Riscos e impactos das minerações e barragens

Por que os desastres envolvendo a atividade mineradora têm sido cada vez mais comuns? De que forma a mudança no mercado global de minério está associada a esse cenário?

A mineração é uma atividade secular no Brasil. No entanto, a sociedade brasileira não tem o costume de se identificar como uma sociedade minerada.

Nas últimas duas décadas, a mineração ganhou ainda mais escala no Brasil, acompanhando o aumento nos preços das commodities no mercado internacional entre 2002 e 2011, período conhecido com boom. Por outro lado, com a expansão de novos projetos e a intensificação da exploração mineral em áreas com operação vigente, também cresceram os conflitos envolvendo as comunidades do entorno da extração mineral ou que eram afetadas pela infraestrutura dos empreendimentos de transporte, beneficiamento ou disposição de rejeitos.

A partir de 2012, um novo cenário no mercado global de minério se instaura: os preços começaram a cair rapidamente, chegando ao ponto mais baixo em 2016. Nesse contexto de pós-boom das commodities minerais, ou seja, de preços declinantes, também se altera a natureza dos conflitos envolvendo mineradoras, em grande parte porque mudam o comportamento corporativo e as características dos impactos causados pela mineração no país.

Os grandes desastres ambientais e outros impactos provocados são expressão da nova conjuntura de mercado. O rompimento das barragens de rejeito em Mariana, Barcarena e Brumadinho são reflexo da violência das ações corporativas para compensar as perdas econômicas do cenário de depreciação dos minérios, visando manter as margens de lucros de seus acionistas. Contudo, são os grupos mais vulneráveis e com baixo grau de influência política os que mais sofrem, são mortos e impactados pelos desastres da mineração: trabalhadores (em especial, terceirizados), populações não brancas, comunidades tradicionais e mulheres.

Vamos debater sobre a atividade mineradora, seus riscos e impactos? Participe! Mande suas dúvidas e comentários. Eles ajudarão na construção de um artigo para a Ciência Hoje.

Luiz Jardim Wanderley
Departamento de Geografia,
Faculdade de Formação de Professores,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Matéria publicada em 25.04.2019

COMENTÁRIOS

  • Ana Maria

    É possível minerar como é feito em alguns pontos do Brasil, próximo a cidades, sem riscos? Essa atividade neste formato deveria ser extinta?

    Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Olá Ana Maria, a mineração é uma atividade de alto risco de impactos ambientais e sobre as populações situadas no entorno da atividade. Em áreas urbanas, os riscos se agravam por conta da maior densidade populacional. Em muitos casos, essas atividades não deveriam existir, por conta do elevado risco aos quais as populações estão expostas.

      Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

  • Pedro

    Vim pra notar na região metropolitana de Curitiba, neste mês de Abril/2019, aconteceu um terremoto, e conclui sobre a leitura da situação, que culpa é da atividade de mineração na cidade (não me recordo o nome).

    E provavelmente (eu tô achando) situações tão ruins (porque não existe só o Ser Humano no neste planeta) quanto as recentemente noticiadas devem acontecer em todo o globo.

    Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Pedro, muitas atividades mineradoras, sobretudo as que utilizam explosões, podem provocar abalos sísmicos, inclusive com efeitos sobre as construções na proximidade da atividade mineradora.

      Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

  • Antônio de Castro Júnior

    Por que os rejeitos são acondicionados de forma tão grotesca? O que se faz em países de primeiro mundo?

    Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Prezado Antônio,
      Por incrível que pareça, a opção por barragens de rejeitos também é utilizada em países centrais (“primeiro mundo”). Inclusive, em 2014, no Canadá, ocorreu o desastre de Mount Polley (sem mortes). Contudo, existem técnicas mais seguras de disposição de rejeitos, mas por escolhas econômicas das mineradores não são usualmente utilizadas.

      Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

  • Eduardo Parreira

    Porque não há fiscalização? Qual o órgão responsável pelo monitoramento dos maus tratos ao meio ambiente? É inconcebível que o ser humano não tenha descoberto uma forma limpa de explorar a mineração ou fazê-la de forma segura.

