Quem matou o golfinho?

Uma descoberta bem curiosa foi publicada em março na revista Palaeontology: fósseis de um golfinho com marcas de dentes. E o melhor: a equipe de Giovanni Bianucci, da Universidade de Pisa, na Itália, acredita não apenas ter descoberto o culpado, mas também a estratégia do ataque. Um verdadeiro mistério à moda de Sherlock Holmes!

A vítima

Examinando a coleção do Museu Regional de História Natural de Torino, Bianucci se deparou com o esqueleto de um golfinho fossilizado. As partes recuperadas foram crânio e mandíbula, quase toda a coluna vertebral e diversas costelas.

Ao contrário do que acontece com a maioria das descobertas paleontológicas, o exemplar não era novo: foi escavado durante a segunda metade do século 19, na localidade de Bagnasco, região de Piemonte, no norte da Itália.

As marcas nos ossos eram bem diferentes daquelas resultantes de problemas durante a coleta e preparação dos fósseis

Os fósseis tampouco pertenciam a uma espécie desconhecida, mas sim a um golfinho extinto há aproximadamente 4 milhões de anos – o Astadelphis gastaldii.

O que chamava atenção nesse exemplar eram algumas marcas nos ossos, bem diferentes daquelas resultantes de problemas durante a coleta e preparação ou mesmo decorrentes do processo de fossilização.

O primeiro autor a descrever o exemplar em 1883, Alessandro Portis, já havia notado que o esqueleto tinha sulcos e perfurações. Ele atribuiu essas características à mordida de um tubarão branco, cujos dentes também são encontrados nos depósitos do Piemonte datados do Plioceno. Mas as observações da equipe de Bianucci não condiziam com essa interpretação. Havia algo de errado…

Esqueleto de Astadelphis
A prova do crime: o esqueleto do golfinho ‘Astadelphis gastaldii’ com marcas resultantes de um ataque de tubarão. O desenho esquemático abaixo da foto representa o local da dentada (arco pontilhado em azul) e os danos provocados nos ossos da vítima (pontos em vermelho). Imagens: Bianucci et al. / Palaeontology.

O crime

Ao observar cada um dos ossos daquele esqueleto, os cientistas constataram certo padrão nas marcas. Elas não eram aleatórias, mas tinham uma direção preferencial. A mandíbula, várias vértebras e, sobretudo, as costelas exibiam estrias e sulcos que foram interpretadas como tendo sido feitas por dentes.

Os paleontólogos costumam atribuir esse tipo de marca a dois fatores. Elas podem ter sido deixadas após a morte do animal, pela atividade de espécies carniceiras que se alimentaram da carcaça, ou podem ser indicações de que o animal em questão havia sido ‘assassinado’ por algum predador.

Conclusão inevitável: as marcas eram evidências de um ataque que culminou com a morte do golfinho

Bianucci e colegas já sabiam, com base em estudos anteriores, que marcas deixadas por carniceiros são geralmente pequenas e pouco pronunciadas. Muitas vezes, dentes do animal carniceiro se quebram nessa ação. Ademais, marcas desse tipo de mordida não têm uma orientação preferencial, já que o animal dispôs de tempo para se alimentar à vontade da carcaça.

Tudo isso era bem diferente do que os pesquisadores italianos viram no fóssil do golfinho, que tinha marcas orientadas e profundas. Eles tampouco encontraram qualquer dente associado ao esqueleto. A conclusão foi inevitável: as marcas observadas nos ossos do golfinho eram evidências de um ataque que culminou com a sua morte.

Os suspeitos

O golfinho viveu em um mar que ocupava a região norte da Itália há quatro milhões de anos. Dois tipos de tubarão aparecem no registro fóssil do Plioceno nos depósitos do Piemonte: com os dentes lisos ou serrilhados.

Entre as espécies com dentes serrilhados, estão o famoso tubarão-branco (Carcharodon carcharias), o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvieri), o Hexanchus griseus e o Megaselachus megalodon. Destes, apenas o último está extinto – os demais ainda são encontrados hoje em dia.

Tubarão-branco
Espécies com dentes serrilhados como o temido tubarão-branco (‘Carcharodon carcharias’) estavam entre os suspeitos de ter atacado o golfinho (foto: Terry Goss / CC 3.0 BY-SA).

Já os tubarões com os dentes lisos são menos diversificados nas rochas do Piemonte. Eles são representados pelas espécies Cosmopolitodus hastalis, Parotodus benedeni e Isurus oxyrinchus – este último é o único a ter sobrevivido até os dias de hoje.

Para identificar o agressor do golfinho, Bianucci e seus colaboradores fizeram testes com diferentes dentes de tubarão comuns nos depósitos do Piemonte em massa de modelar. Embora esse material seja bem diferente da carne e dos ossos do golfinho, o experimento pôde dar uma ideia geral das diferentes morfologias deixadas por dentes de formatos distintos.

Uma comparação dos resultados experimentais com as marcas observadas no golfinho levou Bianucci e seus colaboradores à conclusão de que o tubarão que havia atacado o golfinho não possuía dentes serrilhados, cujas marcas são bem distintas. Com isso, quatro dos sete acusados da morte do Astadelphis foram inocentados.

O tubarão que atacou o golfinho não possuía dentes serrilhados, o que inocentou quatro suspeitos

A equipe descartou também da lista de suspeitos a espécie Parotodus benedeni, pois seus grandes dentes teriam deixado marcas maiores e mais profundas do que as encontradas no fóssil. Menos um.

