13 maio 2014

Da lagarta para o humano

Pesquisadores identificam proteína de taturana que atua contra vírus como o H1N1. Capaz de diminuir a replicação dos microrganismos, a substância ainda precisa ser testada em seres vivos.

As lagartas estudadas são abundantes na natureza e, geralmente, são vistas em árvores, já que se alimentam das folhas. A família Megalopygidae engloba mais de 200 espécies. (foto: Reinaldo Aguilar/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

As taturanas são conhecidas pela capacidade de liberar um tipo de veneno perigoso para o homem. O que não se sabia é que esses insetos também guardam uma proteína que pode se tornar uma aliada no combate a vírus como o do sarampo e o da gripe A. Pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, identificaram em lagartas da família Megalopygidae a presença de uma proteína capaz de inibir a proliferação de vírus causadores de doenças em humanos.

De acordo com o virologista e coautor da pesquisa Ronaldo Zucatelli Mendonça, a substância, que ainda não tem nome, está presente na hemolinfa da lagarta, líquido que exerce o papel do sangue nos insetos. “Extraímos a hemolinfa por uma incisão no pseudo pé na parte posterior da lagarta”, explica.

A proteína da taturana é capaz de diminuir em 750 vezes a proliferação do vírus do sarampo, além de impedir a replicação do H1N1

Em seguida, da parte externa do corpo da lagarta, extrai-se o gene responsável por codificar a proteína. Esse gene é, então, inserido em um baculovírus, microrganismo que infecta insetos. A seguir, o baculovírus é replicado em células de insetos que irão, pela presença do gene codificador, produzir a proteína em grande quantidade.

Os primeiros testes em culturas de células infectadas mostraram que a proteína da taturana é capaz de diminuir em 750 vezes a proliferação do vírus do sarampo e em 2 mil vezes a de um tipo de picornavírus (família que reúne vírus como o do resfriado), além de impedir a replicação do H1N1, vírus causador da gripe A. “A proteína estimula as respostas primárias e inespecíficas das células contra o vírus ao induzir dentro das células substâncias que possuem ação antiviral”, diz Mendonça.

A equipe pretende agora testar a ação da proteína em organismos vivos. Segundo o pesquisador, ainda que tenha ação eficaz contra vírus que atacam humanos, é preciso entender como nosso corpo reage à presença da proteína. “A possibilidade de rejeição existe, mas isso precisa ainda ser estudado”, completa.

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line

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