05 janeiro 2012

Macacos me vacinem!

Testes clínicos com vacinas genéticas contra hepatite C e malária, baseadas em vírus de chimpanzés, mostram resultados promissores no estímulo do sistema imune. A abordagem pode ser a chave para novos imunizantes contra diversas doenças.

Pesquisadores italianos e britânicos mostram que é possível utilizar vírus de macacos para desenvolver vacinas genéticas contra doenças humanas, como Aids, hepatite C, malária, tuberculose, ebola e câncer. (foto: Flickr/ fwooper – CC BY 2.0)

Na ciência, vírus de macacos costumam ganhar destaque apenas quando se tornam grandes ameaças para a saúde do homem. Porém, em um tipo especial deles, os adenovírus, pode estar a chave para o desenvolvimento da primeira vacina do mundo contra a hepatite C e de imunizantes genéticos contra diversas outras doenças. É o que indicam dois estudos publicados na revista Science Translational Medicine esta semana. 

Um dos estudos analisou o potencial de diversos adenovírus de humanos e de chimpanzés como vetores vacinais, na busca por alternativas para superar as limitações impostas pelo sistema imune do homem à utilização de vacinas genéticas. No outro, foram descritos testes clínicos de fase 1, realizados com dois vetores vacinais derivados de vírus de chimpanzés. Os resultados promissores mostraram a indução de uma intensa resposta imune contra malária e hepatite C, com grande produção de células de defesa e de uma memória imunológica duradoura.

Vacinas genéticas e os adenovírus

Nos últimos anos, a ciência tem estudado a utilização de vacinas genéticas contra diversas doenças. Diferentemente dos imunizantes tradicionais, baseados em anticorpos, elas utilizam adenovírus, geralmente associados a infecções respiratórias, inativados e modificados para servirem como vetores vacinais, carregando pedaços de DNA de outros patógenos, com o objetivo de estimular a resposta imune celular. 

“A ideia é aumentar a produção das células T, responsáveis pelas defesas celulares e fundamentais no combate a doenças como Aids, hepatite C e câncer”, explica o imunologista Paul Klenerman, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e um dos responsáveis pelos estudos.

Adenovírus
Os adenovírus estão entre os melhores candidatos a vetores vacinais, por poderem receber inserções maiores de DNA e serem bem estabelecidos em termos de segurança e proteção. (imagem: Flickr/ AJC1 – CC BY-NC-SA 2.0)

Em modelos animais, vetores vacinais baseados nos sorotipos cinco e seis do adenovírus humano (Ad5 e Ad6) já foram capazes de induzir respostas imunes eficientes contra diversas enfermidades. Porém, por se tratarem de sorotipos muito comuns, uma grande parcela da população já possui anticorpos capazes de neutralizá-los, interferindo na sua capacidade de imunização – o que ajuda a explicar os maus resultados em humanos de um promissor candidato à vacina desse tipo contra o HIV.

Raridades e macacos como alternativa

Como alternativa para superar essa limitação, um dos estudos procurou avaliar a utilização de sorotipos mais raros de adenovírus humanos como base para novos vetores vacinais. “Por serem pouco comuns, pensamos que o organismo apresentaria menor capacidade de neutralizá-los com rapidez, mas observamos que eles são muito menos potentes como vetores vacinais do que o Ad5 e o Ad6”, afirma o imunologista italiano Alfredo Nicosia, da empresa biofarmacêutica italiana Okairos e co-autor da pesquisa. 

O empecilho representado pelo sistema imunológico humano fez, então, os pesquisadores voltarem sua atenção para os macacos. “Como vivemos separados, os adenovírus circulantes nas populações humanas, apesar de semelhantes, não são os mesmos que circulam nas populações de símios”, explica Nicosia.

Os adenovírus circulantes nas populações de macacos são semelhantes aos humanos e podem ser boas alternativas como vetores vacinais 

Os grupos envolvidos na pesquisa analisaram cepas de adenovirus de chimpanzés (ChAd) coletadas de cerca de mil amostras biológicas de macacos. A partir delas, foram gerados vetores vacinais contra diferentes antígenos, como os vírus da hepatite C e da Aids, avaliados em testes de potência imunológica com modelos animais. 

Dois deles foram escolhidos para realização de testes clínicos com humanos: o ChAd63, utilizado contra a malária, e o ChAd3, aplicado em testes contra a hepatite C.

Vacina genética contra hepatite C

O ensaio com o ChAd3 foi o tema do outro artigo publicado na revista, no qual os autores comparam o desempenho do vetor vacinal com o de outro, baseado no Ad6. “A comparação teve como objetivo avaliar a segurança do vetor derivado do vírus do macaco e sua capacidade de induzir uma resposta imunológica adequada, que acabou sendo muito similar à da variante humana”, conta o italiano.

Esse novo conjunto de vetores, capazes de estimular respostas imunológicas intensas, pode ser fundamental no combate a muitas doenças 

Os resultados dos testes com animais e dos ensaios clínicos indicaram uma grande capacidade dos vetores de estimular o sistema imunológico. “Obtivemos altas taxas de imunização e, em especial, de produção de células T citotóxicas ou CD8+, capazes de reconhecer e eliminar células infectadas”, diz Nicosia. “Os resultados obtidos também mostraram que muitos vetores vacinais tiveram boa aceitação no organismo e foram capazes de induzir uma memória imunológica duradoura.”

Para Klenerman, os resultados abrem novas possibilidades na luta contra as doenças infecciosas e até contra o câncer. “Esse novo conjunto de vetores, capazes de estimular respostas imunológicas tão intensas, pode ser fundamental para a resolução de muitos desafios da saúde pública”, avalia o imunologista inglês. 

Os próximos passos das pesquisas envolvem avaliar o uso da abordagem no tratamento de pessoas infectadas pela hepatite C e realizar estudos com grupos de risco para avaliar a capacidade protetora do imunizante.


Marcelo Garcia

Ciência Hoje On-line

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