Os anabolizantes e o cérebro

Muito além do ganho de massa muscular e da perda de gordura corporal, os efeitos dos esteroides incluem dependência e transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, agressividade, insônia e até suicídio.

Entre as diversas substâncias utilizadas para ganho de massa muscular e aumento do desempenho esportivo, poucas são tão populares quanto os esteroides androgênicos anabolizantes. Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

 

Você não gostaria de me ver irritado

Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

A ‘cultura’ dos anabolizantes

É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

E o sono que não chega

A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

 

Excessos que passam despercebido

A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

 

Os efeitos psiquiátricos

Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

Mais mulheres usuárias

Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

Mais mulheres usuárias

Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

É possível reduzir os danos?

Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

 

Sem efeitos colaterais?

Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

 

Um caminho mais natural

Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

Julio Xerfan

Médico e mestre em Psiquiatria, Instituto de Psiquiatria da UFRJ

Matéria publicada em 12.08.2019

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  • bombadinho3k

    agora eu estou bombado kk

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

  • bombadinho3k

    Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

    Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

    Você não gostaria de me ver irritado
    Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

    O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

    O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

    A ‘cultura’ dos anabolizantes
    É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

    Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

    Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

    E o sono que não chega
    A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

    Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

    Excessos que passam despercebido
    A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

    É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

    Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

    Os efeitos psiquiátricos
    Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

    A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

    O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

    Mais mulheres usuárias
    Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

    Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

    É possível reduzir os danos?
    Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

    No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

    Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

    Sem efeitos colaterais?
    Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

    Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

    Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

    Um caminho mais natural
    Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

    Julio Xerfan

    Médico e mestre em Psiquiatria, Instituto de Psiquiatria da UFRJ

    Matéria publicada em 12.08.2019

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    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

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    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

  • bombadinho3k

    Agosto de 2019 | edição n. 357
    OS ANABOLIZANTES E O CÉREBRO
    Página Inicial
    Artigo
    Muito além do ganho de massa muscular e da perda de gordura corporal, os efeitos dos esteroides incluem dependência e transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, agressividade, insônia e até suicídio.

    Entre as diversas substâncias utilizadas para ganho de massa muscular e aumento do desempenho esportivo, poucas são tão populares quanto os esteroides androgênicos anabolizantes. Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

    Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

    Você não gostaria de me ver irritado
    Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

    O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

    O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

    A ‘cultura’ dos anabolizantes
    É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

    Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

    Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

    E o sono que não chega
    A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

    Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

    Excessos que passam despercebido
    A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

    É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

    Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

    Os efeitos psiquiátricos
    Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

    A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

    O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

    Mais mulheres usuárias
    Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

    Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

    É possível reduzir os danos?
    Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

    No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

    Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

    Sem efeitos colaterais?
    Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

    Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

    Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

    Um caminho mais natural
    Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

    Julio Xerfan

    Médico e mestre em Psiquiatria, Instituto de Psiquiatria da UFRJ

    Matéria publicada em 12.08.2019

    COMENTÁRIOS
    bombadinho3k
    agora eu estou bombado kk

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

    bombadinho3k
    Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

    Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

    Você não gostaria de me ver irritado
    Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

    O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

    O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

    A ‘cultura’ dos anabolizantes
    É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

    Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

    Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

    E o sono que não chega
    A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

    Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

    Excessos que passam despercebido
    A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

    É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

    Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

    Os efeitos psiquiátricos
    Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

    A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

    O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

    Mais mulheres usuárias
    Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

    Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

    É possível reduzir os danos?
    Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

    No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

    Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

    Sem efeitos colaterais?
    Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

    Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

    Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

    Um caminho mais natural
    Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

    Julio Xerfan

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    Matéria publicada em 12.08.2019

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    Primeira mulher a se doutorar em história natural no Brasil, Chana Malogolowkin descobriu uma linhagem de drosófilas que não gerava machos, e usou, pela primeira vez, os órgãos genitais dessas moscas para classificar as espécies irmãs.

    MULHERES NA CIÊNCIA
    Educadora e aprendiz da ciência e da vida
    Da área de geografia social, Júlia Adão Bernardes, professora e pesquisadora, narra sua trajetória de décadas na academia, com produção científica sempre comprometida com a superação da exploração e da opressão.

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    Primeira mulher a se doutorar em história natural no Brasil, Chana Malogolowkin descobriu uma linhagem de drosófilas que não gerava machos, e usou, pela primeira vez, os órgãos genitais dessas moscas para classificar as espécies irmãs.

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    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

  • Anônimo

    OS ANABOLIZANTES E O CÉREBRO
    Página Inicial
    Artigo
    Muito além do ganho de massa muscular e da perda de gordura corporal, os efeitos dos esteroides incluem dependência e transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, agressividade, insônia e até suicídio.

