Desmatamento, secas e queimadas, um círculo suicida

A seca no Sudeste do Brasil insiste em frequentar os cadernos de política e economia. Nos de política, o partido A acusa o partido B de inépcia na gestão da água de abastecimento público em São Paulo. Nos de economia, ficamos sabendo da intrincada engenharia financeira de concessionárias públicas e privadas de água e energia, das compensações, taxas, aumentos represados de tarifas, e dos efeitos da seca no custo da carne, do leite, dos grãos e de outros produtos agrícolas.

O interior paulista sofre com a maior seca dos últimos 70 anos. São Paulo, a maior metrópole do país, está perto ver esgotada a água de sua principal fonte de captação e cogita seriamente extrair água do lodo de suas represas. Pela primeira vez na história, a nascente do rio São Francisco secou. A foto que ilustrava a matéria mostrava um relevo acidentado e calcinado por queimadas.

Secas provocam queimadas, que provocam mais secas. Que o diga o estado do Rio de Janeiro, que perdeu nos últimos dias o equivalente a 5.200 campos de futebol de mata atlântica devido a queimadas. Em escala de superfície do território nacional, é pouco. Mas, em escala do que sobrou da mata atlântica, é um prejuízo e tanto.

Queimada
Queimada em área de cerrado no norte de Minas Gerais. O fenômeno é grave também no estado do Rio de Janeiro, que perdeu o equivalente a 5.200 campos de futebol de mata atlântica nas últimas semanas. (foto: Jean Marconi/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Multiplicam-se fotos de carcaças de veículos diversos e lixo de toda sorte acumulado no fundo de rios e represas, que a seca expõe agora à luz do dia. Esses lugares eram tidos como bons sumidouros de provas materiais e de lixo em geral, cobertos com o manto da água e do esquecimento, supostamente para sempre.

Mas os tempos mudaram, as chuvas não vieram e os rios secaram. As hidrovias não são mais hidro e, portanto, não são mais vias. As represas secas se tornaram pastos, e onde havia peixes agora há vacas.

É uma ironia suprema algumas vacas paulistas beneficiando-se da seca, provocada por milhares de outras vacas a milhares de quilômetros dali, no arco de desmatamento que vai roendo a Amazônia na direção norte e noroeste e que tem a pecuária como um de seus principais motores e as queimadas como uma de suas principais ferramentas.

Naturalmente, esses generosos e pacíficos quadrúpedes herbívoros não têm livre arbítrio nem meios de promover o desmatamento; seus donos se encarregam disso.

Amazônia: de pulmão a torneira

Creio que, para o leitor regular desta coluna ou do noticiário no front ambiental, as informações sobre novos recordes de calor, chuva e seca no país não são grande novidade, nem a relação desses recordes com o aquecimento global – e seus muitos desdobramentos – e com as mudanças no uso do solo, no país e alhures. “Mudanças no uso do solo”: esse frio eufemismo contemporâneo politicamente correto deve ser traduzido como “detonar geral”, ok?

Todo o território brasileiro depende da chuva que a Amazônia gera e que está minguando devido ao desmatamento

Os chatos do IPCC já cansaram de explicar que há um ‘rio’ de umidade da Amazônia para o Sudeste do Brasil, que alimenta as chuvas nesta região e é alimentado pela evapotranspiração da mata. Na verdade, jornalistas e divulgadores de ciência dos anos 1960-1970 estavam errados quando atribuíam a esse bioma a função de pulmão do mundo. Está mais para torneira que pulmão. É verdade que boa parte do Brasil anda mesmo de respiração curta, mas por ansiedade, devido à falta d’água.

Se houvesse alguma tênue conexão entre conhecimento e tomada de decisão, há tempos a população do Sudeste brasileiro já deveria ter metido o bedelho no uso do solo no Norte do país, movida como sempre por instinto de sobrevivência, mas obrando nesse caso hipotético para o bem de todos, embora sem querer.

Afinal, todo o território brasileiro depende da chuva que a Amazônia gera e que está minguando devido ao desmatamento. Sabemos que desmatamentos secam mananciais. Nos tempos do Brasil Imperial, plantou-se tanto café nas encostas do maciço da Tijuca que as fontes que abasteciam a capital escassearam, a floresta da Tijuca teve de ser replantada, e o café foi provocar seca em outras freguesias.

