Quem tem medo da inteligência artificial?

Explorada na ficção há décadas, a tecnologia já provoca mudanças em nossa sociedade e alimenta temores sobre o futuro da humanidade.

Depois de assistir a um desses vídeos – já famosos na internet – de humanos chutando cães robóticos para testar sua resistência, um pensamento parece inevitável: “Não quero estar aqui quando esses robôs decidirem se vingar.” Os animais mecânicos que protagonizam essas cenas, da empresa Boston Dynamics, estarão à venda muito em breve… Já a vingança, por enquanto, está só na ficção ou em nossas mentes.

Nosso medo de essas máquinas se voltarem contra nós foi bem explorado, por exemplo, no episódio ‘Metalhead’, da quarta temporada da série Black Mirror. No thriller da Netflix, todo filmado em preto e branco, o que enfatiza o cenário pós-apocalíptico, um grupo de pessoas invade um galpão abandonado em busca de uma caixa (que guardava um pouco de humanidade que ainda restara naquele universo). De repente,eles são surpreendidos por um cão-robô, que inicia uma caçada impiedosa a cada um dos membros do grupo, utilizando inteligência artificial avançada e altas tecnologias de rastreamento capazes denão deixar sequer um humano vivo.

Apesar de o ‘cabeça de metal’(tradução do nome do episódio) ser considerado pelo público um dos episódios mais fracos da série futurista, os roteiristas foram sábios ao retratar um dos perigos mais reais e imediatos da inteligência artificial (IA). Para além das extrapolações tecnológicas e sociais retratadas na ficção, o uso de IAs na indústria bélica é algo bastante preocupante e que gerou, no início do ano, uma enorme polêmica. O chamado ‘projeto Maven’, parceria entre a Google e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, intencionava criar drones capazes de identificar locais e até pessoas utilizando IA. Após manifestações e até mesmo pedidos de demissão na Google, a empresa recuou da parceria. Mesmo assim, já temos tecnologia suficiente para uma nova revolução armamentista, e ainda não há tratado internacional a respeito do uso das IAs. Até quando permaneceremos a salvo de drones militares totalmente autônomos?

 

De qual apocalipse estamos mais perto?

A preocupação de muitas pessoas a respeito da inteligência artificial reside no fenômeno chamado de ‘singularidade’. Esse conceito se refere ao momento em que as IAs estarão tão desenvolvidas a ponto de superarem os próprios seres humanos. Talvez, devido à influência da ficção, as especulações a respeito do futuro pós-singularidade sejam sempre negativas. Mesmo porque, se os computadores se tornassem mais inteligentes do que nós, perceberiam facilmente que a raça humana não é tão benéfica para o planeta nem para as outras espécies, além de ser inútil para os robôs, uma vez que é menos eficiente em todos os tipos de tarefas.

Então, o que impediria os robôs de nos escravizarem ou de dizimarem a nossa espécie? Será que as máquinas seriam fiéis às três leis da robótica de Isaac Asimov, descritas no clássico Eu, Robô, de 1950? São elas: “Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Apesar de alguns cientistas e, principalmente, entusiastas da tecnologia calcularem que, dentro de algumas décadas, atingiremos a singularidade, outra ala da ciência se mostra cética à chegada desse momento.

O cofundador da Microsoft, Paul Allen, publicou um texto na revista MIT Technology Review elencando uma série de argumentos contrários à chegada próxima da singularidade. Ele aponta que precisamos levar em conta a necessidade de desenvolvimento também na área da cognição humana, que ainda está muito atrás do desenvolvimento da ciência na área da computação. Além disso, a história da ciência mostra que o avanço tecnológico não caminha em ritmo constante e em uma linha reta, muito menos em uma eterna curva exponencial.

 

Impactos no mercado de trabalho

No entanto, se não estamos tão próximos assim de um apocalipse da revolta dos robôs, não podemos dizer o mesmo a respeito de um apocalipse dos empregos.

A BBC publicou reportagem sobre um trabalho da Universidade de Oxford que verificou quão suscetível à automação cada emprego está nos próximos 20 anos. Alguns estão listados na tabela 1.

Suscetibilidade de diferentes tipos de emprego à automação nos próximos 20 anos.

Mas os riscos da IA para o mundo do trabalho vão além da possibilidade de diversos empregos desaparecerem. Há também a ameaça de uma grande desindustrialização de diversos países.

O que faz uma empresa ir de seu país de origem para outro mais pobre – e com isso gastar muito com taxas de importação/exportação, transporte, adaptação à legislação local etc. – são fatores como redução do custo de mão de obra, menor carga tributária, incentivos fiscais. Mas, com a possibilidade de um empresário trocar boa parte dos seus funcionários por robôs (que não pagam impostos), as operações em solo estrangeiro deixam de valer a pena. E, com isso, acontece o que já está acontecendo: diversas multinacionais estão retornando a seus países de origem, provocando uma desindustrialização de nações mais pobres.

 

Devemos entrar em pânico?

A história das Revoluções Industriais mostra que, sim, esses são períodos difíceis para quem os vive. Mas é certo que novas formas de emprego surgirão e, aos poucos, a sociedade irá se adaptar a elas. Além disso, as inteligências artificiais também trarão diversos benefícios, que tornarão a nossa vida um pouco mais fácil e nos permitirão abrir mão de fazer determinadas tarefas (que IAs podem executar) para nos dedicarmos a outras.

Fato é que mudanças estão por vir, são grandes e vão transformar (e já estão transformando) consideravelmente nosso modo de vida atual. Portanto, é preciso estar atualizados sobre o tema e participar de discussões sobre a inteligência artificial e seus produtos. Por mais que tudo pareça complexo, estamos falando de tecnologias de ponta sendo desenvolvidas pelos maiores especialistas no assunto: a discussão sobre a sua aplicabilidade e financiamento de novas pesquisas no campo cabe, sim, a nós, os leigos, e à população em geral.

Lucas Miranda
Editor do blog Ciência Nerd
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor),
Universidade Estadual de Campinas

Matéria publicada em 21.02.2019

COMENTÁRIOS

  • ANA PAULA MORAIS DA SILVA

    Olá, é um artigo de opinião?

    Publicado em 22 de abril de 2019 Responder

    • Anônimo

      Também gostaria de saber

      Publicado em 23 de abril de 2019 Responder

  • Anônimo

    Novas tecnologias tendem a baixar preços (desde que o mercado seja livre, permitindo concorrência e a demanda seja elástica), com isto pode-se diversificar o consumo para a mesma renda, aumentando a procura por outros produtos, deslocando mão de obra. Por isto as máquinas não geraram desemprego de longo prazo, melhorando a condição geral.

    Publicado em 13 de maio de 2019 Responder

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