Pesquisa e resistência

Uma vida dedicada ao enfrentamento da violência sexual contra a mulher, com trabalhos premiados, informação e desenvolvimento de ferramentas para dar mais visibilidade ao tema.

 

A violência sexual contra a mulher consiste numa grave violação dos direitos humanos e num problema cultural fortemente estruturado na sociedade patriarcal.É uma das manifestações da violência de gênero mais cruéis e persistentes, com raízes histórico-culturais, permeadas por questões étnico-raciais, de classe e de geração. O problema, que vem adquirindo crescente importância na agenda das políticas de saúde, sempre esteve presente na minha vida profissional.

A preocupação com a saúde sexual e reprodutiva da população feminina associada à defesa de direitos da mulher marca a minha trajetória. A princípio, como assistente social e gestora, coordenei, de 1987 a 1995, a assistência pré-natal prestada às gestantes numa maternidade conveniada com a rede pública de saúde, onde o atendimento a mulheres vítimas de violência– especialmente a violência sexual – fazia parte das demandas do serviço. Era um desafio cotidiano pensar e propor estratégias preventivas no contexto da atenção à saúde da mulher.

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O ingresso na docência na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1994, e a elaboração da dissertação de mestrado na PUC-Rio permitiram a minha aproximação com as unidades que atendem à mulher no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.Além disso, pude ampliar a reflexão sobre as representações e as práticas dos profissionais de saúde no contexto do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher.Na pesquisa de doutorado, que realizei no Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, analisei as ações da assistência pré-natal voltadas para a prevenção da violência sexual em três maternidades públicas municipais do Rio de Janeiro, a partir das representações e práticas dos profissionais de saúde.

Desde 1998, minha experiência na coordenação de núcleo de ensino,pesquisa e extensão no campo da saúde reprodutiva, na UFRJ, evidenciou que a prevenção/enfrentamento à violência sexual contra a mulher é fundamental, tanto pela sua alta incidência como pelo seu impacto na saúde sexual e reprodutiva.

Tenho convicção de que a minha inserção, como representante da UFRJ, no Conselho Estadual de Direitos da Mulher do Estado do Rio de Janeiro, no período de 2003 a 2011,contribuiu para o fortalecimento do controle social na agenda de construção da cidadania feminina, protagonizado por feministas de diferentes origens. Minha trajetória de docente e pesquisadora no âmbito da graduação e pós-graduação (PPGSS) vem sendo marcada pelo investimento teórico de caráter cooperativo e interdisciplinar nas áreas da saúde da mulher e da violência sexual.

Nesse sentido, a pesquisa ‘Análise comparativa da abordagem às violências sexuais contra a mulher na formação profissional na área da saúde em diferentes universidades’ representa um desdobramento de outras 15 pesquisas sob minha coordenação e se insere nos esforços de compreender os desafios colocados à formação profissional em diferentes contextos.

 

Mais informação e visibilidade

O compromisso que assumi com a formação de recursos humanos numa perspectiva multidisciplinar, com a avaliação e monitoramento das políticas públicas e com a produção de conhecimento na área da violência sexual tem como resultado a apresentação de centenas de trabalhos em eventos científicos regionais, nacionais e internacionais, dos quais onze foram premiados.

Além das produções bibliográficas sobre o tema e da coordenação de 67 eventos científicos para gestores e profissionais que operam o atendimento às mulheres em situação de violência sexual, outra iniciativa que marca minha trajetória é o projeto de extensão ‘Prevenção da violência sexual’, executado desde 2005, em articulação com as iniciativas de pesquisa, com o objetivo de dar mais visibilidade ao tema. Durante dez anos, este projeto foi responsável pela produção de um conjunto de materiais educativos distribuídos na rede pública de saúde do Estado do Rio de Janeiro.

Nesse contexto, outra iniciativa foi o desenvolvimento e a manutenção do site‘Prevenção à violência sexual’

(www.prevencaoaviolenciasexual.ess.ufrj). Na sequência,em 2014, como um dos produtos da pesquisa do meu pós-doutorado na Universidade de Fortaleza, foi desenvolvido o aplicativo ‘EVISU – Informações sobre o enfrentamento à violência sexual contra a mulher’, ampliando o processo de disseminação de informação, através de uma ferramenta pioneira de interface simples e original. O aplicativo foi idealizado, e vem sendo desenvolvido por uma equipe interdisciplinar, que conta com a participação de profissionais e estudantes de diferentes áreas de conhecimento. Além de fins acadêmicos, a ferramenta é dirigida a serviços que executam as políticas de enfrentamento à violência sexual contra a mulher. O público-alvo, portanto, é bastante amplo:  profissionais, gestores, professores, estudantes e pesquisadores das áreas da saúde, assistência social, segurança pública, direitos humanos e outras que trabalhem com o tema.

O aplicativo vem se mostrando uma estratégia positiva para a incorporação do tema da violência sexual nas ações das políticas públicas e da formação profissional.Sigo acreditando na participação de mulheres na produção do conhecimento científico como uma forma potente de resistência, que possibilita uma formação profissional qualificada, bem como constrói respostas resolutivas no enfrentamento à violência sexual, numa perspectiva interdisciplinar e intersetorial.

Ludmila Fontenele Cavalcanti

Núcleo de Estudos e Ações em Políticas Públicas, Identidades e Trabalho
Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 30.08.2018

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