Ponto de ruptura?

A atual pandemia de Covid-19, que pôs sob isolamento social um terço da população do planeta, pode ser vista como um ponto de ruptura, porque traz consigo a possibilidade de mudanças estruturais no mundo globalizado. Mas, certamente, não é a primeira nem a última representante dessa longa interação das sociedades humanas com as doenças infecciosas. Este artigo relata um pouco da evolução das epidemias ao longo da história.

A domesticação de plantas e animais pelos coletivos humanos há cerca de 12 mil anos e o estabelecimento dos núcleos urbanos e das primeiras civilizações representaram as bases materiais a partir das quais muitos patógenos puderam proliferar e provocar doenças em maior escala. Onde aglomerações humanas modificaram os padrões de distribuição de plantas e animais, parasitas patogênicos encontraram condições vantajosas para se estabelecerem e se disseminarem.

A proximidade com os animais não-humanos e a exploração de novos nichos ecológicos por populações cada vez mais numerosas e de organização complexa resultaram no surgimento de grande parte das patologias que afligiram as comunidades humanas. Intercâmbios comerciais, migrações, incursões militares e empreendimentos coloniais tornaram-se os principais responsáveis pelo avanço das epidemias – o que ganhou amplitude com o surgimento do capitalismo a partir do século 16.

Há vários registros sobre a incidência de doenças epidêmicas nas civilizações – na Epopeia de Gilgamesh (poema épico da Mesopotâmia), em textos egípcios, na Bíblia e em narrativas como a de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso e a ‘peste de Atenas’, entre outros. Rotas de comércio que integraram o Mediterrâneo com o oceano Índico e os trajetos de caravanas intercontinentais da Ásia provocaram os encontros biológicos que resultaram nas epidemias. Por uma dessas rotas, viajou a peste que incidiu, entre 542 e 543, sobre Constantinopla, capital do Império Bizantino e zona de convergência de importantes destinos comerciais. Testemunhos de época dão fortes indícios de que se tratou da peste bubônica, que passou então a se espalhar pela Europa até o século seguinte, quando provocou surtos severos nas cidades mediterrâneas.

A peste bubônica tornou-se o protótipo das epidemias que acometeram o Ocidente, particularmente o continente europeu. A segunda onda epidêmica assolou a Europa entre 1347 e 1351, quando ficou conhecida como a ‘peste negra’ e ceifou a vida de um terço da população. Alcançou o litoral europeu por Messina, na Sicília, aonde chegaram mercadores genoveses de Constantinopla, então acometida por uma grave epidemia da doença. Difundiu-se de Messina pelo Mediterrâneo para o Oeste, incidindo sobre as cidades litorâneas, e dali rumando para o interior pelas vias comerciais e calhas dos grandes rios.


A segunda onda epidêmica de peste bubônica assolou a Europa entre 1347 e 1351, quando ficou conhecida como a ‘peste negra’ e ceifou a vida de um terço da população

A quarentena

As respostas que a peste incitou nas comunidades figuraram como paradigma das ações diante de surtos epidêmicos nos séculos seguintes. O pânico e o medo provocados por ela geraram recursos psíquicos aos quais recorreram os vitimados. As cidades-Estado italianas, na linha de frente do contágio pelo papel nos intercâmbios comerciais com o Oriente, tomaram medidas, como os cordões sanitários, o isolamento, a construção de lazaretos e a quarentena.

A mais longeva das medidas de saúde pública, o período da quarentena, foi estabelecida pelo significado religioso do número 40 – os anos de itinerância dos hebreus fugidos do Egito, os dias de retiro de Cristo no deserto, os de permanência de Moisés no Monte Sinai para receber os Dez Mandamentos.

As quarentenas marítimas mostram a associação entre comércio e infecções. Como ultrapassavam o período de incubação da doença, mostraram-se efetivas e se inscreveram no repertório da saúde pública ocidental, sendo prontamente acionadas na deflagração de surtos epidêmicos.

A quarentena como reação de primeira linha nas epidemias se mantém pela crença na sua eficácia, por atestar a mobilização das autoridades para controlar a doença e por ratificar ações enérgicas, servindo para legitimar a expansão da autoridade estatal. Mas nem sempre foi suficiente para controlar a difusão das moléstias. Por ferir os interesses dos setores comerciais ao deterem o tráfego marítimo, provocou controvérsias que influenciaram as próprias teorias médicas voltadas a explicar os mecanismos de surgimento, difusão e redução das doenças infecciosas. O reconhecimento da natureza contagiosa das epidemias implicou a chancela da medida.

