28 novembro 2013

Objetivos integrados

Ao fim do 6º Fórum Mundial de Ciência, cientistas lançam declaração com recomendações para um futuro sustentável. A cooperação científica global, a educação interdisciplinar, o diálogo entre ciência e sociedade e a conduta ética nas pesquisas são os pontos altos do documento.

Integração e cooperação entre agentes da ciência e da sociedade foram a principal marca das discussões e da declaração final do 6º Fórum Mundial de Ciência. (foto: Cristina Lacerda)

Integração foi a palavra de ordem do 6º Fórum Mundial de Ciência, que se encerrou ontem (27/11) no Rio de Janeiro. Integração entre a comunidade científica global, entre as disciplinas no ensino, entre ciência e sociedade, entre cientistas e indústria e, por fim, integração global por uma conduta ética na ciência. O clamor cooperativo não ficou de fora da declaração final do evento.

O texto, escrito com base em tudo o que foi discutido ao longo da semana, enfatiza a necessidade de um novo modelo transdisciplinar de desenvolvimento baseado na ciência para enfrentar os crescentes desafios rumo ao desenvolvimento sustentável global – entre os quais o crescimento populacional, as mudanças climáticas, a escassez de energia e água, a desigualdade social e a pobreza.

Como primeira recomendação para resolver esses problemas, o documento cita a importância de se investir na cooperação científica internacional e em ações nacionais coordenadas para o desenvolvimento sustentável global. Durante o evento, esse tipo de cooperação foi amplamente discutido.

Como primeira recomendação, o documento cita a importância de se investir na cooperação científica internacional e em ações nacionais coordenadas para o desenvolvimento sustentável global

Uma das iniciativas apresentadas nesse âmbito foi o Projeto Varioma Humano encabeçado pelo geneticista John Burn, da Universidade de Newcastle (Reino Unido), com o apoio da Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco). O projeto é um consórcio global para que pesquisadores de todo o mundo possam compartilhar, em uma plataforma on-line, informações sobre estudos genéticos, sobretudo a identificação de alterações no DNA ligadas a doenças.

“O sequenciamento do genoma humano foi um grande feito, mas agora precisamos interpretá-lo, saber exatamente o que significa cada variação no DNA e a que doenças elas podem estar associadas”, disse Burn. “Se todos os geneticistas compartilharem essa informação com o mundo, poderemos reduzir muito o risco de doenças e melhorar a qualidade de vida da população.”

A princesa da Jordânia Sumaya bint El Hassan, que encerrou o evento com o anúncio de que a edição de 2017 será realizada em seu país, destacou que cooperações globais eficientes devem levar em conta as peculiaridades de cada nação e comunidade. “Os políticos e cientistas muitas vezes só se preocupam com seus problemas locais, mas a cooperação internacional é necessária para harmonizar as políticas de ciência nacionais com projetos que foquem o bem-estar e o desenvolvimento sustentável global”, comentou. “As ações coordenadas, no entanto, devem respeitar as características e desigualdades locais.”

El Hassan chamou a atenção para a necessidade de se investir na educação para reduzir as desigualdades e promover ciência e inovação em nível global de maneira sustentável. “Os governos têm que entender que a educação científica está diretamente ligada à inclusão social e à cidadania”, afirmou.

Educação em trânsito

A educação é outro dos pontos fortes do documento, que bate na tecla da interdisciplinaridade e recomenda o fomento de iniciativas de cooperação internacional para aumentar a mobilidade de estudantes pelo mundo.

O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, também atentou para esse ponto e citou como exemplo de experiência bem-sucedida o programa do governo federal Ciência Sem Fronteiras, que promove o intercâmbio de estudantes de graduação em universidades estrangeiras por meio de bolsas.

Glaucius Oliva e Jacob Palis
Para o presidente do CNPq, Glaucius Oliva (à esquerda, ao lado de Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências), o programa Ciências Sem Fronteiras cumpre bem o papel de colaboração científica internacional e formação de jovens. (foto: Cristina Lacerda)

“Imagine se todos os países representados no fórum tivessem um programa parecido com esse, teríamos cerca de 3 milhões de jovens com visão global e poder de diplomacia científica, trabalhando pela paz”, apontou. “Isso é o tipo de coisa que devemos promover para alcançar um desenvolvimento sustentável global.”

Diálogo e ética

A declaração recomenda ainda que haja um esforço global para aumentar o diálogo entre governantes, indústria e sociedade. “Para alcançarmos a sustentabilidade global, é da maior importância engajar as sociedades e empoderá-las para participar nas discussões sobre questões ambientais, morais e éticas”, diz o documento.

“A comunidade científica internacional deve partilhar um código universal de conduta que aborde direitos, liberdades e responsabilidades dos cientistas e regras universais para a pesquisa científica”

O texto também lança luz sobre o crescente problema das fraudes e plágios científicos, discutido no evento, e pontua a necessidade de se manter uma conduta ética na ciência e de se criarem mecanismos globais e legais para assegurar essa postura.

“A comunidade científica internacional deve partilhar um código universal de conduta que aborde direitos, liberdades e responsabilidades dos cientistas e regras universais para a pesquisa científica”, propõe o texto. “Os cientistas deveriam fortalecer suas responsabilidades diante do presente e do futuro da sociedade para evitar possíveis prejuízos causados por ignorância ou má interpretação das consequências de suas descobertas e pesquisas.”

O próximo Fórum Mundial de Ciência será realizado na Hungria, país original do evento, em 2015. Em 2017, a Jordânia vai sediar a segunda edição da reunião fora do território húngaro.

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

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