    Entre as diversas substâncias utilizadas para ganho de massa muscular e aumento do desempenho esportivo, poucas são tão populares quanto os esteroides androgênicos anabolizantes. Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

    Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

    Você não gostaria de me ver irritado
    Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

    O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

    O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

    A ‘cultura’ dos anabolizantes
    É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

    Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

    Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

    E o sono que não chega
    A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

    Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

    Excessos que passam despercebido
    A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

    É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

    Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

    Os efeitos psiquiátricos
    Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

    A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

    O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

    Mais mulheres usuárias
    Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

    Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

    É possível reduzir os danos?
    Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

    No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

    Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

    Sem efeitos colaterais?
    Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

    Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

    Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

    Um caminho mais natural
    Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

    Julio Xerfan

    Médico e mestre em Psiquiatria, Instituto de Psiquiatria da UFRJ

    Matéria publicada em 12.08.2019

    COMENTÁRIOS
    bombadinho3k
    agora eu estou bombado kk

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

    bombadinho3k
    Seus riscos ao sistema cardiovascular, endócrino e hepático são muito conhecidos, mas pouco se fala das alterações no comportamento que também podem provocar. Depressão, ansiedade, aumento da agressividade e insônia são as mais comuns.

    Antes de detalhar os efeitos psiquiátricos, é preciso saber que os esteroides são compostos orgânicos da mesma família do cortisol, hormônio relacionado à regulação do estresse. Por serem androgênicos, esses esteroides estimulam o desenvolvimento de características sexuais masculinas. E são anabolizantes porque estimulam a biossíntese (reações químicas que produzem proteínas, por exemplo) e o crescimento dos tecidos do corpo. Para simplificar, chamaremos os derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona de anabolizantes ou, simplesmente, esteroides.

    Você não gostaria de me ver irritado
    Apesar dos muitos relatos de “surtos de fúria” sofridos por usuários de anabolizantes, esse não é um quadro comum. Trata-se, na verdade, de um sintoma controverso, pois é difícil imputarmos sua causa unicamente aos anabolizantes. É comum o uso concomitante de outras substâncias, como estimulantes, hormônios tireoidianos, opioides e até drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Além disso, não sabemos se algumas das pessoas que cometeram atos de violência quando usavam anabolizantes já apresentavam um histórico de desequilíbrio emocional.

    O aumento da agressividade relatado pelos usuários, contudo, é bastante comum. Não são raros os relatos de homens e mulheres sem histórico de violência que agrediram seus companheiros depois que começaram a utilizar anabolizantes. Muitos usuários relatam que ficam mais impacientes, com menos tolerância à frustração e com maior tendência a reagir fisicamente a uma situação de estresse.

    O aumento da agressividade é considerado, por alguns autores, como uma das explicações para o risco de suicídio observado entre usuários de anabolizantes. Em um determinado momento, o comportamento impulsivo e agressivo pode se voltar contra a próprio pessoa, levando-a a atos irresponsáveis, comportamento sexual de risco e mesmo à tentativa de suicídio.

    A ‘cultura’ dos anabolizantes
    É difícil sabermos a quantidade exata de pessoas que usam anabolizantes no mundo. Estudos epidemiológicos no Brasil revelaram incidências que variam de 3% a 25%, dependendo da população e da região do país observadas. Devido em parte à nossa cultura de valorização de um corpo ‘sarado’, não é de se espantar que os brasileiros sejam dos grandes consumidores de anabolizantes e de outras drogas de controle da imagem corporal.

    Mas não só no Brasil. Muitos autores consideram que os anabolizantes se tornaram um importante elemento de toda a cultura ocidental, influenciando a percepção de como um corpo masculino saudável deveria parecer. A mudança pode ser constatada na mídia, na publicidade e até mesmo nos brinquedos a partir da década de 1980, quando surgiram filmes estrelados por atores extremamente musculosos, e quando ocorreu a disseminação do consumo das chamadas ”bombas” pela população em geral, muito além das fronteiras do esporte de elite.

    Esse fenômeno levou à disseminação do uso das substâncias por atletas amadores e por pessoas que apenas desejam parecer mais saudáveis e atraentes. Sem as preocupações dos atletas com os testes antidoping, mas às vezes sem qualquer acompanhamento médico, homens e mulheres em todo o mundo se expõem aos riscos provocados pelos anabolizantes, diariamente.

