28 maio 2014

Nocauteando doenças

Em entrevista à CH On-line, o geneticista Francis Collins, diretor do NIH, maior órgão financiador de pesquisas em saúde do mundo, fala dos desafios da área, das parcerias com o Brasil e da estratégia de se aproximar da indústria farmacêutica para desenvolver novos tratamentos.

O biólogo Francis Collins, à frente do NIH, aposta na colaboração com as empresas farmacêuticas e no livre acesso de dados para fomentar a descoberta de novos tratamentos para doenças hoje sem cura. (foto: NIH)

Ele foi diretor do Projeto Genoma Humano, que em 2001 apresentou o primeiro mapeamento genético total do ser humano. É conhecido na comunidade científica como um caçador de genes por ter identificado, entre tantos outros, os relacionados à fibrose cística e à doença de Huntington. Causou rebuliço ao lançar, em 2006, o livro A linguagem de Deus, no qual diz ser possível a conciliação entre ciência e região. Desde 2009, é diretor do maior centro de financiamento de pesquisas em saúde do mundo, o órgão público norte-americano NIH (sigla em inglês para Institutos Nacionais de Saúde). Além disso, é entusiasta da comunicação da ciência e músico nas horas vagas.

Esse é o geneticista norte-americano Francis Collins, que veio ao Brasil na semana passada para ver de perto a ciência feita no país latino-americano que mais recebe fundos do NIH. Nesta entrevista, Collins fala sobre as parcerias com o Brasil, as prioridades da pesquisa médica atualmente, os novos desafios da genética e a mais recente estratégia do órgão norte-americano de se aproximar da indústria farmacêutica para acelerar o desenvolvimento de tratamentos para doenças hoje sem cura, como Alzheimer e lúpus.

Esta é a primeira vez que um diretor do NIH vem ao Brasil. Essa visita pode gerar novas parcerias?
Nós já temos muitas parcerias com o Brasil, mas, embora eu já seja diretor do NIH por mais de cinco anos, nunca tinha estado aqui. Queria ver por mim mesmo a pesquisa feita aqui e também procurar por novas vias de colaboração.

Fechamos uma nova colaboração com a Fapesp para um projeto que visa desenvolver uma nova abordagem para obter produtos naturais que possam ser úteis para pessoas com infecções por fungos

Em São Paulo, encontrei alguns cientistas e fechamos uma nova colaboração com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É um projeto que visa desenvolver uma nova abordagem para obter produtos naturais que possam ser úteis para pessoas com infecções por fungos – um grande problema de saúde, posto que não temos muitos antifúngicos eficientes, especialmente para infecções sistêmicas.

Os pesquisadores brasileiros descobriram formigas ‘fazendeiras’ que vivem na Amazônia há mais de 40 mil anos. Elas criam fungos e garantem que eles fiquem saudáveis. Mas esses fungos sempre sofreram a ameaça de espécies de fungos mais invasivas. Então essas formigas evoluíram e hoje carregam em seu exoesqueleto uma bactéria muito eficaz contra essas espécies invasivas. Essas bactérias devem produzir algum tipo de substância natural que mata os fungos e pode ser aproveitada para fazer medicamentos para humanos. Os pesquisadores brasileiros entendem dessa parte ecológica e nós temos um cientista da Universidade Harvard que é especialista em fazer produtos naturais. Então vamos aproximá-los e descobrir o que podemos aprender dessas bactérias. O NIH vai financiar os americanos e a Fapesp, os brasileiros. Será um investimento de um milhão de dólares, dividido entre EUA e Brasil.

Muitos pós-graduandos brasileiros estão indo desenvolver suas pesquisas no NIH por meio do programa do governo federal Ciência sem Fronteiras. Como vocês têm recebido esse intercâmbio? Ele pode influenciar o foco das pesquisas do NIH, dando mais ênfase a doenças mais comuns no Brasil, como dengue, leishmaniose e Chagas?
Com certeza essa leva de talentosos estudantes brasileiros só trará bons resultados para o NIH. É provável que alguns deles venham a trabalhar com as doenças negligenciadas, sim. Mas o grande desafio em termos de saúde a que o mundo está assistindo, incluindo o Brasil, são as doenças não infecciosas, como cardiopatias, diabetes e câncer. Suspeito que uma parcela significativa dos estudantes brasileiros que vão ao NIH, talvez 70%, quer estudar essas doenças não infecciosas.

