30 setembro 2013

BRICS: a geopolítica de um mundo novo

Em entrevista à CH On-line, o antropólogo Gustavo Lins Ribeiro, presidente da Anpocs, fala sobre as relações políticas e econômicas dos países que compõem esse bloco emergente – do qual o Brasil faz parte – e o lugar das ciências humanas no mundo do conhecimento e da cooperação científica internacional.

O BRICS é um bloco que reúne os maiores mercados emergentes do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. (imagem: João Felipe C.S/ Wikimedia Commons)

Foi um almoço de quinta-feira. Naquele recanto aprazível e interiorano que é Águas de Lindoia (SP), a CH On-line deu sorte ao se sentar à mesa com Gustavo Lins Ribeiro, antropólogo da Universidade de Brasília (UnB). Foi durante o 37º encontro anual da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), da qual Ribeiro é atual presidente. No cardápio do papo, um prato quase indigesto: as relações geopolíticas entre os países que integram o BRICS – acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os maiores mercados emergentes do mundo. O tema foi um dos destaques da reunião deste ano da Anpocs.

Entre garfada e outra, Ribeiro discorreu com tranquilidade sobre os desafios políticos e tensões econômicas que, neste início de século, desenham-se no horizonte dessas nações. O antropólogo aproveitou a deixa para opinar sobre a tão propalada dicotomia entre crescimento econômico e desenvolvimento. E indagou: “O que é o capitalismo senão uma máquina de produzir desigualdades?”. A sobremesa, enfim, não poderia ser outra: uma interessante reflexão sobre cooperação científica internacional. O que esperar de uma cooperação nas ciências humanas? Ribeiro arriscou uma explicação tão estilosa quanto instigante.

Gustavo Lins RibeiroCH On-line: É correto dizer que o mundo vive uma reconfiguração geopolítica protagonizada pelos BRICS? Como devemos entender esse novo cenário?
Ribeiro:
É exagero dizer que há uma reconfiguração mundial, pois estamos falando de um bloco ainda em fase de consolidação. Até que ponto se transformará numa força coerente e atuante na política mundial? Questão em aberto. É um grupo de países com interesses comuns, mas também com interesses distintos. Em certos assuntos, eles defendem posições completamente diferentes. Na verdade, vejo o BRICS como uma plataforma estratégica para cada um de seus componentes ampliar seus posicionamentos de maneira mais sólida. No presente momento da economia política internacional, o BRICS tem sido vantajoso para os países que o compõem.

Os tradicionais centros de poder político e econômico parecem cada vez mais interessados em estabelecer alianças com países outrora periféricos. Como isso altera o cenário global de relações políticas, econômicas e diplomáticas?
Muita coisa está em jogo. Uma nova visão do poder no mundo? Supõe-se que os BRICS – assim como outros países, a exemplo de México, Indonésia e Coreia – também serão muito influentes nos destinos da economia global. O mundo tem prestado muita atenção na emergência desses novos atores. Mas, na ótica dos países ditos hegemônicos, o BRICS não é ainda um bloco forte o bastante capaz de representar efetivamente alguma espécie de ‘ameaça’ à hegemonia tradicional.

Os BRICS têm mais semelhanças ou mais diferenças? É um bloco coeso? Ou competições entre eles podem impor dificuldades para o desenvolvimento de uma agenda global?
Quando se quer falar em cooperação, competições e desavenças costumam ser deixadas em segundo plano. Pelo menos em princípio.

Quando se quer falar em cooperação, competições e desavenças costumam ser deixadas em segundo plano

Mas vejamos o caso da África, por exemplo. Futuramente, o continente pode ser um campo de competição entre os BRICS. A China tem grandes interesses por lá. O Brasil também. Empresas brasileiras, como Embrapa, Vale e Odebrecht, já atuam em território africano com bastante desenvoltura – além de várias outras grandes companhias privadas. O próprio Estado brasileiro tem incentivado a presença cada vez maior de empresas brasileiras na África.

