22 maio 2015

Alimentação segura e com qualidade

Um detector de adulterações no leite, um modelo de agricultura urbana sustentável e a descoberta de que a castanha-do-brasil reduz prejuízos cognitivos em idosos foram os trabalhos vencedores do Prêmio Jovem Cientista deste ano.

Segurança alimentar e nutricional foi o tema da 28ª edição do Prêmio Jovem Cientista. (foto: Michael Stern/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

A qualidade da nossa alimentação é uma preocupação crescente e envolve vários fatores. De um lado, existem alimentos cujo consumo pode trazer benefícios à saúde. De outro, a produção cada vez mais industrializada dificulta a transparência em relação ao que se ingere e o ato de comer pode ir do prazer à tragédia com adulterações que enganam e prejudicam o consumidor em favor dos lucros. Além disso, a sociedade precisa encontrar modelos alternativos e sustentáveis que permitam melhorar a gestão dos espaços produtivos, controlar a origem dos alimentos e garantir sua distribuição mais equilibrada. Essas questões estão na base dos projetos vencedores da 28ª edição do Prêmio Jovem Cientista, que teve como tema a segurança alimentar e nutricional.

O risco presente nos alimentos industrializados foi o que motivou Joana Meneguzzo Pasquali, do Colégio Mutirão de São Marcos, no Rio Grande do Sul, a desenvolver o seu Detectox, um kit capaz de detectar a presença de substâncias tóxicas no leite UHT. “A divulgação das fraudes no leite na minha região foi muito intensa e, assim que os casos foram noticiados, comecei a pensar em uma possível solução”, conta a jovem de 17 anos, primeira colocada na categoria estudante do ensino médio.

Utilizando como base um pedaço de filtro de café embebido com reagentes que indicam a presença das substâncias indesejadas, Pasquali confeccionou – por conta própria e de forma artesanal – as fitas detectoras de fraude. O protótipo é capaz de identificar a adição de formol, amido, hidróxido de sódio ou outras substâncias que alterem o pH do leite. “Procurei um material que transpirasse menos, assim, os reagentes não evaporariam até o momento dos testes”, explica. Para testar o protótipo, a estudante realizou as contaminações no leite com o auxílio da professora de metodologia científica de sua escola.

Joana Meneguzzo Pasquali e seu Detectox
Joana Meneguzzo Pasquali apresenta o protótipo do Detectox, que identifica a presença de substâncias tóxicas no leite. A estudante foi a primeira colocada no Prêmio Jovem Cientista de 2015 na categoria estudante de ensino médio. (foto: divulgação/ Prêmio Jovem Cientista)

“O leite é um dos alimentos básicos da alimentação, por isso, é importante para a população controlar a sua qualidade”, comenta Pasquali. “Sabendo que o consumidor possui uma forma de detectar as fraudes, as empresas ficarão desencorajadas de realizar as adulterações”. Criado com o objetivo de ser uma ferramenta para o consumidor final, o produto, de baixo custo, pode se tornar uma opção viável para garantir a segurança alimentar do leite. “Se o protótipo for aprimorado, pode despertar o interesse comercial”, completa.

Alimentação e urbanismo

Contribuir para a redução de um grave problema mundial – a fome – foi um dos objetivos do estudante de arquitetura Deloan Edberto Mattos Perini, da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), em Erechim (RS), ao desenvolver um modelo de agricultura urbana sustentável. Segundo ele, a escolha e otimização de espaços cultiváveis na cidade pode ser um caminho para vencer obstáculos da produção e distribuição dos alimentos em nível municipal. Hoje, mesmo com todos os recursos e tecnologias disponíveis, cerca de 805 milhões de pessoas em todo o mundo ainda padecem pela falta de comida, de acordo com dados do último relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), publicado em 2014.

A escolha e otimização de espaços cultiváveis na cidade pode ser um caminho para vencer obstáculos da produção e distribuição dos alimentos

“Percebi muitos espaços urbanos ociosos em Erechim; nosso objetivo era pensar em uma forma de utilizar esses locais para o bem da cidade”, conta Perini, que teve a orientação da professora de oficina de desenho da UFFS, Marcela Alvares Maciel, para desenvolver o projeto que lhe rendeu o primeiro lugar na categoria estudante do ensino superior do Prêmio Jovem Cientista.

O estudo identificou aproximadamente 13.500 m² que podem ser transformados em hortas urbanas na cidade de Erechim. Juntas, as hortas teriam capacidade para produzir cerca de 60 mil quilos de alimentos por mês. O modelo proposto pelo estudante também prevê a distribuição sistematizada da produção – uma parte deve ir para o comércio local e outras duas partes para escolas e restaurantes populares.

Modelo de agricultura urbana sustentável
A elaboração de um modelo de agricultura urbana sustentável deu ao estudante de arquitetura Deloan Edberto Mattos Perini o primeiro lugar da categoria estudante do ensino superior do Prêmio Jovem Cientista. (foto: divulgação/ Prêmio Jovem Cientista)

A proposta não só permite uma maior integração entre o espaço urbano e o espaço cultivado, mas também aproxima a população das etapas de produção dos alimentos e geração de resíduos, conscientizando para um comportamento adequado. De acordo com Perini, o modelo é adaptável a outras cidades de pequeno e médio porte; já para cidades maiores, as mudanças se tornam mais complexas.

Aliado na prevenção do mal de Alzheimer

A descoberta de que o consumo de castanha-do-brasil pode trazer benefícios para as funções cognitivas de idosos deu o primeiro lugar da categoria mestre e doutor do Prêmio Jovem Cientista a Bárbara Rita Cardoso, doutora em nutrição experimental pela Universidade de São Paulo (USP). A castanha-do-brasil é rica em selênio – importante agente antienvelhecimento para o cérebro. A maior parte da população não ingere quantidades desejáveis do mineral.

A castanha-do-brasil é rica em selênio – importante agente antienvelhecimento para o cérebro

A pesquisadora testou os efeitos da castanha em idosos com comprometimento cognitivo leve. Os voluntários foram divididos em dois grupos: um grupo que passou a consumir castanha-do-brasil regularmente e um grupo de controle, que não ingeria a semente. Após o período de testes, o grupo consumidor de castanha obteve resultados melhores em quesitos como fluência verbal e capacidade de reproduzir pensamentos.

Cardoso ressalta que idosos com comprometimento cognitivo leve têm mais chances de desenvolver mal de Alzheimer. Por isso, a redução dos danos cognitivos nesses pacientes é uma importante aliada na prevenção da doença.

Neste ano, o Prêmio Jovem Cientista recebeu 1.920 inscrições de todo o país. Os vencedores foram anunciados ontem (21/5) em Brasília.

Everton Lopes*
Ciência Hoje On-line

*O repórter viajou a Brasília a convite do Prêmio Jovem Cientista.

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