Nos três séculos seguintes, a peste bubônica atingiu grandes porções da Eurásia e do norte da África. Começou a decair no alvorecer do século 18, sendo o surto de Marselha, em 1720, considerado o fecho dessa segunda longa onda pandêmica. Ela retornou no apagar das luzes do século 19, mas, dessa vez, provocaria na Europa apenas surtos isolados em algumas cidades portuárias.

Entre os fatores elencados para explicar esse decréscimo estão: as mudanças climáticas do fim da última glaciação – a diminuição da temperatura levou à queda na atividade das pulgas, dos ratos e patógenos; mudanças nas habitações, desfavorecendo a proliferação de ratos nas proximidades; e a própria efetividade das medidas de quarentena e isolamento.

 

Enfermidades nas Américas


Um dos episódios mais dramáticos de despovoamento provocado por epidemias foi a morte de boa parte das populações ameríndias desde a chegada dos europeus às Américas

Um dos episódios mais dramáticos de despovoamento provocado por epidemias foi a morte de boa parte das populações ameríndias desde a chegada dos europeus às Américas. Doenças como varíola, gripe e sarampo exterminaram cerca de 90% daquelas sociedades, sendo fatores decisivos para a conquista dos territórios e as principais aliadas no genocídio que ocorreu desde a colonização.

As epidemias também influenciaram a opção pelo tráfico de africanos escravizados, já que estes se mostraram resistentes a muitas patologias que haviam dizimado populações ameríndias e que se alastravam pelos territórios coloniais. Junto com os navios escravistas, vieram o Aedes ageypti e a febre amarela. O desmatamento feito para dar lugar aos monocultivos e a infraestrutura ligada ao processamento das commodities (produtos que funcionam como matéria-prima) coloniais favoreceram o estabelecimento do mosquito e da doença nesses territórios.

A partir do século 17, a febre amarela passou a irromper entre cidades portuárias das Américas. Atingia preferencialmente os europeus em detrimento das populações locais, que já possuíam imunidade contra ela. Esse fator influenciou as disputas imperiais entre os europeus por territórios no Grande Caribe entre os séculos 16 e 19.

A malária e a febre amarela imobilizaram e abateram tropas invasoras, ao mesmo tempo em que pouparam exércitos locais. Se, inicialmente, os espanhóis favoreceram-se dessa imunidade diferenciada na defesa de suas possessões, a partir do século 19 ela passou a privilegiar os segmentos nativos que reivindicavam a autonomia de seus territórios. Surtos de febre amarela comprometeram a tentativa, pelas tropas francesas, de deter o processo de independência do Haiti, concluído em 1804.

 

A disseminação da cólera

A intensificação do comércio internacional e dos fluxos migratórios no século 19 propiciou a ‘unificação microbiana’ do mundo. O encurtamento nas distâncias e no tempo pela navegação a vapor e pelas ferrovias favoreceu a disseminação de patógenos e vetores pelos quatro cantos do mundo.

Sem sombra de dúvidas, a cólera foi a mais temida das epidemias globais desse período. Provocou ondas epidêmicas que assolaram quatro continentes durante praticamente todo o século 19. A primeira delas começou em 1817, na Índia, o que lhe conferiu o epíteto de ‘cólera asiática’ e ‘mal de Ganges’.

Até então, era patologia praticamente desconhecida do Ocidente. A movimentação de pessoas e objetos durante o colonialismo britânico nas Índias, as peregrinações religiosas, mas, principalmente, o comércio internacional, favoreceram o transporte do vibrião colérico. As deficientes instalações urbanas, ainda mais precarizadas pelos efeitos sociais da industrialização e do crescimento desordenado, tornaram a cólera um visitante frequente das grandes cidades.

A dramaticidade da doença, que em pouco tempo inutilizava suas vítimas pelas evacuações, acentuou o temor popular e as tensões sociais acarretadas pelo capitalismo industrial e mercantil. A transmissão fecal-oral, a associação com degradação e pobreza e a sintomatologia centrada nas evacuações debilitantes fizeram da cólera um forte marcador social e fator de estigma para as pessoas e comunidades acometidas.