Nações parecem se comportar mais como competidoras ávidas por parcelas cada vez maiores do mercado internacional, e menos como Estados comprometidos com desenvolvimento social igualitário em nível global. Que tensões podemos esperar a partir dessas relações?
Para consolidar essa entidade ‘inventada’ e ‘imaginada’ que é o bloco dos BRICS, não adianta enfatizar competições e rivalidades. Buscam-se pontos em comum. Construir horizontes compartilhados e estabelecer interesses benéficos a todos deveria ser o ideal. Mas tudo tem suas contradições.

Que modelo de desenvolvimento tem sido priorizado pelos países que integram o BRICS?
O modelo de sempre. Historicamente, quando comparamos os países integrantes do bloco, vemos claramente que a equação “crescimento = desenvolvimento” não é verdadeira. Na maioria dos BRICS, o crescimento econômico tem representado aumento de desigualdade social. O Brasil, felizmente, é exceção, mas ainda mantemos uma enorme concentração de renda. China é o caso mais dramático. Na verdade, estamos falando do crescimento e da expansão do capitalismo. O Brasil fala em cooperação sul-sul (temos de ter cuidado com essas categorias classificatórias). Mas a cooperação brasileira, em alguns casos, tem sido típica daquelas praticadas pelos grandes países, com forte sotaque colonialista.

As regras do jogo permanecem as mesmas, certo?
Exato. O capitalismo é uma máquina de produzir desigualdades. Se assim não fosse, ele não existiria. A concentração de renda nos BRICS ainda é muito alta.

Ensaiemos uma futurologia: a médio prazo, essa concentração de renda tende a se amenizar ou a ficar mais discrepante?
Tudo dependerá de políticas e da pressão exercida pelos excluídos das benesses do crescimento econômico. Não se trata somente de economia; mas também de política. Na história, não há ganhos expressivos que não tenham sido resultado de pressão social. Os interesses econômicos e políticos dos poderosos são sempre muito bem organizados. Esses grupos se encontram, em diferentes cenários, para definir concretamente seus interesses. Se não houver uma contraparte, prevalecerão sempre os interesses dessas elites. No caso dos BRICS, é preciso incorporar uma agenda de justiça social muito forte.

Chefes de Estado dos Brics
Chefes de Estado e de governo dos BRICS reunidos em junho de 2012 no México. Segundo Gustavo Ribeiro, é preciso incorporar uma forte agenda de justiça social no bloco. (foto: Roberto Stuckert Filho/PR – CC BY-SA 2.0)


Essa conversa de “elites hegemônicas poderosas” soa como um papo antiquado do século 19. Isso ainda está em pauta?
É a história da expansão da economia capitalista, meu caro. Muda a aparência. Mas os efeitos estruturais continuam os mesmos. A não ser que tenhamos intervenções políticas que amenizem esse quadro. Mas, por enquanto, o que os estudos mostram é a intensificação das desigualdades – devido à aplicação de um modelo desenvolvimentista que focaliza o crescimento econômico como objetivo fundamental, quase único, em detrimento de questões outras, especialmente sociais e ambientais.

Os filósofos Jürgen Habermas [1929-] e Jacques Derrida [1930-2004] afirmaram que entre os principais aspectos que distinguem os Estados Unidos da Europa estava o fato de que os norte-americanos veriam o Estado como um mal necessário que deve ser tão enxuto quanto possível. Já para os europeus, o Estado seria uma entidade mantenedora da ordem social, uma força positiva para aliviar as mazelas da sociedade. No Brasil e nos BRICS, que visão é preponderante?
São estados muito diferentes, estruturalmente. A China é um estado de partido único. A África do Sul carrega a herança muito forte de um regime que dividiu a nação – o apartheid. A Índia tem ainda uma memória colonial intensa, em que a unidade nacional é politicamente complexa e atravessada por fatores culturais e linguísticos. A Rússia, por sua vez, foi uma grande potência mundial até 1991. E o Brasil, que herda tantos problemas sociais, tem tido uma experiência democrática relevante desde a década de 1980.

