Obesidade e depressão, ligações perigosas

Cada vez mais pessoas sofrem com as duas doenças ao mesmo tempo. Mas o que esses males, em alta no mundo moderno, têm em comum? Intestino, cérebro, sistema imunológico e tecido adiposo são as chaves para explicar a conexão.

Obesidade e depressão afetam uma parcela cada vez maior da população mundial. Seus impactos são imensos não só na vida das pessoas afetadas como também na saúde pública. Mas o fato de estarem em alta na sociedade contemporânea não é o único ponto de ligação entre esses males. Ambas as doenças apresentam uma série de alterações metabólicas e biológicas em comum. Além disso, indivíduos obesos têm mais chances de serem depressivos, assim como os que sofrem com depressão frequentemente ganham peso.

O senso comum até poderia concluir que pessoas depressivas engordam porque comem para driblar a tristeza ou que os obesos ficam depressivos porque não estão satisfeitos com seus corpos. Mas as explicações para as conexões entre os dois problemas não são tão simples assim.

 

Conversa do cérebro com o sistema adiposo

Embora pareça difícil imaginar, o tecido adiposo e o cérebro podem dialogar. Sim, essa comunicação existe, e é bastante complexa: envolve a secreção de hormônios pelo tecido adiposo, a ativação do sistema imunológico e, até mesmo, alterações na composição bacteriana intestinal.

Todos estes mecanismos parecem convergir para um estado de inflamação crônica de baixo grau, caracterizado pela produção de moléculas que iniciam a resposta inflamatória, as chamadas citocinas, que são liberadas na circulação sanguínea tanto pelas células do tecido adiposo quanto pelas células imunológicas.

É essa inflamação crônica – menos intensa do que aquela induzida por doenças infecciosas ou patógenos – que “conversa” com o cérebro. Ela causa um impacto nas áreas cerebrais que controlam o humor, a motivação, a saciedade e as respostas prazerosas.

Assim, a reação do cérebro às alterações do organismo parece potencializar hábitos e comportamentos que geram um padrão cíclico de recorrência entre obesidade e depressão.

A inflamação periférica é uma resposta normal do nosso sistema de defesa, que produz moléculas inflamatórias para combater e minimizar o efeito de agentes patogênicos ou capazes de causar dano celular. Contudo, a produção em excesso dessas moléculas inflamatórias está associada tanto a doenças metabólicas, como a obesidade, quanto a transtornos psiquiátricos, como a depressão.

Ana Lúcia S. Rodrigues
Departamento de Bioquímica
Programa de Pós-graduação em Bioquímica e em Neurociências
Centro de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Santa Catarina
e-mail: ana.l.rodrigues@ufsc.br

Manuella P. Kaster
Departamento de Bioquímica
Programa de Pós-graduação em Bioquímica
Centro de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Santa Catarina
e-mail: manuella.kaster@ufsc.br

 

 

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