    E o sono que não chega
    A insônia é outro sintoma comum. Apesar de aparentemente não ser grave, é uma queixa que, muitas vezes, leva o usuário à automedicação ou ao uso abusivo de álcool e sedativos para dormir. Como já falamos, o uso de anabolizantes é um importante fator de risco para o consumo de outras drogas. Durante entrevistas realizadas por nossa equipe em uma clínica psiquiátrica especializada em dependência química, um usuário relatou que entrava em depressão quando interrompia os anabolizantes, o que o levava a recaídas no uso da cocaína.

    Em alguns usuários de anabolizantes, foi identificado um distúrbio psiquiátrico chamado dismorfia muscular. Quem sofre desse transtorno tende a se perceber insuficientemente grande e forte, a despeito da hipertrofia muscular conquistada. Não se pode considerar, entretanto, que os anabolizantes sejam a causa desse tipo de transtorno dismórfico corporal. O uso dessas substâncias, porém, pode agravar as consequências de um distúrbio latente, e levar o indivíduo a desenvolver dependência.

    Excessos que passam despercebido
    A síndrome de dependência dos anabolizantes é uma entidade clínica estudada pelos professores e psiquiatras Harrison Pope e Gen Kanayama, da Universidade de Harvard. Grosso modo, essa síndrome se caracteriza por sintomas de tolerância (usos de doses cada vez maiores – ou a combinação de novos anabolizantes – para obter os efeitos desejados), abstinência (distúrbios do sono e alimentares, perda de libido), uso em quantidades ou períodos de tempo maiores que o previsto, tempo excessivo gasto em atividades relacionadas ao uso de anabolizantes (treinamento físico, grupos de discussão on-line, uso de suplementos), redução importante das atividades sociais e laborais devido a uma preocupação excessiva com o uso de anabolizantes e, por fim, uso dos esteroides a despeito da ocorrência de problemas clínicos ou psiquiátricos.

    É importante notarmos o cuidado que esses pesquisadores tiveram em diferenciar o uso nocivo dos anabolizantes de outras substâncias de abuso. Muitas vezes, o tempo excessivo gasto nas academias é visto como uma atividade saudável, e os ganhos sociais de um corpo considerado mais atraente podem fazer com que o usuário de anabolizantes e suas famílias não vejam essas drogas como um problema, até que efeitos graves aconteçam.

    Deixar de lado os anabolizantes também não é fácil. É comum os usuários relatarem sintomas depressivos, ainda que seus níveis de testosterona estejam muito mais altos do que o normal. Aparentemente, a simples variação do nível de testosterona é capaz de provocar grande desequilíbrio emocional. Muitos sentem falta daquela disposição ‘a mais’ provocada pelos anabolizantes e têm dificuldade em se adaptar a um nível normal de funcionamento físico e mental.

    Os efeitos psiquiátricos
    Existem algumas hipóteses a respeito dos mecanismos por meio dos quais os anabolizantes podem afetar o comportamento, causando ansiedade e agressividade, por exemplo.

    A ansiedade é uma forma sustentada de medo e excitação, relacionada a disfunções na amídala estendida – um circuito neural do sistema límbico que envolve a amídala central, o nucleus accumbens e o núcleo adjacente da stria terminalis. Os neurônios dessas estruturas expressam neurotransmissores como GABA, glutamato, serotonina e dopamina, bem como peptídeos neuromoduladores que incluem o fator liberador de corticotropina, o fator neurotrófico derivado do cérebro e o neuropeptídeo Y, todos envolvidos na expressão da ansiedade. A exposição crônica aos anabolizantes altera a expressão gênica daquelas moléculas, levando ao desfecho comportamental de ansiedade.

    O traço de agressividade, por sua vez, pode ser descrito como uma combinação de baixa capacidade de controle de impulsos, com quatro componentes subjacentes: agressão física e verbal, raiva e hostilidade. A exposição aos anabolizantes promove níveis elevados de agressão ofensiva, como tem sido demonstrado em modelos animais e humanos. A interface neuropsicológica entre uso de anabolizantes e agressão é exemplificada por alterações nas sinalizações provenientes da serotonina, do glutamato e da dopamina na área hipotalâmica lateral e em outras estruturas límbicas envolvidas em comportamentos de ataque.

    Mais mulheres usuárias
    Apesar de a incidência do uso dos esteroides pelas mulheres ainda ser baixa, esse número vem aumentando. Alguns estudos, aliás, sugerem que as mulheres são mais sensíveis aos riscos cardiovasculares e comportamentais dos anabolizantes. Também podem ser afetadas por hirsutismo (crescimento de pelos em locais indesejados), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, este último um sintoma irreversível.

    Sintomas de ansiedade durante o uso e depressão durante a fase de interrupção também são comuns. A calvície, que ocorre em ambos os sexos, também costuma levar mais desconforto às mulheres.

