19 março 2015

Versátil cogumelo

Estudo coordenado pela PUC de Minas Gerais comprova propriedades medicinais do ‘Agaricus blazei’, popularizado como cogumelo do sol, e cria fármacos e alimentos baseados no fungo que podem ajudar a combater doenças infecciosas e crônicas.

Substâncias contidas no cogumelo ‘Agaricus blazei’ e estudadas por pesquisadores da PUC-MG podem dar origem a fármacos para leishmaniose e malária e a dois produtos alimentares com propriedades funcionais. (foto: Minasfungi do Brasil)

Na década de 1990, pesquisas começaram a tornar famosas as propriedades medicinais do Agaricus blazei, popularmente conhecido como cogumelo do sol. Desde então, produtos baseados nesse fungo, como suplementos alimentares, têm ocupado lugar de destaque no mercado, em aplicações nem sempre comprovadas pela ciência. Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a empresa Minasfungi do Brasil, no entanto, avaliou os possíveis benefícios do cogumelo do sol para a saúde e desenvolveu novos produtos que podem ajudar no combate a doenças como malária e leishmaniose.

O resultado mais significativo da pesquisa foi a descoberta de substâncias (protegidas por sigilo de patente) que atuam contra os protozoários causadores da leishmaniose e da malária. “Uma delas impede o desenvolvimento da forma grave da malária ao proteger o tecido cerebral da ação do plasmódio”, afirma Wiliam Regis, bioquímico da PUC-MG e coordenador do grupo que estuda o cogumelo. “No combate à leishmaniose, outro componente identificado pelo grupo demonstrou o potencial de reduzir a capacidade de infecção e até matar o parasita causador da doença.”

Regis: “A pesquisa rendeu dois pedidos de patentes para desenvolvimento de fármacos contra leishmaniose e malária, duas importantes doenças negligenciadas”

Embora ainda existam etapas a serem cumpridas para a comercialização dos fármacos, os estudos, iniciados em 2008, parecem comprovar o enorme potencial do cogumelo A. blazei como base para o desenvolvimento de novas drogas. “A pesquisa rendeu dois pedidos de patentes para desenvolvimento de fármacos contra leishmaniose e malária, duas importantes doenças negligenciadas”, afirma Regis.

“Para a leishmaniose, o produto a ser desenvolvido terá potencial de uso tanto para prevenção, como uma terapia profilática em áreas endêmicas, quanto para tratamento da doença e, se tudo der certo, sem precisar de outras drogas”, diz o pesquisador.

Cogumelo na mesa

O grupo também estudou a utilização do fungo para fins alimentícios. Como o Agaricus é liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser utilizado como alimento, o cogumelo foi acrescentado à composição de um iogurte e uma massa de macarrão especialmente desenvolvidos pelos pesquisadores – e também patenteados.

O cogumelo adicionado aos alimentos é cultivado especificamente para esse fim, de modo a manter suas propriedades funcionais. “O cultivo especial manteve, mesmo após a preparação dos alimentos, a presença de substâncias antioxidantes que neutralizam os radicais livres, relacionados a doenças como diabetes e aterosclerose, e do betaglucano, que ajuda a regular o sistema imunológico, com potencial de proteção do organismo contra infecções e de amenizar problemas inflamatórios como artrite e artrose, segundo pesquisa com usuários”, conta Regis.

Cogumelo ‘Agaricus blazei’
Os cogumelos usados na pesquisa são cultivados e preparados especialmente para o desenvolvimento dos fármacos e produtos alimentícios, o que garante a manutenção de suas propriedades funcionais. (foto: Minasfungi do Brasil)

O bioquímico ressalta que os benefícios produzidos pelo cogumelo só foram alcançados por causa de seu cultivo e preparação especiais para o desenvolvimento dos fármacos e produtos alimentícios. “É essa forma distinta de preparo – com o isolamento de componentes para uso nos fármacos e a manutenção da ação do betaglucano nos alimentos – que potencializa as propriedades funcionais do fungo”, esclarece, acrescentando que foi utilizado nas pesquisas o cogumelo A. blazei da marca EnergyVita. “Poucos produtores do cogumelo em sua forma natural conseguem manter o betaglucano, por isso, nada garante que a ingestão do cogumelo in natura trará os mesmos benefícios.”

Apesar de a pesquisa comprovar a presença de substâncias que agem contra agentes infecciosos e ajudam a fortalecer o sistema imunológico, o pesquisador alerta para o perigo do uso indiscriminado do cogumelo. “É preciso estar ciente de que toda doença se manifesta de maneira diferente em cada indivíduo, de acordo com contextos fisiológicos e genéticos”, ressalta. “O cogumelo tem grande potencial de uso, mas sempre é recomendado o acompanhamento de um médico, que poderá esclarecer da melhor forma sobre a eficácia de seus princípios ativos.”

Isabelle Carvalho
Especial para CH On-line

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