Área desmatada
Área desmatada para criação de gado na Amazônia brasileira. A pecuária é um de principais motores do desmatamento, que tem destruído a região no sentido norte e noroeste, e é um dos agentes da seca no Sudeste do país. (foto: Leonardo F. Freitas/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Falta nos convencermos de que o que observamos localmente ocorre também regional, nacional e globalmente. A consequência lógica é que seguir desmatando é uma atitude suicida. Sem água, não há energia nem comida. Sem esse trio, lá se vai a segurança. Chegando a esse ponto, já perdemos a educação. E quanto à saúde e ao transporte? Cada um por si.

Parece que só vamos entender os tais ‘serviços ambientais’ quando os perdermos. A atual crise hídrica é apresentada como anomalia ou fatalidade. Ninguém ousa apontar as conexões entre seca e atividade humana. Será por medo de irritar o agronegócio? Para piorar, estou convicto de que boa parte da população – inclusive tomadores de decisão – acha que os tais serviços ambientais incluem as atividades de guarda-parques, engenheiros florestais e paisagistas.

A atual crise hídrica é apresentada como anomalia ou fatalidade. Ninguém ousa apontar as conexões entre seca e atividade humana

Seja como for, diante da escassez de água na torneira, as notícias catastróficas sobre a quebra de produção hidrelétrica perderam destaque. Podemos aguentar muito mais tempo sem luz e energia do que sem água, certo? Mas quanto tempo? Alguns afirmam que, se não chover pra valer nas próximas semanas nas áreas de captação de água de São Paulo, é catástrofe certa.

Em outros pontos do país, os eventos climáticos vão confirmando dolorosamente as previsões do IPCC para essa região do planeta. Alternância de grandes secas e cheias na Amazônia com tendência para períodos de seca mais longos, mais secas no Sudeste e mais temporais e enchentes no Sul.

Ainda bem que tanta divulgação dos problemas de abastecimento de água e hidreletricidade motiva os consumidores residenciais, industriais e rurais a usar esses preciosos recursos com mais parcimônia, não é? Que bom, porque, se dependêssemos de campanhas agressivas de racionamento por parte de empresas, do poder público e de agências reguladoras, estaríamos calados, como sempre, mas dessa vez devido à secura na garganta. 

Novos tempos

Não sei para você, leitor, mas para mim secura na garganta era um dos efeitos que sofria ao ler o noticiário sobre a recente campanha eleitoral. A invisibilidade dos temas ambientais na corrida para o governo dos estados e do país foi quase total.

Não está acontecendo nada de especial. A maior cidade do país deve se tornar inviável dentro de um mês, mas tudo bem, vai chover antes disso. Também não tive notícia sobre mudança tarifária, estimulando a economia e punindo o desperdício de água e energia. Esse deve ser o tal cenário ‘business as usual’, do qual tanto se fala nas previsões sobre evolução do clima no futuro próximo.

Vai mesmo chover a cântaros em breve? É o que sugerem as séries históricas, aliás, bem curtinhas, de registro do clima. Mas os tempos mudaram, literalmente, e o passado já não vale muito para prever o futuro.

Bob Dylan talvez não pensasse estar sendo tão profético ao cantar nos anos 1960 que os tempos estavam mudando e que a resposta estava soprando no vento.

Veja Bob Dylan interpretando Blowin’ in the wind (Soprando ao vento)

Não sei qual é a resposta, mas sei que o vento está mais forte e mais seco. Então na verdade a resposta deve estar na chuva. Ou seria no isqueiro e na motosserra?

Aguardemos, ansiosos, pelas chuvas.

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 31.10.2014

COMENTÁRIOS

Os comentários estão fechados

CONTEÚDO RELACIONADO

Tempestades, enchentes e embriões: um drama pré-histórico

Pesquisadores encontraram centenas de ovos de pterossauros de 120 milhões de anos, alguns contendo embriões preservados em três dimensões. A descoberta, tema da coluna de Alexander Kellner, revela fatos inéditos sobre uma espécie de réptil voador da China.

Bobagens

Muitos ‘sábios’ da língua portuguesa se valem de correlações falsas para explicar a origem de certas palavras ou apontam inadequações de expressões e provérbios consagrados com base em uma análise superficial. Sírio Possenti aponta os absurdos de algumas dessas teses em sua coluna.