Com isso, a lista de acusados foi reduzida a duas espécies: Isurus oxyrinchus e Cosmopolitodus hastalis. O I. oxyrinchus é encontrado nos dias de hoje e raramente ataca golfinhos. Por se tratar de um animal de porte relativamente pequeno (atinge no máximo 3 metros de comprimento), talvez não fosse um bom candidato a predador do golfinho em questão.

Agora, o principal suspeito era o Cosmopolitodus hastalis, que podia atingir quase 8 metros de comprimento. Os experimentos com massa de modelar deram força à acusação. Eles mostraram que o animal que atacou e possivelmente matou o golfinho tinha mais de 4 metros – um tamanho compatível com o do Cosmopolitodus. Para Bianucci e colegas, estava identificada a espécie do autor do ataque.

Mas faltava um último detalhe: como ocorreu o ‘delito’?

Reconstituição do ‘crime’

A partir de características como a posição relativa das marcas de mordidas, os cientistas concluíram que o golfinho foi atacado pelas costas e por baixo. A primeira mordida foi desferida na região ventral do cetáceo, que teve grande parte de sua barriga dilacerada. Em seguida, um novo ataque do tubarão visou as costas do golfinho e deixou marcas nas vértebras da vítima.

Ataque ao 'Astadelphis gastaldii'
O ataque passo a passo: as marcas das dentadas permitiram aos cientistas determinar que, após a aproximação (A), o tubarão desferiu uma primeira mordida na região abdominal do golfinho (B). A vítima, mortalmente ferida, girou sobre si mesma e sofreu uma nova investida, desta vez nas imediações da nadadeira dorsal (C). Imagens: Bianucci et al. / Palaeontology.

Mas o estudo deixou uma dúvida: por que o valente golfinho não foi totalmente engolido pelo tubarão? Não há uma resposta definitiva para essa questão, mas os pesquisadores acreditam outros golfinhos podem ter vindo em defesa do animal mortalmente ferido. Mas trata-se apenas de uma especulação: nunca saberemos ao certo.

O estudo liderado por Bianucci mostra que grandes achados podem ser realizados dentro dos museus, em exemplares já estudados. Às vezes, basta um novo olhar sobre o material para trazer à tona episódios fascinantes como o do golfinho ‘assassinado’.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links sublinhados para mais detalhes)

Por falar em cetáceos, uma nova baleia fóssil acaba de ser descrita na Nature. Procedente de depósitos formados há 12-13 milhões de anos no Peru, a nova espécie foi batizada de Leviathan melvillei e possuía um crânio com cerca de 3 metros e dentes de 12 a 36 centímetros de comprimento. Segundo a equipe de Oliver Lambert, do Real Instituto de Ciências Naturais da Bélgica, o novo cetáceo estava na topo da cadeia alimentar e disputava presas com os tubarões gigantes encontrados nesses depósitos.

 

Um volume sobre as pistas deixadas por crocodilomorfos acaba se ser publicado pela série de boletins publicados pelo Museu de História Natural e Ciências do Novo México, nos Estados Unidos. Entre os artigos publicados está um estudo sobre ovos de Baurusuchus salgadoensis coordenado por Felipe Vasconcelos, do Instituto de Geociências da UFRJ. Como os crocodilomorfos em questão, pertencentes ao grupo dos Baurusuchidae, tinham a dentição semelhante à de dinossauros carnívoros, os paleontólogos acreditam que os dois grupos ocupavam nichos semelhantes.

Ainda com relação ao tema da coluna deste mês, a revista Palaios acaba de publicar um estudo sobre marcas de dentes deixadas em um dicinodonte encontrado em rochas com cerca de 210 milhões de anos na Polônia. Como essas marcas têm diferentes formas, os autores do estudo acreditam que a carcaça do dicinodonte em questão serviu como alimento para diferentes animais carniceiros. O estudo foi coordenado por Ewa Budziszewska-Karwowska, da Universidade da Silésia, na Polônia.

Um estudo sensacional com mais de 20 autores publicado na Nature revela uma colônia de organismos preservados em rochas com 2,1 bilhões de anos no Gabão. A equipe de Abderrazak El Albani, da Universidade de Poitiers, na França, demonstrou que essas colônias, que chegavam a 12 centímetros, se desenvolveram em um ambiente aquático com bastante oxigênio. Eles afirmam que essas colônias podem ter sido as primeiras formas de organismos multicelulares de que se tem notícia.

A equipe de Benjamin Kear, da Universidade de Uppsala, na Suécia, descreveu uma mandíbula incompleta de um pterossauro do Cretáceo Superior da Austrália, onde esse grupo fóssil é bastante raro. Segundo o estudo, publicado na revista Alcheringa, esse material é o primeiro registro do grupo Ornithocheiridae nessa parte do planeta, o que amplia a distribuição geográfica desse grupo.

Alunos e pesquisadores estão tentando reproduzir a coleta de fósseis feita pelo paleontólogo Barnum Brown (1873-1963) no rio Red Deer, em Alberta, no Canadá. Nessa área foi encontrada uma grande quantidade de fósseis, particularmente de dinossauros. Mas informações sobre essa curiosa iniciativa no blogue do projeto.

Matéria publicada em 02.07.2010

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