24 fevereiro 2016

Vidas (ainda mais) secas

Estudo da Fiocruz revela alto grau de vulnerabilidade de municípios baianos no bioma da Caatinga no entorno do Rio São Francisco às mudanças climáticas previstas para a região até 2040.

Na cidade de Urandi, mudanças climáticas poderão reduzir chuvas em até 438mm por ano, levando a risco de desertificação (foto: Marcelo Pascoal Morais Bacci/Wikimedia)

Uma das áreas mais afetadas pelas mudanças climáticas previstas para as próximas décadas no Brasil, o trecho de municípios baianos localizados na bacia do Rio São Francisco tem grandes chances de sofrer danos em 2040. Um relatório desenvolvido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), indica que, entre 84 cidades analisadas – todas localizadas no bioma da caatinga – quase metade tem alto grau de vulnerabilidade diante de um cenário com menos chuvas e temperaturas ainda mais altas na região.

O estudo foi desenvolvido entre os anos de 2013 e 2015 por 12 pesquisadores, entre membros fixos e colaboradores. Formada por especialistas de áreas diversas, como saúde pública, geografia, ciências sociais, biólogo, análise de sistemas, economia entre outros, a equipe desenvolveu indicadores de vulnerabilidade de acordo com as características da região. Foram considerados elementos como a sensibilidade das populações locais a determinadas doenças, exposição a fatores ambientais (como a seca) e aspectos socioeconômicos, que indicam a capacidade de reação e adaptação a fatores de perigo. “Nosso objetivo é fazer um alerta. Se não houver nenhuma ação que possibilite à população ter uma visão mais ampla do problema e se adaptar às situações críticas trazidas pelo clima, essas pessoas vão sofrer ainda mais”, acredita a assistente social Diana Marinho, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-Fiocruz) e coordenadora-executiva do projeto. 

No cenário com progressão contínua das emissões, é esperado que a temperatura aumente em 1,75°C e o volume de chuvas caia, em média, até 172 mm

Para antever os possíveis danos que cada município sofrerá nos próximos anos, os pesquisadores utilizaram modelos climáticos específicos para a região fornecidos por especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Alinhadas com previsões globais como as utilizadas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), as análises consideram dois possíveis cenários: no primeiro, há redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, com aumento de 0,98°C na temperatura e queda de 101 milímetros no volume de chuvas nos municípios da região. No cenário com progressão contínua das emissões, é esperado que a temperatura aumente em 1,75°C e o volume de chuvas caia, em média, até 172 mm. 

Redução das disparidades

Entretanto, algumas cidades podem enfrentar ainda mais dificuldades: em Urandi, por exemplo, as chuvas podem diminuir em até 438 mm por ano. “A nossa preocupação é mostrar que existe uma situação muito delicada, pois essas mudanças vão acarretar problemas de acesso à água para plantio e para o consumo de humanos e animais”, ressalta Marinho, lembrando que já existem dificuldades neste momento em alguns locais analisados. “Nem todos os municípios estudados estão às margens do rio e mesmo os que estão precisam colocar a bomba que puxa água para irrigação e consumo cada vez mais próxima das margens”, relata.

“A nossa preocupação é mostrar que existe uma situação muito delicada, pois essas mudanças vão acarretar problemas de acesso à água para plantio e para o consumo de humanos e animais”

O cálculo que determinou o grau de riscos para cada município da região foi feito por meio de um software desenvolvido para o projeto. O sistema considerou os cenários climáticos e os indicadores de vulnerabilidade coletados pela equipe nos municípios e fornecidos por instituições locais. Tornou-se possível, desta forma, determinar que cidades estão mais suscetíveis a sofrer com as mudanças futuras. “Esses índices podem ser alterados”, destaca a economista Martha Barata, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz) e coordenadora-geral do projeto. “Nós  identificamos os municípios mais vulneráveis em relação aos demais dentro de uma mesma área de estudo, para que seja possível tomar medidas que reduzam disparidades, melhorem índices e os deixem em nível semelhante, com menor vulnerabilidade”, explica.

Segundo Barata, os gestores dos municípios e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente da Bahia, instituição parceira do projeto, não se surpreenderam com os resultados apresentados pelo levantamento. “Eles viram no estudo aquilo que já sabiam empiricamente sobre a situação dos municípios. Isso foi interessante porque, de certa forma, validou a nossa metodologia”, acredita.

O objetivo é que, além de tomar providências para reduzir a vulnerabilidade dos municípios analisados, os gestores locais possam atualizar as informações no sistema, como fatores relacionados à saúde ou aos indicadores socioeconômicos. “Será possível contar com dados atualizados à medida que houver mudanças nos indicadores, como a redução de determinadas doenças após campanhas de combate e prevenção”, exemplifica Barata. A economista destaca que também há uma preocupação especial com a preservação da caatinga, um dos biomas mais ameaçados do Brasil. 

Levantamento em outros seis estados

A Bahia foi o segundo estado brasileiro a receber o projeto. Um primeiro levantamento sobre vulnerabilidade e mudanças climáticas no Rio de Janeiro foi publicado em 2011 e atualizado em 2013. “Nosso trabalho nos municípios fluminenses já apontava para a importância de reduzir a situação de vulnerabilidade ao clima na Região Serrana [em 2011, uma enchente na região causou a morte de 981 pessoas], mas infelizmente a situação continua dramática”, lamenta Barata.

Desde o início do projeto, a equipe trabalha para a aprimorar os indicadores mais importantes de vulnerabilidade de acordo com cada região. “Nos municípios fluminenses, a leptospirose era uma ameaça, o que não foi registrado na Bahia” conta Barata. “Por outro lado, incluímos os ataques de animais peçonhentos como um problema importante no entorno do São Francisco”, detalha. 

Em breve, outros seis estados serão contemplados por estudos semelhantes. De acordo com Barata, o Ministério do Meio Ambiente pretende usar as projeções com a apoio para a Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. Por isso, os especialistas estão levantando as informações para fazer projeções sobre municípios do Amazonas, Maranhão, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Paraná. “Já realizamos novos aprimoramentos em nossa metodologia. Nos novos levantamentos, acrescentamos novas variáveis, como a vulnerabilidade sociodemográfica de cada município. Os resultados deverão ser divulgados até o fim do ano”, acredita a economista.

Simone Evangelista
Especial para a CH Online

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