18 janeiro 2010

Tabu a ser encarado sem medo

Associação Brasileira de Psiquiatria lança campanha informativa para prevenir casos e tentativas de suicídio. De acordo com a entidade, o problema é mais grave do que fazem supor os dados estatísticos.

‘O suicida’, tela do pintor francês Édouard Manet (1832-1883).

A cada dia, 24 pessoas, em média, cometem suicídio no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Em escala mundial, o país fica em nono lugar, à frente das demais nações latino-americanas. Comparado com a população brasileira (cerca de 180 milhões de habitantes), o número de casos talvez não impressione tanto. Mas é preciso considerar que muitos casos são erroneamente registrados como acidentes, já que nem sempre a motivação por trás do ato fica clara após as investigações. Assim, o fenômeno é mais sério do que as estatísticas mostram.

Inúmeros casos de suicídio poderiam ser evitados se houvesse informação suficiente disponível

Inúmeros casos poderiam ser evitados se houvesse informação suficiente disponível. "Embora as causas nem sempre sejam facilmente identificáveis, muitas vezes é possível detectar comportamentos que poderiam culminar em suicídio e encaminhar a pessoa para tratamento adequado", diz o psiquiatra José Manoel Bertolote, membro da Comissão de Suicidiologia da ABP. Com a finalidade de divulgar informações sobre o tema, a ABP lançou recentemente a campanha Suicídio: conhecer para prevenir.

A iniciativa foi criada a partir de estudos da Comissão de Suicidiologia da ABP e irá disponibilizar três materiais sobre a questão: uma cartilha à imprensa (sobre como lidar com a cobertura de casos de suicídios e de tentativas de suicídio); um panfleto informativo sobre distúrbios mentais, destinado ao público em geral; e um vídeo educativo. Os dois últimos itens ainda estão em fase de produção.

A cartilha já está disponível na página da Associação e toca em um aspecto bastante específico do problema: a divulgação de suicídios na imprensa. A recomendação é de que o jornalista seja cauteloso e tenha responsabilidade na divulgação de casos de suicídio nos meios de comunicação. “Como muitas vezes a tentativa de suicídio é um pedido de socorro, dar publicidade ao fato pode motivar outras pessoas a fazer o mesmo”, ressalta o psiquiatra, que também é professor do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Unesp (campus Botucatu).

Tema que pede cautela

Dois tipos de fatores estão envolvidos em uma tentativa de suicídio: os predisponentes e os precipitantes. O primeiro tipo engloba fatores que tornam uma pessoa suscetível ao impulso de provocar a própria morte. Podem estar na genética, no psiquismo do indivíduo, no ambiente familiar, no círculo de convivências e até mesmo na fé. Já os fatores precipitantes são aqueles que motivam o ato, a “gota d’água”. As razões variam, desde o fim de um relacionamento amoroso até a perda de emprego. Em guerras, há quem prefira tirar a própria vida a morrer pelas mãos do exército inimigo (ver ‘O suicídio na história’).

Segundo a OMS, cerca de 40% dos que apresentam comportamento suicida têm depressão

Entre os fatores predisponentes, um dos mais comuns é a depressão. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 40% dos que apresentam comportamento suicida têm a doença. Além da depressão, a esquizofrenia (“mente cindida”, em grego, uma dissociação entre o sentimento e a atitude do indivíduo) e o alcoolismo figuram entre os principais males capazes de levar ao gesto extremo.

“A explicação nunca é simples”, avalia Bertolote. Por isso, segundo ele, quanto mais informações forem postas à disposição da sociedade, maiores as chances de se evitarem novos casos de suicídio. Além disso, a divulgação dessas informações pode ajudar a quebrar o tabu gerado em torno do suicídio e evitar que o tema seja tratado com leviandade na mídia.

Em 1999, a OMS lançou o programa Suicide Prevention (‘prevenção do suicídio’), uma iniciativa global que disponibiliza estatísticas e informações sobre o tema, além de diretrizes recomendadas para todos os países. Entre elas, estão restringir o acesso a substâncias tóxicas e armas de fogo, e melhorar a oferta de serviços de atendimento à saúde. “Infelizmente muitos países, embora sigam as diretrizes, ainda consideram o suicídio um crime, o que dificulta o combate ao tabu”, diz o psiquiatra.

 

O suicídio na história

Embora o suicídio tenha um ar de ‘problema dos tempos modernos’, há registros de casos na história antiga. Acredita-se, por exemplo, que a rainha Cleópatra (65 a.C.- 30 a.C.) tenha tirado a própria vida pouco antes da queda do Egito em um ataque do exército romano. Conta-se também a história do suicídio em massa ocorrido em Massada (região que fica a leste de Israel): em 73 d.C., escravos judeus se rebelaram contra Roma em um forte em Massada. Ao se verem cercados, optaram pelo suicídio, para não morrer pelas mãos do inimigo. Estima-se que cerca de mil pessoas tenham participado do suicídio em massa. “Nem sempre se trata de casos clínicos. Às vezes, existe uma motivação religiosa por trás da prática suicida”, aponta Bertolote. “Os mártires, ao abrir mão da própria vida em nome da fé, de certa forma cometiam uma espécie de suicídio. Essa ideia, porém, não é bem aceita, já que boa parte das religiões condena a prática.”

Errata (21/01/10): Ao contrário do que informava a versão inicialmente publicada neste quadro, não há qualquer referência na Bíblia ao suicídio em massa ocorrido em Massada.

 

Guilherme de Souza
Especial para a CH On-line / PR

Tags:
COMPARTILHAR