06 novembro 2006

Os répteis marinhos do passado

Colunista apresenta os ictiossauros, que viveram nos mares da era Mesozóica e se assemelham a formas aquáticas atuais

Organismos que viveram no passado geológico do nosso planeta podem ter formas bem diferentes e até mesmo extravagantes quando comparados com as espécies que vivem atualmente. Isto não é novidade para ninguém – estão aí dinossauros como o Maxakalisaurus , pterossauros como o Feilongus e formas intermediárias entre os peixes e os primeiros tetrápodes (vertebrados que conquistaram a terra firme) como o Tiktaalik , para citar só alguns exemplos. Mas poucos organismos surpreendem mais do que os ictiossauros.

Mas que animais são esses? A descrição de um desses vertebrados é bem simples: cabeça e corpo alongado, membros transformados em nadadeiras e uma grande nadadeira dorsal, formada possivelmente por cartilagem. Também tinham uma grande nadadeira no final da cauda. Essa descrição indica claramente que eram formas aquáticas que, grosso modo, se assemelhavam aos golfinhos atuais (que são mamíferos) ou, mais longinquamente, aos tubarões.

Até aí nada demais, não fosse um pequeno detalhe: os ictiossauros não eram nem peixes nem mamíferos, mas sim répteis! Aliás, eles formam o grupo de répteis mais bem adaptados à vida aquática, e dominaram grande parte dos mares durante a era Mesozóica, particularmente durante o Jurássico.

A origem dos ictiossauros ainda é alvo de discussão entre os pesquisadores, o que se explica pela ausência de "elos perdidos" – ou seja, formas com uma anatomia entre um ictiossauro típico e alguma forma de réptil mais primitivo. Assim, existem autores que os colocam em um grupo chamado de Euryapsida, juntamente com outros grupos de répteis marinhos (os plesiossauros), e outros que preferem deixá-los como um grupo à parte – os Ichthyosauria –, com posição ainda a ser determinada na linha evolutiva dos répteis.

Formas triássicas e jurássicas
Em linhas gerais, as formas mais antigas de ictiossauros encontradas no registro fóssil vêm de rochas Triássicas, como o Utatsusaurus do Japão e o Qianichthyosaurus da China. Esses primeiros ictiossauros já possuíam a forma geral do grupo, apesar de terem o crânio comparativamente mais curto e os membros com uma estrutura mais primitiva – não tão especializados como nas formas mais derivadas. Ainda no Triássico viveu o maior de todos os representantes desse grupo de répteis marinhos: o Shonisaurus , cujos restos foram encontrados em Nevada. Esse animal podia atingir 15 metros de comprimento!

Durante o Jurássico os ictiossauros tiveram o seu apogeu, com diversas formas encontradas em diferentes partes do mundo. De todos os depósitos em que eles foram encontrados, o de Holzmaden, na Alemanha, se destaca por ter fornecido centenas de esqueletos completos, que mostram o contorno desses animais e incluem até a preservação de tecido mole. O gênero Stenopterygius é um dos mais comuns ali encontrados.

Entre as principais diferenças das formas jurássicas para as mais primitivas, está uma forte inclinação da cauda para baixo, que tinha boa mobilidade lateral, mas quase nenhuma possibilidade para se mover para cima ou para baixo. Também as nadadeiras eram mais bem adaptadas para uma vida aquática, fazendo das formas jurássicas animais mais velozes e predadores mais eficazes.

A partir da parte média do Jurássico (há cerca de 175 milhões de anos) até o Cretáceo, há uma diminuição gradual das espécies de ictiossauros e seus restos se tornam cada vez mais escassos. A última forma de que se tem notícia é o Playpterygius , conhecido por fragmentos coletados em diversas partes do mundo, como América do Norte, Europa e Austrália.

A extinção dos ictiossauros
O ictiossauros se extinguiram bem antes do limite K/T (Cretáceo-Terciário), tão conhecido pela extinção em escala mundial de diversos grupos como pterossauros e dinossauros não-avianos. A extinção dos ictiossauros é um tanto curiosa e ainda não bem compreendida pelos pesquisadores: como um grupo de répteis tão especializados se extinguiu sem qualquer causa externa aparente?

Os pesquisadores especulam que talvez esses animais não tenham conseguido competir com outras formas de répteis marinhos – como os plesiossauros e os mosassauros e os tubarões, que cada vez mais dominavam os oceanos do final da era Mesozóica.

Ainda há mais um detalhe importante sobre os ictiossauros: graças a numerosos exemplares, sobretudo de Holzmaden, sabemos que esses vertebrados marinhos não punham ovos, como os demais répteis, mas davam à luz os filhotes como os mamíferos. Ou seja, eles eram vivíparos, algo bastante incomum dentro da classe Reptilia!

