Será que a humanidade sobreviveria a um apocalipse zumbi?

Por meio de simulação computacional baseada em dados extraídos da ficção, pesquisa brasileira avalia as condições necessárias para que uma cidade resista ao ataque de um zumbi.

 

Os zumbis fazem parte do imaginário popular e, frequentemente, protagonizam séries, filmes, jogos e livros. É muito comum eles serem retratados com uma pele apodrecida, cheiro forte e ruim, vestimenta esfarrapada e partes do corpo faltantes. Muitos deles também tendem a ser mais lentos, cambaleantes e sem qualquer inteligência ou racionalidade.Dos anos 2000 em diante, talvez em decorrência das novas capacidades bélicas, comunicacionais e de transporte do ser humano, vimos surgir nas telinhas zumbis mais ágeis, fortes, letais e até inteligentes.

A questão é: estamos preparados para sobreviver a um apocalipse zumbi? Essa foi a pergunta que motivou uma pesquisa realizada no Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora. Os pesquisadores João Paulo Mendonça, Leonardo Teixeira, Fernando Sato e Lohan Ferreira criaram uma simulação computacional onde um único zumbi é colocado em uma pequena cidade. À medida que o tempo vai passando, os zumbis vão interagindo com os civis e os militares dessa cidade, e essas interações ocorrem de forma proporcional à quantidade em que eles existem nesse sistema.

O zumbi escolhido para ser o primeiro a atacar a cidade é um daqueles mais clássicos (o zumbi lento que vive se arrastando atrás de carne fresca). Ao encontrar um humano (civil ou militar) ele pode:ser morto, matar ou transformá-lo em zumbi. Para definir a chance de cada uma das três coisas acontecer, os pesquisadores observaram a proporção desses acontecimentos em séries, filmes, jogos, livros e quadrinhos (afinal, nunca tivemos um apocalipse zumbi para termos dados empíricos desses encontros).

As possibilidades de interação e a chance de acontecerem encontram-se na tabela 1.

Tendo definido o que pode acontecer nos encontros entre os elementos dessa cidade, passamos para a fase da simulação.Primeiramente, os pesquisadores rodaram uma simulação com 1 militar, depois com 2, depois com 3 e assim por diante. Com um baixo número de militares, a quantidade de confrontos entre zumbis-militares e zumbis-civis era pequena, porque a população era dizimada com muita facilidade. À medida em que o número inicial de militares foi aumentando, os confrontos com os zumbis tornavam-se mais numerosos e a população resistia por mais tempo. Mesmo assim, os zumbis estavam sendo vitoriosos em todas as simulações.

O ‘ponto de virada’, a partir do qual os zumbis foram dizimados e alguma parcela da população sobreviveu, ocorreu quando se colocou um número inicial de 47 militares para proteger mil pessoas.Só tem um problema: sabe qual é a quantidade de militares no Brasil?Cerca de 1,6 a cada mil pessoas. Os Estados Unidos, com todo seu poderio bélico e militar, possuem apenas 4,2 militares ativos a cada mil pessoas.

Assim, com os parâmetros utilizados, o único lugar do planeta que teria alguma chance de não ter sua população extinta frente a uma ameaça zumbi é a Coreia do Norte, com 47,4 militares para cada mil pessoas. E, mesmo assim, dos seus 25 milhões de habitantes, menos de três milhões sobreviveriam.

 

Testando outros parâmetros

Um dos modelos de zumbi utilizado em outras simulações foram aqueles mais inteligentes, rápidos e letais (como os do filme Guerra Mundial Z ou da série de jogos Left 4 Dead). Nesse caso, a chance de um zumbi matar um humano aumenta consideravelmente. Em contrapartida, as chances de ele converter alguém em zumbi são reduzidas.

Por incrível que pareça, se os zumbis fossem mais agressivos e letais, a humanidade estaria mais segura. Sim, isso mesmo. Por matar muito mais do que ‘zumbificar’ as pessoas, a população de zumbis não cresceria tanto e decairia com o tempo, com pouca conversão de novos indivíduos. A mesma lógica acontece no mundo real. Se um parasita (seja um vírus, uma bactéria, protozoário, etc.) é muito agressivo e mata seu hospedeiro, ele não vai conseguir se reproduzir e sua espécie tenderá a diminuir. Em contrapartida, doenças mais brandas, mas facilmente contagiosas (como a gripe), embora não sejam tão perigosas assim, dificilmente serão extintas por nós, humanos. Seria necessário um batalhão de muitas vacinas e medicamentos (e, mesmo assim, o vírus tem a possibilidade de sofrer mutação genética e se adaptar).

Nesse modelo de zumbis agressivos, a quantidade de militares necessária para salvar a humanidade cairia de 47 para 20 militares – para cada mil pessoas. De fato, é uma redução grande, mas ainda assim não resolveria o problema da maioria dos países.

Outra mudança de parâmetros avaliada pelos pesquisadores foi tornar a população de civis mais saudável e não sedentária. Com isso, os civis teriam uma maior chance de sobrevivência no encontro com um zumbi e maior chance de serem treinados com sucesso por um militar, o que mudaria muito o panorama do apocalipse.Com esse cenário, a quantidade de militares necessária para salvar a humanidade cairia de 47 para apenas um militar para cada mil pessoas. Uma cidade com mil habitantes saudáveis precisaria de apenas um militar para derrotar os zumbis, embora restassem só 210 pessoas vivas ao final.

 

Da ficção para o mundo real

Pode parecer brincadeira falar de apocalipse zumbi, mas não se engane, essa pesquisa pode nos ajudar a entender vários outros sistemas do mundo real. Há estudos que usam algoritmos muito similares para resolver problemas no campo da economia, da saúde, do transporte, da indústria, etc. Por exemplo, basta substituir‘zumbis’ por ‘bandidos’ e utilizar dados estatísticos reais para estudar estratégias de segurança pública. Ou substituir ‘zumbis’ por ‘malária’para estudar formas de conter epidemias.

O que podemos dizer disso tudo é que, se o prefeito de uma cidade quiser proteger sua população de um apocalipse zumbi (ou da crescente conversão de jovens para o tráfico), ele não deve focar seus investimentos na força bruta de uma pequena parcela da população – os militares ou policiais. A melhor estratégia parece ser investir em políticas públicas que melhorem as condições de vida dos civis, por meio do esporte, da cultura, da saúde e da educação.

Lucas Miranda
Editor do blog Ciência Nerd
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor),
Universidade Estadual de Campinas

Matéria publicada em 01.02.2019

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