05 janeiro 2007

Um momento de crise no planeta

Rochas e fósseis brasileiros ajudam a entender o evento de extinção em massa que dizimou os dinossauros no limite Cretáceo-Paleógeno

 
Poucos assuntos na paleontologia são tão polêmicos como o limite K/Pg, que demarca a passagem do Cretáceo (K) para o Paleógeno (Pg), há cerca de 65 milhões de anos. Essa transição é importante porque ocorreu naquele momento um evento de extinção em massa que dizimou grande parte dos animais e plantas que viviam na Terra até então, inclusive algumas das formas de vida mais instigantes que já existiram no planeta: os dinossauros.

A duração desse episódio foi de algumas dezenas ou centenas de anos – um piscar de olhos quando se leva em conta a idade da Terra (4,6 bilhões de anos). Até pouco tempo, o limite K/Pg era conhecido como a passagem Cretáceo-Terciário ou K/T, mas mudou de nome após a revogação do termo Terciário em prol da denominação Paleógeno.

A história é mais ou menos assim: um corpo extraterrestre (um grande meteoro, asteróide ou cometa) teria atingido o planeta há aproximadamente 65 milhões de anos, causando grandes mudanças ambientais e a conseqüente destruição dos ecossistemas de então.

Essa idéia surgiu da pesquisa coordenada pelo norte-americano Luis Alvarez (1911-1988), ganhador do prêmio Nobel de física em 1968. Em 1980, sua equipe descobriu a existência de uma grande concentração de irídio nas rochas datadas no limite K/Pg. Como esse elemento – um metal semelhante à platina – é bem raro na Terra, mas encontrado em grandes concentrações em meteoritos, a explicação mais plausível apontava para o impacto de um grande corpo vindo do espaço. Outras hipóteses que procuraram explicar esse evento de extinção foram mudanças do nível dos oceanos ou um vulcanismo intenso.

A hipótese do impacto, no entanto, é a que predomina no meio científico diante de uma série de outras evidências que a sustentam. Entre elas, estão os depósitos de tsunamitos, gerados por ondas gigantes (tsunamis) originadas logo após a caída do corpo extraterrestre, e a presença nas camadas relativas ao limite K/Pg de alguns minerais (grãos de quartzo fraturados, microdiamantes) formados devido a um aumento de pressão que poderiam ter sido resultantes de um choque. Até mesmo a possível cratera resultante desse impacto, denominada de Chicxulub, foi encontrada no Golfo do México.

O limite K/Pg no Brasil
Há pouco mais de 10 anos, pesquisadores da Petrobras encontraram uma região onde o limite K/Pg pode ser observado. Trata-se da mina Poty, situada 30 km ao norte de Recife, em Pernambuco. Nessa mina, explorada para obtenção de cimento, existe uma seqüência de rochas calcíferas cujas camadas foram datadas com base em microfósseis e mostraram claramente a passagem do Cretáceo ao Paleoceno (a época mais basal do Paleógeno). Do ponto de vista geológico, esses depósitos correspondem às formações Gramame e Maria Farinha e o limite K/Pg se situa basicamente no contato entre elas.

Alguns fósseis encontrados nessa região também corroboram a idéia de um evento de extinção em massa. Na Formação Gramame, a mais antiga, são encontrados restos (sobretudo dentes) de lagartos marinhos conhecidos como mosassauros. Após o limite K/Pg, não se tem mais nenhum registro desses animais.

Outros fósseis, no entanto, mostram que alguns grupos foram pouco afetados. Entre estes, estão os restos de tubarões, também representados por dentes isolados, encontrados tanto na Formação Gramame quanto na Formação Maria Farinha. Apesar de existir alguma variação das espécies encontradas nos dois depósitos, parece que, pelo menos nesta parte do planeta, o impacto não afetou em demasia esse grupo de peixes.

Entre outros fósseis muito comuns na região da Mina Poty, encontrados predominantemente nos depósitos da Formação Maria Farinha, há restos de invertebrados, com uma grande quantidade de espécies com conchas (bivalves, gastrópodes). Há ainda resquícios de artrópodes e icnofósseis produzidos por eles – galerias onde esses animais se enterravam no fundo lodoso que existia ali há milhões de anos. Também foram encontrados vértebras e outros restos de crocodilomorfos marinhos do grupo Dyrosauridae, um dos poucos grupos que sobreviveram.

