John Maynard Smith, o evolucionista voador

 

     

John Maynard Smith (1920-2004) — Maynard Smith ou simplesmente JMS –, um dos gigantes da biologia evolutiva do século 20, morreu no último dia 19 de abril, em sua casa, na Inglaterra, vítima de complicações decorrentes de um câncer no pulmão. Umas duas décadas antes, ele já havia enfrentado um outro câncer, no cólon. (Talvez por causa disso, ouvi de um colega, às vésperas da Eco-92, a ‘notícia’ de que Maynard Smith havia morrido por aqueles dias de câncer no estômago. Foi um choque e custei a descobrir que era uma notícia destrambelhada.) JMS deixou viúva, filhos e netos.

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JMS escreveu obras que se tornaram referência para pesquisadores das mais diversas áreas (foto: Universidade de Sussex)

Maynard Smith publicou seu primeiro artigo científico em 1952, quando já tinha mais de 30 anos (o estudo, publicado na revista Evolution , avaliava a importância do sistema nervoso na evolução do vôo animal). Pode parecer uma idade tardia, principalmente para quem logo se revelaria tão talentoso e produtivo, mas é preciso mencionar aqui um detalhe biográfico curioso: ele começou sua vida profissional como engenheiro, chegando a trabalhar no desenho de aeronaves para a Força Aérea britânica, durante a Segunda Guerra Mundial (isso talvez explique os temas aeronáuticos dos seus primeiros artigos). Em 1947, voltou para a universidade, trabalhando então sob a orientação de J. B. S. Haldane (1892-1964); curiosamente, porém, nunca concluiu formalmente um doutorado.

O legado deixado agora por Maynard Smith inclui dezenas de livros e capítulos de livros, além de inúmeros artigos técnico-científicos e de divulgação. Muitas de suas obras tornaram-se referências-chave para estudantes e outros pesquisadores. Além do legado estritamente científico, porém, Maynard Smith deixa saudades e lições de vida, tanto entre aqueles que aprenderam a admirá-lo à distância como principalmente entre os que o conheceram mais de perto.

Um exemplo dessa admiração pode ser visto no texto em memória de JMS publicado na revista Science de 14 de maio por Richard Lewontin, um outro craque da biologia evolutiva. Segundo Lewontin, “John Maynard Smith era um indivíduo humano, jocoso e sensível que não levava as pessoas (inclusive ele próprio) mais a sério do que elas mereciam. Ele tinha uma visão sensivelmente cética da ciência e de suas reivindicações, que é melhor sintetizada no famoso dito de seu professor, J. B. S. Haldane, que disse que uma idéia científica deve ser interessante mesmo se não for verdadeira.”

Agraciado com diversos prêmios e medalhas ao longo da vida, o reconhecimento ao seu trabalho já estava, no entanto, em outro patamar: ele próprio emprestava o nome a um prêmio, o John Maynard Smith Prize, oferecido a cada dois anos, desde 1997, pela Sociedade Européia para a Biologia Evolutiva.

Em meados da década de 1980, coincidindo com a época de sua aposentadoria (entre 1965 e 1985, ele lecionou na Escola de Ciências Biológicas, da Universidade de Sussex, da qual foi um dos fundadores, em 1962), um grupo de quase 30 colegas, muitos dos quais já eram autores consagrados em suas respectivas disciplinas, colaboraram na elaboração de um livro em sua homenagem, Evolution: essays in honour of John Maynard Smith (1985, Cambridge University Press).

O objetivo da obra era fazer um apanhado geral de algumas áreas de pesquisa que tivessem sido influenciadas pelas idéias e pelo trabalho de Maynard Smith. Os 20 capítulos do livro formam um verdadeiro mosaico temático, abordando questões que vão da genética de populações teórica aos rituais de corte entre animais, passando pelo estudo da especiação simpátrica, a dispersão e a germinação de sementes e o cuidado parental. Em um meio tão competitivo como a arena científica, não são muitos os cientistas ativos (depois de aposentado, JMS continuou trabalhando) que recebem de seus pares um tipo de tributo como esse.

Felipe A. P. L. Costa
Especial para a CH On-line
28/06/04

O autor é biólogo e autor do livro Ecologia, evolução & o valor das
pequenas coisas (2003) — clique para ler uma resenha do livro

 

 

Matéria publicada em 28.06.2004

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