13 julho 2012

Para bom entendedor, meia escultura basta

Monumento de guerra no coração de uma das cidades mais progressistas dos Estados Unidos inspira reflexão e a coluna de julho da historiadora Keila Grinberg. Em questão: a vitória da democracia ou a celebração da supremacia norte-americana?

Dewey Monument, coluna alta com estátua da deusa Vitória, celebra conquista militar dos EUA durante a guerra hispano-americana, intriga historiadora e inspira projeto que dá vida à história por trás do monumento. (John Catbagan/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Quem chega a São Francisco sabe o que esperar da cidade: a beleza natural, a arquitetura e, mais do que isso, a fama de ser uma das cidades mais progressistas dos Estados Unidos. O maior número de leitores do país. Berço do movimento gay. Ainda hoje refúgio dos últimos hippies

Talvez seja por conta dessa imagem que cause tanta surpresa – a mim causou – a visão do Dewey Monument no meio da Union Square, no coração da cidade.

A Union Square existe desde meados do século 19 e foi construída como um espaço verde e tranquilo para deleite dos que moravam nas mansões vitorianas que então a circundavam. Com o tempo, a praça ganhou novo nome – Union por conta do grande número daqueles que apoiavam a União durante a Guerra Civil americana –, novos prédios, sendo hoje rodeada por hotéis e grandes lojas.

Desde 1901, o centro da praça é ocupado pelo Dewey Monument, uma coluna alta com a estátua da deusa Vitória, celebrando a conquista militar do almirante Dewey na baía de Manila, durante a guerra hispano-americana, em 1898. Este não é o único monumento dedicado à vitória contra os espanhóis. Entre as ruas Dolores e Market há outro, no qual Bellona, a deusa romana da guerra, celebra os voluntários da Califórnia que lutaram no conflito.

A guerra hispano-americana de 1898 ficou conhecida como aquela que inaugurou a expansão imperial norte-americana, mesmo que, 50 anos antes, em guerra contra o México, os Estados Unidos já tivessem conquistado os territórios dos atuais estados da California, Nevada, Utah, boa parte do Arizona, metade do Novo México, parte do Colorado e parte do Wyoming.

Independência para uns...

Quando o couraçado USS Maine afundou na baía de Santiago, em Cuba, em fevereiro de 1898, poucos duvidavam que a explosão havia sido obra dos espanhóis (até hoje, ainda não se sabe exatamente o que a causou). Gente como o então secretário-assistente da Marinha Theodore Roosevelt estava convencido de que o episódio era suficiente para uma declaração de guerra contra a Espanha – o que viria a calhar para reforçar a já forte pressão norte-americana pela independência de Cuba.

A autorização para o início da guerra por parte do Congresso dos Estados Unidos viria em abril, quando navios americanos, sob comando de George Dewey, também já estavam a caminho da baía de Manila, nas Filipinas, para abrir outra frente na luta contra os espanhóis.

A batalha de Manila teria lances curiosos: primeiro, a invasão às cinco da manhã, marcada pela má pontaria de ambos os lados; depois, a pausa para o café, que durou três horas, tempo em que os americanos se retiraram da baía. Na volta, só havia um navio espanhol de guarda, que cometeu o erro de sair ao encontro do inimigo e acabou afundado, com perda de praticamente toda a sua tripulação. Pouco tempo depois, a Espanha capitulou.

A Batalha de Manila, 1899
A Batalha de Manila, 1899. O conflito entre espanhóis e americanos durou oito meses e terminou com a independência de Cuba e a posse de Porto Rico, Guam e Filipinas por parte dos Estados Unidos. Os filipinos, que aspiravam sua própria independência, resistiram por quase três anos, mas foram derrotados em 1901.

O conflito entre espanhóis e americanos durou oito meses e foi finalizado com a assinatura do tratado de Paris, quando os Estados Unidos reconheceram a independência de Cuba e tomaram posse de Porto Rico, Guam e das Filipinas. Das FIlipinas, aliás, contra a expectativa dos insurgentes locais, que contavam com o apoio norte-americano para obter sua própria independência.

Em vão: os americanos tinham outros planos para a região, que seria a porta de entrada para a expansão militar e comercial norte-americana no Pacífico. Mas eles não contavam com a resistência dos filipinos, que durou quase três anos e só acabou depois do massacre de Balangiga, em 1901, quando mais de 2 mil pessoas foram assassinadas em retaliação ao ataque que vitimou 36 militares americanos.

Os americanos tinham outros planos para as Filipinas, que seriam a porta de entrada para a expansão militar e comercial norte-americana no Pacífico

De São Francisco, ironicamente do lugar chamado Presidio, antigo presídio do tempo da colonização espanhola e então base militar americana, saíram mais de 80 mil soldados americanos para lutar nas Filipinas. E, não por acaso, justamente naquele ano e naquele lugar, o escultor Robert Atkin foi contratado para construir um grande monumento à vitória de Dewey contra os espanhóis na batalha de Manila.

Para bom entendedor, meia escultura basta: está claro que, supostamente celebrando a vitória da democracia americana contra o antigo colonialismo europeu, o monumento, com um tridente que representa a vitória na batalha naval e uma coroa dedicada à memória do recém-assassinado presidente americano William McKinley, celebrava mesmo era a supremacia norte-americana no Pacífico.

Em tempo

Estou muito longe de ser a única incomodada com tamanha celebração à guerra bem no meio da Union Square. Em maio passado, o Dewey Monument foi objeto de um projeto colaborativo do Bitter Melon (Melão Amargo), em homenagem à fruta nativa das Filipinas, com projeção de imagens em 3D, música e dança.

Como disse Ben Wood, um dos idealizadores do projeto, a ideia é reinterpretar o Dewey Monument:  “Nós frequentemente os ignoramos [os monumentos]. Mil pessoas passam pela Union Square sem prestar atenção ao Dewey Monument. Como podemos dar vida a esta história? O que aconteceria se olhássemos para o monumento como tendo sido cúmplice da noção de que a guerra é gloriosa? E se olhássemos para ele como uma coisa viva, testemunha dos horrores e das tragédias da guerra?”.

Ao que tudo indica, São Francisco justifica a fama.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)

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