12 dezembro 2011

Saúde em longo prazo

Pesquisadores da área reconhecem importância de estudos populacionais de qualidade realizados no Brasil, mas defendem iniciativas mais abrangentes e extensas para investigar o desenvolvimento de doenças crônicas no país.

Estudos longitudinais, que acompanham grupos durante longos períodos para avaliar as alterações em suas condições de saúde, são fundamentais para compreender as doenças crônicas. (fotos: Yoshimai/ Flickr – CC BY-SA 2.0 | Flickr/ dok1 – CC BY 2.0)

Nas últimas décadas, o Brasil tem se destacado na América Latina quando o assunto é estudo populacional, em especial com pesquisas que avaliam as condições de saúde de certas populações em momentos pontuais. 

No entanto, para enfrentar as doenças crônico-degenerativas e genéticas que atingem cada vez mais o país, precisa-se de estudos longitudinais que monitorem populações por anos, ajudando a entender o desenvolvimento dessas doenças e possibilitando ações preventivas. 

Esta é a opinião de pesquisadores que participaram da mesa ‘Ciências da Saúde’, em seminário sobre avanços e perspectivas da ciência promovido pela Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, no início do mês.

Muitos dos estudos populacionais realizados no Brasil têm se debruçado sobre aspectos comportamentais, ambientais, genéticos e clínicos de diversas doenças, com resultados importantes. O país chegou a ser tema de edição especial da revista The Lancet, com destaque para esse tipo de pesquisa.    

O Brasil já conta com fontes confiáveis de dados sobre indicadores de saúde, mas faltam estudos mais extensos e abrangentes

Uma das participantes do evento, a epidemiologista Maria Inês Schimdt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirma que o Brasil já conta com inquéritos populacionais de qualidade e possui fontes confiáveis de dados sobre indicadores gerais de saúde, como mortalidade, hospitalização e atendimento ambulatorial. Faltam, justamente, estudos mais extensos e abrangentes. 

Para o médico José Krieger, da Universidade de São Paulo, também presente à mesa, estudos desse tipo permitirão identificar e avaliar a influência dos múltiplos fatores de riscos associados às doenças crônicas e determinar indicadores para intervenção preventiva. “É preciso evitar a formação de quadros clínicos graves, quando só restam medidas paliativas, mais caras e complexas”, defendeu. “É impossível incluir todos no sistema de saúde dessa maneira.”

‘Filmes’ em produção

Os pesquisadores destacaram alguns estudos longitudinais em curso no Brasil e avaliaram suas potenciais contribuições para a saúde. Um deles é o ‘Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto’ (Elsa), iniciativa interinstitucional que acompanhará cerca de 15 mil pessoas para investigar a incidência e os fatores de risco associados às doenças crônicas. 

Os operários, de Tarsila do Amaral
O Brasil tem grande tradição em estudos populacionais. Conhecer as características e as condições de vida da população é fundamental para definir políticas públicas. (reprodução do quadro 'Os operários', de Tarsila do Amaral)

“Queremos gerar conhecimento científico que sirva de base para novas políticas públicas, hoje referenciadas em dados do hemisfério norte”, avaliou Schmidt, que coordena o estudo. 

Outra iniciativa de longo prazo, apresentada pelo epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, acompanha a saúde de todos os nascidos na cidade nos anos de 1982, 1993 e 2004. Apesar da relevância dos dados gerados, a pesquisa enfrenta dificuldade na obtenção de recursos para iniciar um novo grupo em 2015. 

Por essas e outras, Hallal defende a necessidade de se repensar os modelos de financiamentos adotados no Brasil, que se baseiam em períodos relativamente curtos. “Precisamos de estudos que ultrapassem 24 meses, verbas que nos permitam fazer ‘filmes’ e não só tirar ‘fotos’ da saúde brasileira”, afirmou.  

“Precisamos de estudos que ultrapassem 24 meses, verbas que nos permitam fazer ‘filmes’ e não só tirar ‘fotos’ da saúde brasileira”

Segundo o pesquisador, a comparação de fotografias da saúde do Brasil tirada hoje e há 50 anos mostra uma mudança da prevalência de doenças infectocontagiosas para crônico-degenerativas. Segundo dados do Ministério da Saúde, essas últimas – entre elas diabetes, obesidade, câncer e doenças cardiovasculares e neurológicas – são responsáveis por 72% das mortes no país.

Nesse contexto, os estudos longitudinais também são importantes para o aprimoramento das políticas públicas na área. “Precisamos de uma reengenharia para desenvolver a capacidade de antecipar-nos às doenças a partir dos dados que esses estudos nos trarão”, conclui Kreiger.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

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