    É possível reduzir os danos?
    Como os anabolizantes podem ser usados de forma menos nociva? O ideal é não os usar. Mas algumas medidas podem prevenir o agravamento de sintomas clínicos e psiquiátricos relacionados aos anabolizantes. A mais importante delas é procurar acompanhamento médico especializado, buscando a redução e o espaçamento das doses e, se possível, substituir os anabolizantes por outras estratégias mais saudáveis de ganho de massa muscular. É necessário fazer exames regularmente, para avaliar as funções cardiovasculares, hepáticas, metabólicas e endócrinas.

    No caso de sintomas comportamentais, procurar um médico psiquiatra e nunca se automedicar. Não recorrer a drogas de abuso para tentar lidar com os sintomas indesejados (como ingerir álcool para conseguir dormir, por exemplo). Informar à família que está utilizando anabolizantes, respeitando os alertas de mudança de comportamento. Muitas vezes os sintomas psiquiátricos comprometem o insight, ou seja, a percepção do usuário sobre seu próprio comportamento. Ele passa a se sentir muito animado, cheio de energia, e pode não perceber que está mais agressivo, impaciente, gastando muito dinheiro com anabolizantes ou deixando de trabalhar e estudar para se dedicar excessivamente ao treinamento físico.

    Não existe um nível seguro para o uso de anabolizantes sem prescrição médica. A exposição prolongada aumenta o risco dos sintomas adversos, mesmo que uma dose inicialmente ‘inofensiva’ seja mantida. Isso acontece porque o organismo da pessoa vai mudando com o tempo, e, eventualmente, ela pode ter sintomas. Um exemplo clínico: é sabido que os anabolizantes aumentam o nível de colesterol ‘ruim’, o LDL. Isso não quer dizer que a pessoa vai desenvolver uma placa de ateroma na primeira semana de uso de anabolizantes, mas não é raro que homens jovens, usuários de anabolizantes, tenham infartos fatais antes dos 40 anos, devido, entre outros fatores, à obstrução das artérias do coração pelo colesterol.

    Sem efeitos colaterais?
    Por que algumas pessoas parecem utilizar anabolizantes sem problemas? Para responder a essa pergunta, pensemos em três conceitos. O primeiro trata da vulnerabilidade individual às substâncias. De fato, algumas pessoas parecem ser menos sensíveis a alguns efeitos adversos dos anabolizantes. Alguns homens apresentam ginecomastia (crescimento das mamas) rapidamente, enquanto outros – usando a mesma dose da mesma substância – não têm esse sintoma, mas podem ter outros. Ainda não se conhecem todas as variáveis genéticas que poderiam explicar essas diferenças, mas isso vem sendo estudado.

    Consideremos também as medidas de controle de dano. Muitos usuários sofrem, sim, efeitos adversos, mas tomam medidas de prevenção ou tratamento para poderem continuar usando os anabolizantes. Isso inclui: o uso de inibidores da aromatase (para prevenir a conversão da testosterona em estrogênio); estatinas para reduzir os níveis de colesterol LDL; abstinência alcoólica para reduzir a agressão ao fígado; sedativos para controlar a insônia e muito mais.

    Por fim, podemos estar lidando com um viés de seleção, a famosa ‘fotografia feliz’. Muitos ex-usuários de anabolizantes que agora estão hospitalizados ou em tratamento psiquiátrico já tiveram sua ‘lua de mel’ com as drogas. Por um tempo tudo vai bem, até que os problemas começam a aparecer. Como se diz por aí, ‘um dia, a conta chega’.

    Um caminho mais natural
    Os esteroides anabolizantes foram desenvolvidos como remédios, destinados ao tratamento de doenças específicas como o hipogonadismo masculino (quando os testículos não produzem a quantidade adequada de testosterona) e quadros de anemia grave. Como qualquer fármaco, o seu uso é justificado se comparado com o risco de o paciente permanecer sem tratamento. Quando a pessoa não possui nenhuma condição médica que indique o uso de anabolizantes, ela está se expondo voluntariamente ao risco. Nossa dica é: procure apoio profissional. Médicos endocrinologistas, nutrólogos, nutricionistas, médicos do esporte e psiquiatras podem ajudar a obter os efeitos desejados dos anabolizantes (perda de peso, ganho de massa muscular, melhora do humor) de forma mais saudável e natural.

    Julio Xerfan

    Médico e mestre em Psiquiatria, Instituto de Psiquiatria da UFRJ

    Matéria publicada em 12.08.2019

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    bombadinho3k
    agora eu estou bombado kk

    Publicado em 14 de agosto de 2019 Responder

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