Mas, apesar dessa diversidade, penso que os BRICS têm se aproximado de uma visão que concebe o Estado como ator central na vida da sociedade. Quanto à reflexão proposta por Habermas e Derrida, sempre me lembro de um ponto muito interessante: há uma mitificação segundo a qual os norte-americanos tendem a separar o Estado totalmente da economia. Mas, se essa separação de fato ocorrer, a economia colapsa. O Estado norte-americano está metido em muito mais do que se imagina!

É falsa, portanto, a noção de que nos Estados Unidos impera o apreço pelo Estado mínimo?
Eles têm essa alquimia própria: fazem de conta que o Estado não é importante. Mas não é verdade. O Estado está em muitas frentes: nas Forças Armadas, na tecnologia de ponta, na economia, na pesquisa científica... Se o Pentágono parasse de fazer contratos, a economia norte-americana teria sérios problemas. Ainda assim, de algum modo, eles conseguem manter essa aparência de que o Estado não interfere.

Curioso...
Mais curioso ainda é que pessoas no mundo todo acreditam nessa inverdade (risos).

Um tema caro ao senhor, atualmente, é a cooperação científica internacional. Nas ciências exatas e naturais, parcerias entre os BRICS já vêm ocorrendo, ainda que timidamente. E nas ciências sociais?
Existem iniciativas esparsas e esporádicas. Um dos objetivos fundamentais desta Anpocs foi preencher esse vazio por meio de um grande simpósio internacional com pesquisadores dos diferentes BRICS. Cooperações acadêmicas internacionais heterodoxas são muito difíceis. Nossas políticas nessa área geralmente se voltam a meia dúzia de países ‘hegemônicos’. É como se fora do eixo dos países do entorno do Atlântico Norte não existisse nada de interessante.

Cooperações acadêmicas internacionais heterodoxas são muito difíceis. Nossas políticas nessa área geralmente se voltam a meia dúzia de países ‘hegemônicos’

Nas chamadas ciências exatas ou da natureza, a cooperação costuma ser mais fácil. Pois a linguagem é a mesma. Matemática, fórmulas, trabalho de laboratório... Há um cenário comum. A pesquisa pode ser parcelada de maneira bem eficiente e incrementada por comunicações via internet. Mas nós das ciências sociais, que trabalhamos com conteúdos complexos – em que o contexto social, político, cultural e linguístico do conteúdo tem incidência decisiva nos resultados do que é pesquisado –, vemos que essa cooperação é mais delicada. “Vamos mapear uma cadeia de DNA: você fica com esse pedaço, em seu laboratório em Hong Kong, e eu fico com esse outro pedaço, aqui em Brasília; usamos as mesmas técnicas e os mesmos equipamentos; e, em seguida, teremos resultados comparáveis.” Isso não existe, dessa forma e com essa universalidade, nas ciências humanas.

Nas ciências exatas e naturais, os resultados das parcerias costumam ser bem práticos e tangíveis: novas tecnologias, novos tratamentos, novas patentes... No caso de cooperações em ciências humanas, que benefícios reais podem ser esperados?

É uma questão ampla. Normalmente se pensa que só engenharias, ciências da saúde e afins têm algum papel no desenvolvimento. Mas antropologia, sociologia, ciência política, relações internacionais, geografia, história, economia e muitas outras disciplinas também são investimentos naquilo que há de mais precioso na aventura do conhecimento: a imaginação! Não apenas de quem pratica essas ciências, mas do ambiente social como um todo.

Se você vive numa sociedade que só tem técnicos e cientistas, viverá numa sociedade pobre. É preciso uma sociedade capaz de refletir sobre si mesma, sobre suas complexidades e contradições. De onde viemos? Aonde queremos ir? Nisso entra também uma série de outras disciplinas vinculadas ao campo artístico – que abrem outro importante campo de experiências. A ciência não é a única dimensão da imaginação humana passível de se transformar em felicidade.

E quais seriam, então, os ‘produtos’ oferecidos pelas ciências humanas? Reflexões ou teorias?
O produto é o aumento da complexidade da fertilização cruzada; mais capacidade de imaginação para pensar o mundo e nele intervir.

*O jornalista viajou a Águas de Lindoia a convite da Anpocs.

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