As classes trabalhadoras e pobres viram na incidência predominante entre elas uma forma de ataque dos segmentos privilegiados, inclusive da classe médica, e protagonizaram revoltas populares em várias localidades onde a doença se espalhou. A cólera foi decisiva para o movimento por reformas sanitárias e para a constituição de instâncias públicas de saúde, as quais participaram de forma ativa nas remodelações urbanas, que previram, entre outras coisas, o tratamento de água e esgoto.

A doença também alavancou as tratativas sanitárias em nível internacional. A primeira Conferência Sanitária Internacional reuniu-se em 1851 e foi seguida de outras, que tiveram por objetivo coordenar a notificação de epidemias e quarentenas, de maneira a minimizar o impacto destas sobre o comércio. Os encontros representaram o germe da saúde internacional e global, confluindo na formação, mais tarde, das agências multilaterais de saúde.

Uma das últimas e mais representativas epidemias de cólera que atingiram a Europa ocorreu em Hamburgo (Alemanha) em 1892. O próprio Robert Koch (1843-1910), bacteriologista alemão celebrizado por ter identificado o causador da doença, além dos patógenos da tuberculose e do antraz, foi à cidade portuária para observar o surto. Ali comprovou o papel do vibrião colérico como agente infeccioso, invalidando as teorias que privilegiavam fatores ambientais e climáticos em detrimento do bacilo.

 

A terceira onda

Sete anos depois, a terceira pandemia de peste bubônica alicerçou a posição da bacteriologia na explicação da causa das doenças infeciosas, endêmicas e epidêmicas. Em 1894, discípulos de Koch e do cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) identificaram concomitantemente o bacilo patogênico na China. Soro e vacina foram desenvolvidos para neutralizá-lo, mas a principal inovação foi a descoberta do papel da pulga e dos ratos na cadeia de transmissão, possibilitando ações de controle mais direcionadas, como desinfecção dos navios e controle de locais infestados.

Diferentemente das pandemias anteriores, a terceira pandemia de peste atingiu preferencialmente os países mais pobres. De Hong Kong e Cantão, onde incidiu em 1894, a doença alcançou os principais portos do comércio internacional, incluindo Santos (SP).

A identificação do patógeno, a elucidação do ciclo de transmissão envolvendo homens, insetos e roedores, e a formulação de imunobiológicos para prevenção e tratamento serviram para consolidar o otimismo na possibilidade de controle das doenças com o arsenal da bacteriologia. A descrição dos vetores da malária e da febre amarela no apagar das luzes do século 19 e alvorecer do 20, com consequente definição de campanhas direcionadas contra os agentes transmissores, possibilitou o avanço do colonialismo europeu e norte-americano sobre os trópicos. Concretizou-se a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico pelo istmo do Panamá, depois de tentativas anteriores terem malogrado em função de mortíferas epidemias das duas doenças.

A ligação de higiene e medicina com os dispositivos militares tornou-se ainda mais estreita, impregnando a linguagem, as abordagens e o imaginário acionados no enfrentamento das epidemias, as quais mataram mais, durante as guerras, que as próprias armas. É sabido o papel das epidemias de tifo e disenteria no infortúnio dos exércitos napoleônicos na Rússia.

 

A gripe espanhola

O otimismo trazido pela bacteriologia embalou os corpos de saúde que se mobilizaram durante a Primeira Guerra. Esse foi o primeiro conflito militar em que as mortes decorrentes das batalhas superaram as causadas por doenças. No entanto, essa época trouxe em sua esteira a maior pandemia da história: a ‘gripe espanhola’, assim referida por ter sido notificada em um dos poucos países que não estavam submetidos à censura dos países beligerantes.

A gripe matou cerca de 50 milhões de pessoas e atingiu os quatro cantos do mundo. Por onde passou, provocou pânico e desordem social. A ciência médica tinha pouco a recomendar além da quarentena, do isolamento e do fechamento do comércio. O bacilo incriminado pelo discípulo de Koch, Richard Pfeiffer (1858-1945), como causador da doença, mostrara-se inválido. Tudo indicava que a pandemia era provocada pelos chamados ‘vírus filtráveis’ – acreditava-se que esses agentes causadores de doenças humanas e de plantas poderiam passar por filtros capazes de reter as menores bactérias então conhecidas, mas o termo caiu em desuso.

