Exuberância em números

A biodiversidade da maior floresta equatorial do planeta não para de surpreender. Nada menos que 441 novas espécies de animais vertebrados e plantas foram descobertas na Amazônia entre 2010 e 2013.

Os resultados foram apresentados recentemente pela organização não governamental WWF, após um levantamento sistemático de todos os trabalhos científicos de descrição e catalogação desses grupos publicados no período. As pesquisas foram conduzidas em vários dos nove países que abrigam a exuberância amazônica.

Figuram na lista uma piranha vegetariana, um macaco que parece miar e um lagarto com pele cor de fogo

Algumas das descobertas foram até inusitadas. Figuram na lista uma piranha vegetariana, um macaco que parece miar, um lagarto com pele cor de fogo, entre tantas outras espécies até então desconhecidas pela ciência.

Detalhes sobre essas curiosas espécies – como o macaco Callicebus caquetensis, a orquídea flor-cor-de-rosa Sobralia imavieirae, a minúscula rã Allobates amissibilis, a cobra Chironius challenger e o raro peixe Apistogramma cinilabra – podem ser encontrados na página da WWF, com belas imagens e também comentários dos pesquisadores responsáveis pelas descobertas.

No total, foram 258 novas plantas, 84 peixes, 58 anfíbios, 22 répteis, 18 aves e um mamífero.

Orquídea 'Sobralia imavieirae'
A impressionante ‘Sobralia imavieirae’ é uma das 45 novas espécies de orquídeas recém-descobertas. (foto: © Andre Cardoso)

E a lista contabiliza somente as espécies de fato catalogadas, isto é, oficialmente publicadas em periódicos especializados. Detalhes estão disponíveis em uma planilha on-line mantida pela WWF.

Para os mais curiosos, vale checar também o relatório Amazônia viva: uma década de descobertas. É um levantamento de todas as espécies descobertas na região entre 1999 e 2009.

Amazônia sob pressão

“Os novos dados confirmam que a Amazônia é, de fato, o local que abriga a maior biodiversidade do planeta”, destaca o geógrafo Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF. “Pesquisadores de muitas instituições estão buscando e catalogando novas espécies continuamente; certamente ainda há muito a se descobrir”, acrescenta o pesquisador.

Um alerta: da bicharada recentemente descoberta entre 2010 e 2013, muitas espécies são endêmicas – ou seja, não são encontradas em nenhum outro local do planeta. Isso significa que, mesmo no anonimato, algumas delas já podem estar em perigo de extinção.

Da bicharada recentemente descoberta, muitas espécies são endêmicas. Isso significa que, mesmo no anonimato, algumas delas já podem estar em perigo de extinção

Maretti ressalta que há duas principais atividades antrópicas que ameaçam o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos: a construção de hidrelétricas e, principalmente, a pecuária.

Aliás, o geógrafo nos lembra de algo que nem todos os brasileiros sabem: “A pecuária, muitas vezes, é mero pretexto para grilagem de terras.” Explica-se: o ciclo do desmatamento muitas vezes segue padrões bem definidos. Primeiro, abre-se estradas ou caminhos rudimentares. Em seguida, rouba-se a madeira de áreas naturais até então intactas. E, pouco tempo depois, são instalados sinais de ocupação fundiária – cercas, demarcações improvisadas ou placas. “Enfim, alguém coloca meia dúzia de cabeças de gado naquele terreno apenas para justificar que aquela terra é ‘produtiva’”, lamenta Maretti.

É esse o processo de grilagem que permite aos proprietários reivindicar a posse daquela terra, consumando assim o desmatamento na região.

E os empreendimentos hidrelétricos? “Barrar um rio e transformá-lo em lago é equivalente a desmatar uma floresta e transformá-la em campo”, analisa o geógrafo. Os impactos sobre a biodiversidade são muito severos. “A destruição dos ecossistemas está ameaçando a sua biodiversidade. Não podemos permitir que ela seja perdida para sempre ou deixar de conhecê-la.”

Não te esqueças do novo Código Florestal

“Devemos reconhecer que, nos últimos vinte anos, os governos federal e estaduais têm dado passos importantes para o monitoramento, a fiscalização e o controle do desmatamento”, pondera Maretti. Ele teme, no entanto, que a percepção em torno do novo Código Florestal tenha fomentado um sorrateiro ímpeto de desmatamento.

“Durante a discussão do projeto, foram relatadas coisas do tipo ‘vou desmatar antes da aprovação da nova lei, pois assim posso ainda ser perdoado’”, comenta o geógrafo. “O sentimento de impunidade incentiva o desmatamento e é muito pior do que as próprias inconsistências do novo código.”

O clima ainda é de preocupação para os que preferem a floresta em pé do que arrasada. “À época da discussão do Código Florestal, havia rumores de que o desmatamento voltaria a aumentar.”

E não deu outra. Como reporta o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia brasileira aumentou 28% no último ano. A devastação foi liderada pelo Pará (que desmatou 37% a mais) e pelo Mato Grosso (que destruiu 50% a mais do que no ano anterior).

Veja abaixo um mapa interativo com imagens de satélite e dados recentes sobre desmatamento na Amazônia

“A atividade econômica na Amazônia precisa crescer”, enfatiza o geógrafo. “Mas não com base em depredação; e sim a partir dos valiosos recursos naturais da inigualável biodiversidade desse bioma.” Muitos reconhecem – e nisso destacam-se as críticas demolidoras do economista Ladislau Dowbor, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) – que já é possível, sim, produzir mais commodities (bens primários como soja, milho, algodão, produtos brutos em geral) sem derrubar uma árvore sequer. Basta aproveitarmos as tecnologias de recuperação de áreas degradadas.

“É necessário que se mantenha o equilíbrio ecológico da Amazônia”, defende Maretti. “Cada vez que descobrimos uma espécie, por exemplo, novas tecnologias de fármacos podem ser vislumbradas.” Afinal, biodiversidade tem tudo a ver com um dos setores econômicos mais promissores para a indústria do amanhã: a biotecnologia. A reflexão é das mais pertinentes – ao menos se não quisermos perder o bonde da história, que, ao que tudo indica, é a economia do conhecimento.

Confira imagens de outras espécies amazônicas descobertas recentemente

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
O levantamento feito pela WWF se restringiu a novas espécies de animais vertebrados e plantas. (26/11/2013)

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.

Matéria publicada em 21.11.2013

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