Quais são as prioridades das pesquisas financiadas hoje pelo NIH? Existem doenças que estão recebendo mais atenção no momento?
Somos a maior instituição de suporte à pesquisa médica no mundo, damos importância e nos responsabilizamos por todas as prioridades médicas. É difícil falar em prioridades, mas, ao olharmos para os maiores desafios médicos no mundo, no nosso caso, nos EUA, as principais frentes são o câncer, o diabetes e as cardiopatias. Outra doença que também está recebendo mais atenção agora é o Alzheimer, pelo fato de ser tão devastador para o indivíduo afetado e para sua família e também por ter se tornado cada vez mais comum por causa do aumento da expectativa de vida da população.

Remédios
Para Collins, a colaboração com as indústrias farmacêuticas é a melhor estratégia para conseguir desenvolver novas drogas mais rapidamente. (foto: Nithya Ramanujam/ Freeimages)


Neste mês, o NIH anunciou uma colaboração inovadora com companhias farmacêuticas para acelerar a pesquisa de tratamentos para Alzheimer, diabetes, artrite reumatoide e lúpus. A aproximação com a indústria farmacêutica é um tema sensível, sobretudo porque há interesses econômicos envolvidos. Como vai funcionar esse projeto na prática?
É uma questão sensível, sem dúvidas. Comecei a trabalhar nesse projeto há três anos com reuniões intensas com os líderes das pesquisas das indústrias farmacêuticas para tentar descobrir formas de, juntos, acelerarmos o processo para encontrar a próxima geração de alvos de drogas para tratar doenças para as quais precisamos desesperadamente de ideias. Queremos unir a expertise das indústrias e dos pesquisadores do NIH e de outros institutos de pesquisa.

Estamos tentando trabalhar com a indústria em modelo de acesso aberto. Todos os dados ficarão abertos para todos; e isso é revolucionário

Se esse projeto tivesse sido lançado há alguns anos, as indústrias farmacêuticas teriam dito que não precisavam de uma parceria, que preferiam fazer isso atrás da cortina da confidencialidade. Mas estamos vivendo uma nova era. Temos essas incríveis descobertas sobre o risco genético de doenças. Sabemos mais sobre o diabetes e as moléculas envolvidas na doença do que nunca. Mas é muita informação para processar. Então as indústrias farmacêuticas terão a oportunidade de sentar à mesa com as melhores mentes de suas companhias e também do círculo acadêmico e pensar qual é a melhor estratégia para identificar os alvos com mais chance de sucesso.

As indústrias estão muito frustradas porque a maioria das pesquisas que financiam para desenvolver novas drogas falha. Na maior parte das vezes, elas falham já no final do processo de testes clínicos, com despesas enormes. Estamos tentando trabalhar com a indústria em modelo de acesso aberto. Todos os dados ficarão abertos para todos; e isso é revolucionário. As indústrias farmacêuticas estão vendo que esse é o melhor caminho e que pode ser bom negócio para elas também. Uma vez que o alvo é identificado, aí sim elas passam a fazer seus testes para desenvolver uma droga.

Como se deu a escolha das doenças especificamente?
Não podíamos trabalhar com todas as doenças existentes. Basicamente o que fizemos foi perguntar às companhias farmacêuticas quais eram as prioridades delas, pois não havia sentido começar o projeto com doenças pelas quais elas não se interessassem. Daí, selecionamos essas quatro. Esquizofrenia quase entrou, mas não conseguimos obter um número suficiente de indústrias interessadas em participar, pois para isso é preciso pôr dinheiro na mesa. As companhias e o NIH contribuem igualmente e, juntos, com 230 milhões de dólares, acredito que vamos conseguir avançar bastante.

Em 2011, o NIH lançou outra colaboração com as companhias farmacêuticas para descobrir novos usos para drogas que já tinham sido testadas e depois descartadas, o que gerou muita controvérsia. Alguns críticos argumentaram que as chances de sucesso seriam mínimas. Que resultados já foram obtidos?
Muita gente disse que não funcionaria, que nenhuma companhia se interessaria. Hoje já estamos no meio do projeto. A nossa ideia é a seguinte: as companhias estão tentando fazer novas drogas a todo tempo, desenvolvem compostos, testam sua toxicidade, fazem testes clínicos e a droga não funciona. Esse processo todo toma cerca de dez anos e gasta milhões de dólares. Mas sabemos que muitas doenças compartilham mecanismos com outras. Pode acontecer que uma empresa faça uma droga para tratar uma doença, essa droga falhe, mas possa servir para tratar outra doença. Uma só companhia não vai ter todas as ideias de como reposicionar as drogas. Então pedimos às companhias para dizerem ao mundo o que elas tinham em seus freezers e conversamos com vários institutos de pesquisa para ver se tinham alguma ideia de novo uso para esses compostos.