E no Brasil? Já foram encontrados ictiossauros no nosso país? Curiosamente não. Aliás, na América do Sul, os principais registros são provenientes de depósitos marinhos da Argentina, sobretudo da bacia de Neuquén. Entre as formas argentinas mais interessantes está o Caypullisaurus bonapartei , que, segundo estimativas, podia atingir até mais de 9 metros!

Um dos motivos da ausência de ictiossauros no Brasil é a escassez em nosso país de depósitos jurássicos – nos quais esses répteis marinhos tiveram o seu apogeu. Porém, mesmo sendo difícil, o conhecimento sobre os fósseis do país é tão pequeno que nada impede que, algum dia, mais cedo ou mais tarde, alguns restos desses animais acabem sendo encontrados.


Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
06/11/2006

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Os pesquisadores Jorge Ferigolo (Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul) e Max Langer (Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto) acabam de publicar a descrição de mais um dinossauro brasileiro: o Sacisaurus agudoensis . A espécie foi encontrada em rochas do Triássico (há cerca de 215 milhões de anos) no Rio Grande do Sul e descrita baseada em diversos restos isolados. De acordo com os pesquisadores, o Sacisaurus agudoensis parece ter sido um dos mais primitivos membros do grupo chamado de Ornithischia, que reúne dinossauros herbívoros nunca antes registrado no país. O trabalho foi publicado em um volume especial da Historical Biology sobre dinossauros primitivos, que conta com outras importantes contribuições.

Os pesquisadores Sephanie Pierce e Michael Benton, ambos da Universidade de Bristol, Inglaterra, acabam de revisar o material do crocodilomorfo marinho Pelagosaurus typus , descrito em 1841. A espécie, encontrada em nódulos calcários na região norte de Ilminster, Somerset, na Inglaterra, foi descrita baseada em diversos exemplares, incluindo restos de crânios e mandíbulas. O estudo, publicado no Journal of Vertebrate Paleontology , revela que diversas características atribuídas a espécies com hábitos aquáticos, como as dos grupos Teleosauridae e Metriorhynchidae, precisam ser revistas antes que se possa ter uma melhor compreensão dos crocodilomorfos que outrora viviam em ambientes marinhos.



Pesquisadores argentinos fizeram um estudo detalhado das pegadas e pistas atribuídas a dinossauros do depósito Los Rastros, na região de Ischichuca, no centro-oeste da Argentina. A idade das pegadas foi estimada em cerca de 220 milhões de anos, no Triássico. A pesquisa, coordenada por Claudia Marsicano (Universidad de Buenos Aires), foi publicada em uma edição especial sobre dinossauros primitivos da Historical Biology e revelou que a diversidade dos animais que fizeram esses rastros é bem maior do que se supunha anteriormente. 

Paleontólogos do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acabam de publicar um estudo sobre crinóides fósseis procedentes de rochas devonianas (com cerca de 385 milhões de anos) da Formação Maecuru, no Pará. O material é constituído de partes isoladas de crinóides (pedúnculos e cálices) que puderam ser classificadas em quatro espécies distintas. A mais interessante delas é a Monstrocrinus securifer , forma rara no Devoniano, registrada pela primeira vez na América do Sul. A pesquisa, coordenada por Sandro Scheffler, foi publicada na Revista Brasileira de Paleontologia .



Paleobotânicos europeus realizaram uma revisão dos principais restos fósseis de angiospermas do Cretáceo, com foco em flores e outros órgãos reprodutivos fossilizados. Coordenado por Else Marie Friis (Museu de História Natural da Suécia), o estudo concluiu que esses vegetais não tinham uma importância ecológica muito grande durante o Cretáceo médio a superior, apesar de já apresentarem uma marcada diversidade. Sua ocorrência estava restrita a pequenas áreas, com o predomínio de formas arbustivas de pequenas dimensões. O estudo foi publicado na Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeocology .

De 10 a 14 de setembro de 2007 será realizado um encontro de pesquisadores que se dedicam ao estudo dos pterossauros, que são répteis fósseis voadores. O evento será realizado no Museu Estadual de Paleontologia e Geologia da Bavária, localizado em Munique, que possui a principal coleção de pterossauros do mundo. Além de oferecer apresentações científicas, a reunião permitirá aos participantes visitar as localidades de Eichstätt, onde diversos exemplares desses répteis voadores foram encontrados. Mais informações podem ser obtidas no site http://flugsaurier.blogspot.com ou pelo e-mail d.hone@lrz.uni-muenchen.de .



O Senado Federal concedeu um Voto de Aplauso para a equipe e colaboradores que participaram da pesquisa e montagem do dinossauro Maxakalisaurus topai . No dia 8 de novembro, essa homenagem, inédita para a paleontologia brasileira, será entregue pelo Reitor da UFRJ no auditório Roquete Pinto do Museu Nacional a todos os envolvidos no projeto.

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