O preço de viver sem risco de câncer

O rato-toupeira-pelado e o rato-cego-mediterrânico – animais longevos e que não desenvolvem câncer – prometem ser um modelo experimental de sucesso.

Que os pesquisadores na área das ciências biológicas dependem muito de animais de experimentação já é bem sabido – e discutido. Mas, qual animal escolher? Isso depende, é claro, do projeto de cada um e, também, de aspectos práticos e do que for mais conveniente em cada caso.

Se a ideia for testar novos medicamentos, estudar o sistema imune e/ou nervoso, o comportamento etc., os modelos experimentais mais utilizados até o momento são os do camundongo e do rato. Camundongos e ratos são pequenos, reproduzem-se rapidamente e, guardadas as devidas proporções, não são muito distantes da espécie humana. Além disso, por meio de cruzamentos controlados, é possível manter linhagens homogêneas ou puras desses animais, ou seja, que não apresentem muitas diferenças entre si.


Além de viver mais tempo que os outros roedores, tudo nesses animais parece ser mais lento, o que inclui o tempo de divisão celular.

A questão da distância genética é um fator de limitação importante, no sentido de permitir, ou não, traçar comparações entre humanos e os animais de experimentação. A espécie mais próxima dos humanos é a do chimpanzé (Pan troglodytes), mas, por uma série de razões, os chimpanzés já não são usados com frequência nos laboratórios. Entre os motivos estão o custo de manutenção e, sobretudo, questões éticas.

Compreensivelmente, fazer experimentos e impor o cativeiro a seres tão parecidos conosco torna-se difícil até por razões emocionais. De todo modo, hoje são muito poucos os laboratórios que trabalham com chimpanzés. Mas, surge agora no horizonte um modelo experimental que promete ser um sucesso, graças às suas características extremamente interessantes. É o modelo do naked mole rat (Heterocephalus glaber, ou rato-toupeira-pelado) – isto é, sem pelos –, ou do rato-cego-mediterrânico (Microtus duodecimcostatus), animais que vivem muito tempo e não têm câncer.

Estudar esses roedores poderia responder por que essa espécie é refratária ao câncer. Pesquisa recente mostrou que, entre os milhares de animais examinados, somente seis apresentaram tumores. Mesmo que esses valores possam ser considerados como não extraordinários, é preciso lembrar que os animais testados não se encontravam em seu ambiente natural, o que pode ter contribuído para que esse grupo minoritário tenha desenvolvido tumores.

Não só o rato-toupeira-pelado exibe esse predicado. Algumas espécies de baleias, morcegos e elefantes parecem gozar do mesmo privilégio. Naturalmente, trabalhar com elefantes e baleias apresenta problemas práticos para um laboratório e, por isso, a escolha do roedor parece a mais indicada.

O que se sabe até agora sobre a resistência desse animal ao câncer?  O artigo de Andrei Seluanov e colaboradores publicado na revista Nature Reviews Cancer em 2018, com o título ‘Mecanismos da resistência ao câncer em animais longevos’, em tradução livre, destaca alguns pontos relevantes.

Além de viver mais tempo que os outros roedores, tudo nesses animais parece ser mais lento, o que inclui o tempo de divisão celular. Nos camundongos, por exemplo, o tempo para que as células se dividam é de cerca de dois dias. No rato-toupeira, as células precisam de sete dias para se dividir.

Outro detalhe é o tamanho corporal. Animais maiores, defendem alguns cientistas, têm maior chance de acumular mutações nas suas células do que animais menores, embora essa regra vá contra a observação de que elefantes e baleias não desenvolvem câncer.

Mesmo correndo o risco de simplificar exageradamente a questão, prefiro a explicação da lentidão. Afinal, sabemos que as máquinas que têm poucas partes móveis são menos susceptíveis ao enguiço do que aquelas com muitas peças. Enfim, tudo tem seu preço.

Para aqueles leitores que invejam os ratos-toupeira-pelados, imaginem o que é viver em uma caverna escura, cego e sem pelos durante uma eternidade! Nessas circunstâncias, talvez uma doença fatal seja até uma dádiva.

Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 10.07.2019

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