Fechamos nove projetos entre pesquisadores e companhias farmacêuticas – para doenças como esquizofrenia e Alzheimer –, que estão agora em testes clínicos

As companhias poderiam não concordar, porque estariam perdendo algum tipo de propriedade intelectual, mas esses compostos não as estavam ajudando, estavam parados e sem uso. Então, pegamos muitos advogados e os colocamos a portas fechadas por seis meses para que bolassem um acordo padrão bom para as companhias e para os pesquisadores com as ideias inovadoras. Fechamos esse acordo com oito companhias, detentoras de 58 compostos. Quando pedimos ao mundo ideias para esses compostos, apareceram várias. Fechamos nove projetos – para doenças como esquizofrenia e Alzheimer –, que estão agora em testes clínicos. Essa é a beleza do projeto: podemos pular direto para os ensaios clínicos. Provavelmente, daqui a um ano teremos resultados.

Desde o sequenciamento do genoma humano foram descobertos vários genes e alterações genéticas associados a doenças. No entanto, ainda temos poucos tratamentos promissores voltados para essas doenças. O que precisa ser feito para mudar esse cenário?
Sabemos a causa genética de mais de 5 mil doenças, a maioria delas raras, mas só temos tratamento para 250. Existe uma lacuna enorme entre o que sabemos e o que podemos realmente fazer. Mudar isso é o foco do NIH e é por isso que nos últimos dois anos eu comecei um novo centro, o Centro Nacional de Ciência Translacional Avançada (NCATS, na sigla em inglês), que tem como um dos objetivos acelerar o processo que vai desde a descoberta do gene até o desenvolvimento do tratamento – especialmente para doenças raras e negligenciadas, pois o setor privado provavelmente não está interessado em colocar dinheiro em tratamentos com mercados tão pequenos.

O que estamos tentando fazer no NIH é usar fundos públicos para identificar boas estratégias e fazer pesquisa até que ela pareça promissora o suficiente para que uma companhia se interesse em desenvolver um tratamento. Assim que uma companhia se interessar, a licenciamos e a deixamos seguir com a pesquisa. Essa é a melhor maneira de colocar uma droga no mercado.

Genética
Apesar do avanço da genética, ainda são poucas as doenças ligadas a genes para as quais novos tratamentos foram desenvolvidos. (foto: Freeimages/ vajdic)


Em 2012, o senhor participou da conferência TEDMed e apresentou um número no qual toca violão e canta uma música de composição própria sobre a necessidade de nocautear doenças. O senhor está envolvido em outras iniciativas de divulgação científica? E ... o senhor tem outras músicas?
Cresci numa família musical, em uma fazenda sem televisão, então aprendi a tocar violão muito cedo. Acho que é legal e necessário quebrar a rotina às vezes e tocar violão. Então, sim, eu tenho propensão a escrever músicas bobas [risos]. Nos últimos anos, escrevi uma dúzia de músicas, todas anotadas em papéis de rascunhos espalhados por aí e, quando reencontro a letra, descubro que esqueci a melodia. A maioria delas é sobre saúde, mas também tenho outras mais sérias, como uma música de amor para minha esposa.

Agora, falando sério, eu tento, em todas as oportunidades que tenho, falar sobre ciência de um modo compreensível. Participei de dois TEDMed e agora estou trabalhando com o cara que criou o TED para fazer um novo canal no Youtube com vídeos de 3 a 5 minutos de jovens cientistas que trabalham em laboratórios nos EUA falando sobre a sua ciência. Nossa ideia é enfatizar a diversidade do trabalho de pesquisa em saúde. O que fizemos foi juntar esses jovens com alunos de cinema para criar esses vídeos e até agora o resultado tem sido bem interessante. Acabamos de começar. O projeto vai ser formalmente anunciado nos próximos dias e nossa meta é que em setembro já tenhamos centenas de vídeos no canal.

Veja abaixo a apresentação de Collins no TEDMed

Tags:
COMPARTILHAR