Uma pesquisa recente do limite K/Pg na região da mina Poty indica que houve um segundo impacto, ocorrido pouco depois do choque que originou a cratera de Chicxulub. Caso confirmado, esse impacto registrado em terreno brasileiro corroboraria a idéia apresentada por alguns pesquisadores segundo a qual o limite entre o Cretáceo e o Paleógeno foi marcado por uma sucessão de choques de corpos extraterrestres durante algumas centenas de anos – um curto intervalo do ponto de vista geológico.

De qualquer forma, a mina Poty é um dos principais locais no Brasil onde pode ser estudada a passagem do limite K/Pg, e pesquisas em andamento poderão ajudar ainda mais a entender este que foi um dos maiores períodos de crise na vida do nosso planeta. 


Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
05/01/2007

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Neste exato momento pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro estão a caminho da Antártica para procurar restos de dinossauros e outros registros fósseis. A pesquisa será concentrada na Ilha James Ross, na Península Antártica, onde já houve registros de dinossauros no passado. Durante 40 dias, a equipe de 7 pesquisadores e 2 alpinistas permanecerá acampada; o tempo total da expedição é de aproximadamente 65 dias. Os resultados da busca serão apresentados em primeira mão nesta coluna.

Os pesquisadores Xiaoling Wang e Zhonghe Zhou, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, em Pequim, publicaram no Geological Journal uma revisão dos pterossauros encontrados nos famosos depósitos das formações Yixian e Jiufotang (Cretáceo Inferior). A pesquisa reforça a idéia de que existiram duas radiações de pterossauros naquela parte da China: uma representada por espécies mais primitivas, semelhantes a formas encontradas na Europa, e outra com espécies mais derivadas, semelhantes a formas brasileiras.



Um animal voador semelhante a um esquilo e pertencente a um novo grupo extinto de mamíferos foi encontrado em rochas com 125 milhões de anos da Mongólia. O Volaticotherium antiquus tinha dentes bem afiados e membros alongados que suportavam uma membrana, sugerindo que o animal era capaz de planar, vivendo nas árvores e se alimentando possivelmente de insetos. O estudo, realizado pela equipe de Jim Meng, do Museu Americano de História Natural, foi publicado na Nature .

A 11ª Conferência sobre Evolução, Paleontologia e Sistemática de Vertebrados Australasianos está sendo organizada pelo Museu Melbourne, em Victoria, na Austrália. Com foco na pesquisa sobre vertebrados fósseis da Austrália, dois simpósios serão os destaques do evento: um sobre mamíferos marinhos (que está em sua terceira edição) e outro sobre os vertebrados primitivos do supercontinente Gondwana.



Segundo estudos anteriores, há cerca de 55 milhões de anos, houve um aumento da concentração de dióxido de carbono e de 5º C na temperatura do planeta, que resultou em eventos de extinção em massa. Para examinar essa questão em detalhes, a equipe de Samantha Gibbs analisou organismos fitoplanctônicos calcários (grupo de microfósseis marinhos), muito sensíveis a mudanças de salinidade e temperatura da superfície dos oceanos. Ao contrário do que se previa, o grupo concluiu que não houve extinção em massa da maioria desses organismos, mas que as mudanças ambientais levaram à substituição de algumas dessas espécies. O estudo foi publicado na Science .

O pesquisador chinês Jin-Ling Li, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, em Pequim, publicou uma interessante revisão sobre os répteis marinhos encontrados em rochas triássicas da China. Entre eles, há ictiossauros, placodontes e representantes de grupos menos conhecidos (como os Hupesuchia). Embora 33 espécies já tenham sido identificadas, o autor considera o conhecimento sobre os répteis marinhos chineses ainda bastante incipiente para se ter uma idéia mais precisa acerca da evolução desses grupos e de sua distribuição na China. O trabalho foi publicado na Vertebrata PalAsiatica .
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