24 julho 2014

Ciência no coração da Amazônia

Reunião Anual da SBPC no Acre leva o foco da pesquisa brasileira para o interior da floresta, debate temas locais como o extrativismo e a questão indígena e aposta na interação com a sociedade para a popularização da ciência.

A Reunião Anual da SBPC ocorre pela primeira vez no Acre e busca aproximar os cientistas brasileiros da realidade amazônica, valorizar a cultura regional e despertar no público local o interesse pelo mundo científico. (imagem: reprodução)

Boa parte das atenções da ciência brasileira está voltada para o Acre – ao menos até domingo (27/08). Lá acontece a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), onde estão sendo discutidos muitos dos principais assuntos ligados a pesquisa, desenvolvimento e inovação no Brasil, no maior encontro científico do país.

Com o tema ‘Ciência e tecnologia em uma Amazônia sem fronteiras’ e um público esperado de cerca de 10 mil pessoas por dia, o evento também busca dialogar com a sociedade, em especial os jovens, divulgar a ciência associada a manifestações culturais da região e debater questões socioculturais e econômicas caras à Amazônia, como o extrativismo e as populações indígenas. A CH On-line reúne por aqui alguns dos debates mais interessantes que marcaram esses primeiros dias de encontro.

Muitos cientistas consideram “intempestiva” a investida nacional na exploração do gás de xisto sem a análise do impacto ambiental da atividade

A programação científica do evento já começou pegando fogo. Uma das mesas-redondas realizadas hoje (24/07) discutiu as possibilidades de exploração do gás de xisto no Brasil. O tema já havia sido debatido no ano passado e continua polêmico: muitos cientistas consideram “intempestiva” a investida nacional na exploração do recurso sem a análise do impacto ambiental da atividade.

Um dos problemas apresentados é a localização das reservas brasileiras: como a maioria está sob grandes aquíferos, importantes reservas de água potável, sua exploração pode causar graves danos ambientais. A própria extração do gás requer o emprego de agentes químicos e enorme quantidade de água, em um processo complexo dominado por poucas empresas no mundo e que pode causar alterações ainda pouco conhecidas no ambiente.

No ano passado, a SBPC e Academia Brasileira de Ciências (ABC) encaminharam à Presidência da República um pedido de ‘moratória’ da atividade para tornar claros seus impactos ambientais – mas os pesquisadores alegam que a exploração continua e que os recursos para as análises não chegaram.

Nesta reunião anual, os cientistas também avaliaram a necessidade do gás no momento em que nos preparamos para explorar o petróleo do pré-sal. Eles debateram ainda as implicações geopolíticas da atividade, já que o produto pode ganhar muito valor no mercado internacional nos próximos anos e tem sido usado para fins políticos pelos Estados Unidos, que desejam substituir a Rússia como fornecedor de gás para toda a Europa, reflexo do atual estado de tensão entre as duas potências.

Protesto contra gás de xisto
O Brasil parece determinado a explorar o gás de xisto, mas as consequências ambientais da atividade ainda não são claras e causam preocupação em todo o mundo. Comunidade científica nacional pede mais tempo para estudar seus impactos. (foto: Flickr/ greensefa – CC BY 2.0)

Outra mesa teve como tema a energia: mais especificamente a consulta pública da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre as novas regras para investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor. A proposta inclui, por exemplo, a criação de um Comitê Técnico-Científico (Comtec) para estabelecer as diretrizes para o investimento na área, em novos contratos para exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural. Uma das questões importantes a serem esclarecidas, para os debatedores, é a aplicação dessas regras às empresas estrangeiras que atuam no Brasil. A SBPC e a ABC se comprometeram a elaborar um documento com sugestões para a consulta pública.

Questões amazônicas

Como é tradição da SBPC, além de temas gerais de nossa ciência, importantes questões regionais também ganham espaço nas mesas de discussão. Em uma palestra com lotação esgotada apresentada ontem (23/07), por exemplo, o professor da Universidade de Brasília (UNB) Jaime Santana falou sobre ataques de cobras no Brasil. Ele procurou desmistificar a imagem dos répteis e destacou que a maioria dos acidentes ocorre quando ‘invadimos’ seus hábitats.

