08 julho 2013

O cérebro, o ‘eu’ e a sociedade

Em viagem ao Brasil, neurocientista português António Damásio aborda relações entre emoções, sentimentos e a construção de nossa vida social e política, além de comentar ‘explosão emocional’ vivida no país.

Para Damásio, existe grande relação entre o cérebro e a sociedade que construímos. O uso das redes sociais nas explosões emocionais que tomaram as ruas do Brasil trouxe, a seu ver, algo de muito novo para o movimento. (imagens: Wikimedia Commons)

Há mais de 30 anos sem visitar o Brasil, o neurocientista português António Damásio se deixou levar pela saudade. Conhecido por seu trabalho que busca construir as pontes entre a neurociência e o estudo das emoções e dos sentimentos humanos, Damásio veio ao país para cumprir uma agenda com diversos encontros. Na última segunda-feira (01/07), apresentou palestra na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, na qual, além de discutir seus trabalhos mais recentes, avaliou o momento político conturbado pelo qual passa o Brasil, a partir das bases da neurociência. 

Segundo o português, existe grande inter-relação entre o cérebro e a sociedade que construímos. Para ele, nossa consciência se molda a partir do ambiente, mas a pessoa social também é determinada pela biologia e por fenômenos que podem ser estudados pela neurobiologia, como as emoções. “É possível abordar temas como religião, justiça e política a partir da neurociência”, afirmou Damásio. “Não há nada de pouco respeitável nisso; apesar de sermos em grande parte biologia, não somos só biologia, mas também frutos da civilização, o que cria espaço para a individualização.”

“Se as situações de sofrimento não chegam a ser novas, a comunicação em rede dá um caráter muito diferente às mobilizações, temos algo de muito novo em tudo isso”

Para o neurocientista, as manifestações no país têm relação com a ruptura de ‘valores sagrados’ instituídos ao longo do tempo nessa estrutura biológica e social, como saúde e respeito pela verdade. “Quando um grupo razoável de pessoas considera que há falta de cuidado com essas questões, podem surgir reações emocionais como as que vemos nas ruas, muitas vezes violentas”, avaliou. 

Ele destaca a espontaneidade do movimento e a importância das redes digitais nesse processo. “Se as situações de sofrimento não chegam a ser novas, a comunicação em rede dá um caráter muito diferente às mobilizações, temos algo de muito novo em tudo isso”, avaliou. “No caso dos protestos do Brasil, há, sim, alguma relação com questões globais, mas as circunstâncias brasileiras também são muito particulares.” 

Linguagem, emoções e complexidade

Na avaliação de Damásio, o estudo da neurociência começou ao revés, a partir da linguagem, uma capacidade surgida numa etapa avançada da evolução. Seu trabalho procura mapear processos cerebrais mais básicos: sentimentos e emoções. Para ele, as emoções – como nojo, medo, alegria, orgulho e admiração – são ‘exteriores’, lidas com facilidade e ligadas a programas de ação preestabelecidos, embora complexos; já os sentimentos têm maior grau de sofisticação biológica e ligação com o que ocorre no interior do corpo.

Conectoma
O estudo da transmissão dos impulsos elétricos e da estrutura do cérebro humano pode dar pistas importantes sobre as origens dos sentimentos e emoções. Sua base, segundo Damásio, está em níveis mais 'simples' do que poderíamos imaginar. (imagem: Wikimedia Commons)

“As emoções são programadas pela educação que recebemos e pela biologia, tanto que podemos encontrar precursores em outros seres com vida social, embora sem a mesma complexidade”, explicou Damásio. “Já os sentimentos permitem, por exemplo, aprender e prever situações vantajosas, fundamental para a capacidade de planejar, além de abrir as portas da imaginação, do conhecimento, da consciência e de uma cultura complexa.”

As emoções são programadas pela educação e pela biologia, tanto que podemos encontrar precursores em outros seres com vida social. Já os sentimentos abrem as portas da imaginação, da consciência e de uma cultura complexa

Em seu laboratório na Universidade do Sul da Califórnia, o português realiza trabalhos experimentais sobre neurociência cognitiva, em especial estudos na interface entre neurologia, fisiologia e psicologia. "Empregamos, por exemplo, mapeamentos de ressonância magnética e técnicas de eletrofisiologia, que avaliam a atividade elétrica cerebral, em seres humanos normais ou com lesões cerebrais, para testar uma larga gama de tópicos", explicou Damásio. "Também usamos métodos de neurobiologia celular e molecular para estudar a base celular dos sentimentos."

Seus estudos têm mostrado, por exemplo, que, embora o córtex cerebral (parte mais ‘complexa’ do órgão) seja a menina dos olhos da neurociência, a origem dos sentimentos pode estar em níveis mais ‘básicos’ – como destaca em seu último livro, de 2012. “Em pacientes que perderam partes específicas do cérebro, os sentimentos persistem, prova de que o córtex não é a base neural deles”, avaliou. “O ‘eu’ nasce em uma região mais primitiva, o tronco cerebral, que regula funções como frequência cardíaca e pressão arterial.” Para o português, no entanto, o córtex continua fundamental por ser a base para aspectos como raciocínio, o conhecimento e a memória. 

Sobre nós e os outros

Segundo Damásio, um maior conhecimento das bases biológicas de emoções e sentimentos pode ter um enorme impacto na saúde pública. “A neurociência dos sentimentos e emoções pode vir a responder muitas das incógnitas que rodeiam os vícios, a depressão e outras síndromes psiquiátricas no que diz respeito às suas causas e contribuir para criar novos tratamentos e medicações”, avaliou. 

Cachorro
Para Damásio, é muito improvável que os animais não tenham consciência, mas, na sua avaliação, ela não deve ser tão complexa como a nossa. (foto: Flickr/ rAmmoRRison – CC BY-NC 2.0)

Além disso, suas pesquisas podem ajudar a conhecer melhor os animais. Por exemplo, como o tronco cerebral é uma estrutura que compartilhamos com muitos deles, o neurocientista defende que o homem não é o único ser vivo com acesso aos sentimentos. “Nos níveis mais baixos, a emoção marca um início de consciência; já no nível mais alto, existe um ‘eu’ autobiográfico na mente, complexo, capaz de pensar sobre si e de criar uma linguagem elaborada”, explica. “Acho altamente improvável que os animais não tenham consciência, mas ela não deve ser tão complexa como a nossa.”


Marcelo Garcia

Ciência Hoje On-line

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