    Publicado em 25 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Olá Eduardo,
      O Brasil tem sérios problemas de fiscalização ambiental, que tendem a se agravar nos próximos anos. Os órgãos ambientais federal (IBAMA) e estaduais estão sucateados e sem recursos e pessoal suficientes para promoverem monitoramentos frequententes e adequados. Os governos, por outro lado, possuem relações problemáticas com empresas mineradoras, que vão desde financiamento de campanhas até a participação direta de ex-funcionários em cargos políticos. Além disso, o monitoramento das condições ambientais são promovidos, quase que exclusivamente, pelas próprias empresas ou por auditores contratados por elas. Em um contexto de maior financeirização das práticas corporativas, é difícil ver um futuro em que práticas menos agressivas ambiental e socialmente sejam priorizadas em detrimento dos lucros de curto prazo dos acionistas. Por fim, a mineração é uma atividade altamente violenta, que segundo Gudynas, promove amputações irreparáveis da natureza, não podendo portanto ser considerada limpa.

      Publicado em 26 de abril de 2019 Responder

  • Wallace Melo

    O que falta nessas empresas é Responsabilidade Social, visto que a fiscalização e manutenção dessas barragens merecem grande atenção, já que os impactos afetam toda a sociedade. Cabe ainda ressaltar que existe várias outras maneiras de reduzir custos e gastos para manter a margem de lucro, e que o real problema está na falta de compromisso e responsabilidade de alguns gestores, temos aqui um problema de educação mais uma vez.

    Publicado em 26 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Wallace, a responsabilidade social das empresas não existe se não houver pressão da sociedade. Sem pressão social e controle do Estado não existirá bom comportamento empresarial. Trata-se de uma lógica de funcionamento, cujo objetivo único é o lucro.

      Publicado em 27 de abril de 2019 Responder

  • Álvaro Valentin

    Ainda tem jeito de reparar os estragos feitos e ‘ajeitar’ barragens antigas?
    A atividade mineradora deve parar?
    Algumas barragens são muio antigas, e continuam em funcionamento, uma hora, elas vão ceder.
    Há pontos onde o risco pode ser desconsiderado por ser muito baixo ou tudo deve ser revisado?

    Publicado em 26 de abril de 2019 Responder

    • Luiz Jardim Wanderley

      Prezado Álvaro, os estragos provocados têm sua temporalidade incerta. Podem durar décadas e até séculos. Alguns danos podem ser mitigados, mas os impactos continuarão existindo, inclusive se renovando diariamente. O Rio Doce, após mais de 3 anos da tragédia, ainda sente os danos e, cada vezes mais, se expande o número de atingidos ao se descobrir novos impactos.
      Sobre as barragens, existem barragens antigas e novas. Algumas barragens antigas nunca tiveram estudos de impacto e não se sabe ao certo sua história de construção, Por isso, suas condições estruturais e perspectivas de impactos são incertas. No entanto, mesmo sem funcionar, caso elas não sejam desmontadas, as barragens podem romper. Por fim, a barragem como solução de disposição de rejeito tem que ser revista. Toda barragem pressupõe riscos. Além disso, barragens ficam como passivos ambientais para as populações locais, mesmo após o fim das atividades de mineração.

      Publicado em 27 de abril de 2019 Responder

  • Angela A Crispim

    Luiz,
    Com as ideias predominantes do atual governo e seus ministros do Meio Ambiente e Agricultura, estou extremamente preocupada com a situação ambiental, as terras indígenas, as reservas biológicas, uma possível maior abertura para novas mineradoras, a quantidade de rejeitos que estão depositados sem a devida fiscalização.
    Esse pessoal vem com um discurso de modernização contundente, mas o que vemos são propostas para desmontar todo o sistema de garantias para a manutenção de alguma qualidade da vida biológica e o resultado disso será catastrófico. Se está ruim agora ira ficar muito pior. É preciso uma mobilização das pessoas. O político tem medo do eleitorado quando está unido.

    Publicado em 2 de maio de 2019 Responder

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