20 março 2012

Vírus contra a dengue?

Capaz de diminuir o número de partículas virais da dengue em células de mosquito, vírus descoberto por pesquisadores de Estados Unidos e Brasil pode ajudar a entender como funciona o ciclo evolutivo da doença.

Ao infectar células do mosquito transmissor da dengue, o novo vírus diminui as partículas virais que causam a doença. A descoberta pode ajudar a entender como funcionam os mecanismos envolvidos no ciclo da infecção humana. (imagem: Ricardo Vancini/ JVI)

A descoberta aconteceu por acaso. Na tentativa de saber mais sobre a dengue, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) enviaram uma amostra contendo o vírus causador da dengue tipo 2 (DEN-2) para a Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, onde o biólogo brasileiro Ricardo Vancini faz seu PhD. Após análise em microscopia eletrônica, a atenção da equipe se voltou para a presença de um vírus nunca antes descrito e que pode elucidar questões importantes sobre o ciclo evolutivo da doença.

Capa do 'Journal of Virology'“Inicialmente, pensamos que era uma nova cepa do vírus da dengue, mas logo percebemos que sua morfologia era muito diferente do DEN-2”, diz Davis Ferreira, virologista do Instituto de Microbiologia da UFRJ e um dos autores do estudo que ganhou a capa da edição de março do Journal of Virology.

Além de ser estruturalmente distante do vírus da dengue, a caracterização do genoma do Espírito Santo Vírus (ESV) – homenagem ao estado de origem da amostra em que foi encontrado – confirmou a presença de um exemplar nunca antes descrito. Aparentemente, seu material genético apresenta organização similar à da família dos birnavírus, a qual abriga uma espécie que infecta moscas do gênero Drosophila.

Para entender os mecanismos de infecção do novo vírus, os cientistas inocularam partículas do ESV em cultura de células da larva do Aedes albopictus, mosquito que, assim como com seu parente mais conhecido Aedes aegypti, transmite a dengue. O ESV, da mesma forma que o DEN-2, mostrou-se capaz de infectar as células do inseto e esse experimento originou um dos pontos cruciais da pesquisa: a relação direta do ESV com o vírus da dengue tipo 2.

Expectativas e preocupações

Durante a infecção das células, os pesquisadores perceberam que o ESV possui maior sucesso na sua replicação quando invade células infectadas pelo DEN-2. Quando já está usufruindo dos mecanismos celulares para se multiplicar, o ESV impede a montagem das partículas de DEN-2, diminuindo a quantidade desse vírus dentro da célula. 

A descoberta de um vírus que elimina a dengue ainda dentro do vetor pode se tornar uma grande aliada da ciência

Como o controle do mosquito transmissor da dengue tem se tornado cada vez mais difícil em função de sua resistência a diversos inseticidas, a descoberta de um vírus que elimina a dengue ainda dentro do vetor pode se tornar uma grande aliada da ciência.

No entanto, muitas questões ainda rondam a descoberta, pois não se sabe se o ESV pode ser responsável por algum dos sintomas atribuídos ao vírus da dengue durante a infecção. Por isso, é importante entender como o ESV e o vírus da dengue interagem.

Segundo Ferreira, a melhor compreensão dessa interação pode ajudar também nos estudos da febre amarela, já que os mosquitos A. aegypti e A. albopictus também são vetores do vírus causador da doença. 

vírus da Vírus da dengue e o Espírito Santo Vírus
A microscopia eletrônica permite identificar as diferenças entre o vírus da dengue (à esq.) e o Espírito Santo Vírus (à dir.). Apesar de ambos apresentarem geometria semelhante a uma bola de futebol, o ESV é mais estável e sua estrutura é mais visível que a do vírus da dengue. (imagem: Ricardo Vancini)

Por outro lado, o estudo gerou preocupações e perguntas cujas respostas já estão sendo pesquisadas. Após encontrar o Espírito Santo Vírus, os cientistas questionaram a possível presença de outros vírus em amostras que, teoricamente, só continham o da dengue. “Esse tipo de coinfecção pode dificultar o estudo de proteínas para a criação de vacinas contra a doença, além de prejudicar a interpretação do diagnóstico”, explica Ferreira.

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line

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