19 agosto 2010

Nocaute alcoólico

Mutação genética identificada em camundongos hipersensíveis ao álcool pode estar ligada à propensão ao consumo da substância. A descoberta pode oferecer uma pista para entender as complexas raízes genéticas do alcoolismo.

Garrafas de cerveja: o impulso para consumir álcool foi medido em camundongos com o gene mutante. Entre água e álcool, eles optaram mais vezes por bebidas etílicas que os animais normais (foto: Cathy Snider).

A mutação foi descoberta por acaso. Pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) buscavam, na verdade, sinais de hiperatividade em animais. Depois de induzir milhares de mutações aleatórias em camundongos, descobriram um provável gene pelo qual essa característica era transmitida de uma geração para outra.

Descobriram mais: em estudos anteriores, a mutação do gene em questão havia sido associada a uma hipersensibilidade para álcool e anestésicos em vermes da espécie Caenorhabditis elegans – um conhecido animal modelo para estudos genéticos. Foi a deixa para verificar como o álcool agiria sobre os camundongos.

Os indivíduos mutantes revelaram uma hipersensibilidade aguda ao álcool e preferiram a bebida à água com maior frequência que os demais

Ao receberem injeções de álcool no estômago, os indivíduos mutantes revelaram uma hipersensibilidade aguda à substância. Ficaram sedados por mais tempo que os demais.

Quando tiveram a opção de beber álcool ou água, também optaram pelo primeiro com maior frequência que os outros.

“Os camundongos mutantes voluntariamente consumiram mais álcool do que os normais”, conta o líder da pesquisa, David Speca, à CH On-line.

“Esses são testes iniciais comuns usados por pesquisadores para medir a propensão ao consumo do álcool. Mas muitos outros testes terão que ser realizados para mostrar que este é um gene que traz suscetibilidade para o alcoolismo”, esclarece ele, pesquisador do Departamento de Neurologia e da Clínica e Centro de Pesquisa Ernest Gallo, da Universidade da Califórnia em São Francisco.

No estudo, publicado este mês na PLoS Genetics, a mutação foi batizada de Lightweight – termo inglês que designa tanto a categoria ‘peso leve’, de lutas como o boxe, quanto a intolerância de certos indivíduos ao álcool.

A substância de fato surtiu o efeito equivalente ao de um nocaute sobre os animais mutantes. "Eles apagaram por muito mais tempo que os camundongos normais”, compara Speca.

Alcoolismo com poucas respostas

O alcoolismo responde por 4% dos problemas da saúde mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Fatores ambientais, culturais e psicológicos certamente têm papel importante para desencadear o transtorno, mas pesquisas indicam que ele tem também um forte componente genético.

Speca e equipe citam como exemplo estudos feitos com gêmeos, filhos adotivos e famílias que demonstram o fator genético por trás do alcoolismo. Mas destacam a dificuldade de se identificar fatores de suscetibilidade, sendo muito provável que múltiplos genes de pequeno efeito contribuam para a doença.

A mutação descoberta pela equipe poderia ser um dos fatores nessa intrincada equação. “Os camundongos ‘peso leve’ podem proporcionar um novo vislumbre no mecanismo de ação do álcool, e estudos desse gene em humanos podem levar a um melhor entendimento do alcoolismo e seu tratamento”, afirma o artigo. 

Estudos deste gene em humanos podem levar a um melhor entendimento do alcoolismo e seu tratamento

Segundo Speca, o gene em questão – o unc-79, como é chamada a sua versão no Caenorhabditis elegans – nunca foi estudado nos humanos. Nesses vermes, a hipersensibilidade a álcool e anestésicos foi observada com mutações também em um segundo gene, o unc-80.

Além disso, pesquisas anteriores indicaram que a proteína expressa pelo unc-79 – cuja função é pouco conhecida – poderia interagir com um canal iônico (NALCN) de modo a influenciar as respostas neurológicas ao álcool. A hipótese ainda depende de mais estudos para ser comprovada, mas tal fenômeno “poderia ser conservado de vermes para camundongos para humanos”.

O estudo sugere que esses três fatores funcionam em um mesmo caminho bioquímico. “Esperamos que isso leve outros pesquisadores a analisarem os genes unc-79, unc-80 e NALCN em outros organismos, como candidatos em potencial na relação com transtornos associados a álcool”, diz Speca.

“Considerando-se que vemos reações alteradas a anestésicos e álcool em vermes, drosófilas e camundongos, não seria de se estranhar que o mesmo também ocorresse em humanos.”


Júlia Dias Carneiro
Ciência Hoje On-line

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