O biólogo – que enfatizou a importância do tema, em especial no Norte e no Nordeste, onde casos graves são mais comuns – apresentou as famílias de serpentes do país, como a jararaca e a cascavel, e os tipos de envenenamento que provocam, além de explicar a importância de se identificar a cobra em caso de mordida, para a aplicação do soro específico.

Foram destacados os benefícios trazidos pelas reservas extrativistas na diminuição da especulação fundiária e da migração para as cidades, na valorização dos produtos extrativistas e no controle do desmatamento

Outra mesa-redonda tratou da dificuldade da fixação de doutores na região amazônica – a própria Universidade Federal do Acre, sede da reunião, possui apenas nove cursos de mestrado e um de doutorado. Os debatedores destacaram que o desafio começa ainda na formação de professores, já que faltam docentes para disciplinas como matemática, química e física em muitas áreas, o que evidencia a necessidade de mais investimentos. Uma das propostas apresentadas foi a criação de redes entre as universidades, por meio de novos programas que estimulem a fixação da pesquisa em áreas emergentes, que precisam ser vistas como estratégias. Os participantes também ressaltaram a importância de se investir mais no desenvolvimento de atividades de iniciação científica desde cedo.

Os povos típicos da região amazônica e suas atividades econômicas tradicionais foram tema de outras duas sessões da reunião. Em uma delas, a cientista social Mary Allegretti, com uma trajetória de 25 anos de trabalho junto às comunidades tradicionais da região, debateu a história e a atualidade das reservas extrativistas. Ela relembrou o processo de ocupação do Acre a partir da extração da borracha e a luta de líderes como Chico Mendes para resistir à invasão dos fazendeiros na região.

Allegretti destacou benefícios trazidos pelas reservas na diminuição da especulação fundiária e da migração para as cidades, na valorização dos produtos extrativistas e no controle do desmatamento, mas ressaltou a necessidade de avanços nos aspectos sociais e econômicos. Por exemplo, defendeu a melhora na qualidade de vida dos povos da floresta, o investimento na formação de novas gerações protagonistas na gestão da área e a criação de políticas econômicas e tecnológicas de valorização da biodiversidade.

Índios
Temas locais como a questão indígena e as reservas extrativistas ganharam destaque na reunião da SBPC de 2014: no Acre, programações especiais se aprofundam na realidade amazônica. (foto: Rodrigo Farhat/ Flickr – CC BY 2.0)

Em uma palestra em espanhol para facilitar o entendimento de uma plateia formada praticamente por índios do Peru e da Bolívia, o superintendente geral da Fundação Amazonas Sustentável (FASC), Virgílio Viana, falou sobre a necessidade de estimular o desenvolvimento sustentável da região. Ele defendeu a valorização dos serviços ambientais e do investimento em uma educação que preserve a história e a cultura desses povos e a construção de pontes entre os saberes tradicionais e a inovação tecnológica, além de estímulos a uma maior autonomia sobre seus territórios.

O que vem por aí

O extrativismo e a questão indígena estarão ainda mais presentes nos próximos dias do evento. Isso porque esta edição inclui uma programação exclusiva sobre os temas, a inédita SBPC Extrativista e Indígena. Nos cinco dias do encontro, serão discutidas as cadeias da sociobiodiversidade associadas à extração de produtos como castanha, borracha, açaí e óleo de copaíba, em mesas-redondas, minicursos, apresentações de experiências e até visitas a seringais.

De forma ainda mais marcante do que em outras edições realizadas na Amazônia, o evento também contará com grande presença indígena – cerca de 400 representantes de diversas etnias participarão de discussões sobre a realidade local. Podemos esperar muitos debates sobre isolamento, políticas públicas e acesso à universidade, além da realização de rituais e apresentações musicais de povos indígenas de Brasil, Bolívia e Peru.

Outra atividade que estreia nesta edição é o 'Dia da Família na Ciência', que passará a fazer parte das reuniões anuais da SBPC. Durante todo o fim de semana haverá uma programação voltada à divulgação da ciência para a população, com planetário, circo da ciência, museu e atividades culturais para crianças e pais.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

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