 

Novas e velhas doenças

Apenas a partir dos anos 1930, mas sobretudo depois dos anos 1950, com o surgimento do microscópio eletrônico e da biologia molecular, foi possível conhecer melhor esses agentes e, mais tarde, associá-los às pandemias que assolariam o mundo na passagem do século 20 para o 21. Uma delas foi a responsável por abalar a confiança instaurada na segunda metade do século 20 nos instrumentos da ciência e da medicina, como antimicrobianos, vacinas, quimioterápicos e inseticidas de efeito residual. Por um tempo, acreditou-se que as doenças infecciosas eram um flagelo do passado.

Se relatos de resistência aos antimicrobianos e inseticidas minaram o projeto de erradicar males seculares como a malária, foi o advento da Aids que perturbou de vez o otimismo no triunfo sobre os patógenos. A isso se somaram a incidência de patologias desconhecidas e dramáticas nos anos 1990 e a reemergência ou persistência de outras já familiares, como tuberculose, dengue e malária. O que a princípio seriam surtos locais de doenças exóticas logo se configurou como ameaças globais, uma vez que, em poucos dias, pacientes e agentes infecciosos se espalhavam pelos continentes.


À semelhança do que aconteceu com a gripe em 1918, as autoridades de saúde na pandemia da COVID-19 têm pouco a recomendar além de quarentena, isolamento e fechamento do comércio e de lugares públicos

O desmantelamento de estruturas de assistência e vigilância à saúde pelo consenso neoliberal estabelecido desde os anos 1980 expôs os países ainda mais a essas ameaças. A agricultura em padrão industrial, o avanço da agropecuária, da mineração e do extrativismo por áreas silvestres e o aniquilamento da biodiversidade estão na raiz das pandemias que se sucederam desde 2003, quando ocorreu a SARS.

Em 2009, o surto de gripe suína provocado por vírus similar ao agente da gripe espanhola reacendeu o alarme para o risco de uma pandemia de proporções semelhantes. E, no apagar das luzes de 2019, um novo coronavírus incidiu na província de Wuhan, na China, tornando-se a pandemia que pôs sob isolamento quase um terço da população mundial.

À semelhança do que aconteceu com a gripe em 1918, as autoridades de saúde têm pouco a recomendar além de quarentena, isolamento e fechamento do comércio e de lugares públicos. Não foi por acaso que o maior representante do comércio global, a China, tenha sido o epicentro da pandemia. A nova doença acionou velhos repertórios e dinâmicas, como acusações xenófobas associadas à investigação das origens, teorias conspiratórias e bodes expiatórios.

Uma pandemia efetivamente global desnuda os limites de governanças e estruturas ligadas aos modelos de soberania dos Estados nacionais, geralmente insuficientes para lidar não só com a virose em questão, mas com uma ameaça muito maior – a das mudanças climáticas, que não apresentam a dramaticidade da doença.

Muitos identificam na Covid-19 um ponto de ruptura; o atestado de nascimento de uma nova ordem pela magnitude das mudanças que ela implicaria. O futuro do mundo pós-pandemia ainda é incerto, mas não faltam vozes influentes fazendo suas apostas. Mais seguro é que ela não representa o fim da longuíssima trajetória de interação das sociedades humanas com as doenças infecciosas.

Leia Mais

CROSBY, Alfred W. O Imperialismo Ecológico: a expansão biológica da Europa, 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras (Edição de Bolso), 2011.

DIAMOND, Jared. Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas. 15ª ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2013.

GARRETT, Laurie. A Próxima Peste: novas doenças num mundo em desequilíbrio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

UJVARI, Sérgio. A História e suas Epidemias – A Convivência do Homem com os Microrganismos. Rio de Janeiro/ São Paulo: Senac, 2003.

André Felipe Cândido da Silva

Casa de Oswaldo Cruz
Fundação Oswaldo Cruz

Matéria publicada em 26.05.2020

COMENTÁRIOS

  • Aroldo Luis de Carvalho

    Excelente texto!

    Publicado em 15 de junho de 2020 Responder

  • Verlan Valle Gaspar Neto

    Excelente texto! Primoroso!

    Publicado em 17 de junho de 2020 Responder

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