17 fevereiro 2016

Olheiro virtual

Modelo estatístico desenvolvido por brasileiros oferece, em tempo real, resultados de testes para medir as habilidades de atletas. Ferramenta pode ser utilizada na caça de talentos para o futebol.

O sistema de seleção de atletas foi testado em uma escolinha de futebol. (foto: Assessoria de imprensa/CeMEAI)

No Brasil e no mundo, a forma mais comum de encontrar talentos no esporte é o trabalho de olheiros. Como o nome diz, são especialistas que ficam de olho em jovens atletas para descobrir os mais promissores. Esse processo, no entanto, é lento, trabalhoso e pode deixar muitos esportistas talentosos passarem despercebidos – imagine estar num mau dia justamente quando da passagem do olheiro pelo seu centro de treinamento? Um projeto do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo, campus São Carlos, promete ajudar atletas e treinadores a fazer uma seleção mais criteriosa e justa.

O sistema estatístico iSports tem como objetivo diminuir o tempo entre os testes realizados pelos atletas e seus resultados para descobrir, em tempo real, quem são os mais aptos em cada modalidade. A ferramenta foi desenvolvida com o auxílio de técnicos de futebol – o principal esporte abordado pelo projeto – e combina seis testes físicos e técnicos. Os critérios físicos incluem desempenho em corridas de 20 metros, potência relativa (a força que o atleta tem em relação ao seu peso) e velocidade máxima. Já os critérios técnicos medem habilidades para fazer chutes, dribles e passes. O treinador coleta todos os dados e insere em um sistema que vai comparar o desempenho dos atletas, indicando os mais talentosos.

O sistema estatístico iSports tem como objetivo diminuir o tempo entre os testes realizados pelos atletas e seus resultados

As informações são armazenadas em nuvem – basta estar conectado à internet para acessar os dados – e os testes, medidos separadamente, são representados no sistema de uma forma única, gerando um escore para cada atleta. Cria-se, então, uma ordenação entre os participantes. “Desde que haja o auxílio de técnicos, é possível criar provas para diferentes modalidades, selecionando e comparando no sistema os melhores do Brasil, de um estado, ou até mesmo de uma escola”, explica o professor Francisco Louzada, coordenador do projeto.

O iSports também pode escolher os melhores em cada quesito, pesquisando talentos a partir de habilidades específicas como chutar, driblar, passar ou correr. Além disso, se disponíveis, critérios extracampo – como renda familiar, local de moradia ou a escola onde o atleta estuda – também podem ser comparados pelo sistema do iSports. A principal vantagem do sistema é possibilitar a avaliação a distância, uma vez que recrutadores de talentos podem buscar os jogadores em uma base nacional de dados.

A principal vantagem do sistema é possibilitar a avaliação a distância

Para ter acesso ao sistema, técnicos, professores de educação física ou olheiros precisam fazer um cadastro. Em seguida, devem inserir dados de habilidades e de testes físicos dos seus atletas. Os profissionais podem acessar o aplicativo a partir de computadores, celulares e tablets e compartilhar entre si as informações que desejarem. “É como se fosse uma ‘rede social’ do esporte, que pode ser acessada por qualquer plataforma digital”, compara Louzada. 

O professor de futebol Rodrigo Paloni, da escolinha Mult Sport, parceira do projeto, aprova o sistema, mas aponta algumas características que ainda precisam ser desenvolvidas: “É preciso adequá-lo às diferentes faixas etárias dos jogadores, além de incluir simulações de marcação e de outras situações que ocorrem no esporte de contato”, sugere.

Embora seja promissor, o modelo deve encontrar resistência até que seja efetivamente implementado. Serão os rápidos olhos virtuais hábeis como os dos lentos olheiros, que se sentam há anos à margem dos gramados e das quadras?


João Paulo Rossini
Instituto Ciência Hoje/RJ

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