01 setembro 2014

Veneno que cura

Estudos brasileiros identificam moléculas da peçonha de vespas capazes de frear o avanço da doença de Parkinson e inibir convulsões da epilepsia. Substâncias mostraram resultados promissores em testes com camundongos sem gerar efeitos colaterais significativos.

No veneno da vespa, cientistas brasileiros descobriram moléculas com potencial para tratar doenças graves e incuráveis, como a epilepsia e o mal de Parkinson. (foto: Priscilla Galante)

Do doloroso veneno da vespa pode vir a esperança de tratamento para duas doenças neurológicas ainda incuráveis: a epilepsia e o mal de Parkinson. Pesquisadores brasileiros extraíram, da peçonha desse inseto perigoso, moléculas que se mostraram eficientes em testes com animais para impedir o avanço de ambas as enfermidades.

As pesquisas, apresentadas durante a 29ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, realizada na semana passada em Caxambu (MG), são fruto de 10 anos do trabalho com vespas sociais feito pela bióloga Marcia Mortari e sua equipe na Universidade de Brasília (Unb). Em laboratório, o grupo extrai peptídeos do veneno desses insetos e os analisa em busca de algum que tenha efeito benéfico para a saúde.

Mortari: “Essa substância mostrou ação imediata e capacidade de impedir a morte dos neurônios em qualquer nível da doença”

Recentemente, depois de estudar cerca de 40 substâncias do veneno, os pesquisadores se depararam com uma molécula natural que parece ter potencial no combate à doença de Parkinson, desordem neurogenerativa que afeta a região do cérebro ligada ao controle fino de movimentos. Batizada de fraternina, a substância foi capaz de impedir o avanço da doença em animais em pequenas doses.

A injeção de quatro doses de 10 microgramas de fraternina em camundongos protegeu os neurônios do cérebro dos animais, que tiveram uma lesão progressiva intencionalmente provocada para simular o Parkinson. A substância impediu que as células cerebrais fossem destruídas pela doença. “Essa substância mostrou ação imediata e capacidade de impedir a morte dos neurônios em qualquer nível da doença”, diz Mortari. “Se administrada em um paciente com diagnóstico precoce, poderia coibir as sequelas motoras.”

Vespa
Os pesquisadores extraíram o veneno do ferrão da vespa e o analisaram em laboratório em busca de moléculas que tenham efeito benéfico para a saúde. (foto: Priscilla Galante)

Antes da fraternina, havia sido identificada por cientistas da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, uma substância igualmente potente no veneno da lesma-do-mar, mas sua extração é mais difícil e ela não consegue romper a barreira da corrente sanguínea e chegar ao cérebro. Por isso, os cientistas estudam agora uma complexa forma de administração do composto por meio do implante de uma bolsa para entregar a droga diretamente na região lesionada pela doença.

Mortari aposta em uma forma de administração da fraternina mais amigável: por meio de um spray nasal. “Estamos estudando esse método porque seria mais adequado ao paciente de Parkinson do que comprimidos ou injeções e o efeito poderia ser até mais rápido, devido à proximidade do cérebro”, diz.

Segundo a bióloga, seu laboratório é capaz de produzir a fraternina sintética em grande quantidade sem necessidade de coletar vespas. A patente de uso da substância está sendo redigida e será depositada até o final do ano. A pesquisadora ressalta que ainda é preciso realizar vários testes com animais e humanos e estima que o fármaco possa estar pronto para uso em 10 anos.

Fim das convulsões

O mesmo prazo se aplica a uma molécula testada pelo grupo de Mortari para combater as convulsões da epilepsia. A neurovespina foi criada em laboratório pela equipe a partir de alterações em um composto natural do veneno de vespa.

Testada em camundongos, ela conferiu 100% de proteção contra convulsões quando administrada em doses semelhantes às dos medicamentos de epilepsia tradicionais. A substância tem a vantagem de não ter apresentado, até o momento, efeitos colaterais graves e de funcionar no tratamento de epilepsias resistentes, que não respondem aos medicamentos disponíveis no mercado.

A neurovespina conferiu 100% de proteção contra convulsões quando administrada em doses semelhantes às dos medicamentos de epilepsia tradicionais

A epilepsia, segunda doença neurológica mais comum, afeta 1% da população mundial, sendo que 80% dessas pessoas vivem em países em desenvolvimento, como o Brasil. Existem mais de 100 tipos diferentes da doença e cerca de 30% dos pacientes adultos possuem a forma resistente. Mesmo entre as variações de epilepsia para as quais existe remédio, os efeitos colaterais dessas drogas são expressivos, incluindo perda de memória, sedação e obesidade.

“O tratamento hoje é feito com antiepilépticos tomados por toda a vida, não há cura, é um controle sintomático”, comenta Mortari. “Nós focamos em uma substância com muito mais efetividade e que pode garantir uma melhor qualidade de vida.”

A neurovespina já foi patenteada e a cientista diz que existem algumas empresas farmacêuticas interessadas em fazer parcerias para financiar os estudos com humanos e lançar o composto como medicamento. A pesquisa chega em um momento em que a sociedade civil faz pressão para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove o uso de um composto também não plenamente testado – o canabidiol, encontrado na maconha – para conter convulsões.

Sofia Moutinho (*)
Ciência Hoje On-line

* A jornalista viajou para Caxambu a convite da Fesbe.

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