psicologicamente ao longo da obra, intercalando ações que nos fazem questionar a maldade e a bondade de cada um, desconstruindo nosso pensamento a cada momento.

Nos livros subsequentes, percebemos que o ‘pó’ não liga só humanos e outros seres à Terra; ele transcorre por diferentes mundos. Assim, Phillip Pullman também se baseia na visão de multiverso (o termo usado para descrever a hipotética existência de muitos universos), tão presente em outras obras de aventura fantástica e nas histórias dos gibis de super-heróis. Com o transcorrer da trilogia, percebemos que sua obra não é tão juvenil assim, e que pode ser lida e revisitada sempre.

Como grande fã de aventuras fantásticas,super recomendo a obra, ressaltando que é uma leitura reconfortante e triste ao mesmo tempo, pois o vazio e a amplidão que o livro nos deixa nos faz questionar o bem e o mal, tempo e espaço, real e fictício. A bússola de ouro é, portanto, só a porta de entrada para um mundo espetacular. E, como vem por aí uma série baseada nessa trilogia, vale a pena antecipar essa leitura.

Paula Maria Moura de Almeida

Laboratório Espaço,
Universidade Federal do Rio de Janeiro
e Universidade Castelo Branco

Matéria publicada em 30.04.2019

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