13 janeiro 2016

Metano pelos ares na Califórnia

Vazamento em poço de gás nos Estados Unidos emite grande quantidade do gás de efeito estufa. A solução do problema, iniciado em outubro passado, ainda deve levar várias semanas – leia na coluna ‘Planeta em transe’, de Jean Remy Guimarães.

Filmagem em infravermelho mostra o escapamento de metano em poço na Califórnia (EUA). O vazamento é invisível ao olho nu. (foto: Reprodução/ YouTube/ Environmental Defense Fund)

Todos conhecem a história dos canários que os mineiros de antigamente levavam consigo ao descer para minas de galeria. Funcionavam como detectores de metano, o temido gás inodoro e inflamável que podia explodir à menor centelha e soterrar mineiros e canários para sempre. Quando a concentração de metano se tornava perigosa, os canários cessavam de cantar e os mineiros imediatamente davam meia volta. Sem correria: nada de centelhas!

Pois o mesmo gás que tirou o sono e a vida de tantos mineiros está vazando para a atmosfera, desde 23 de outubro de 2015, de um poço de gás da Southern California Gas Corporation (SoCalGas), à taxa de 30 a 48 toneladas de metano por hora. Tudo isso em uma área densamente habitada, próxima a Los Angeles, Califórnia (EUA). Apenas no final de dezembro a empresa conseguiu localizar o ponto de onde está escapando o gás – fica em um duto de injeção, a 2.400 metros de profundidade.

Oito tentativas de colmatar o poço fracassaram, devido à forte pressão do gás. A empresa, que inicialmente tratou a situação como incidente menor, promete resolver tudo com uma nova técnica. Mesmo sem dar detalhes sobre as causas do acidente ou sobre a metodologia para resolvê-lo, a empresa adianta que só deve conseguir concluir os trabalhos em fevereiro ou março. Afinal, a tal nova técnica envolve a construção de dois poços paralelos ao primeiro e, vocês sabem, 2.400 metros é muito chão, especialmente na vertical.

Assim como a empresa, o governador do estado, Jerry Brown, enrolou o quanto pôde.

Desde o inicio do vazamento, centenas de moradores da região se queixam de fortes dores de cabeça, sangramentos nasais, náuseas e vômito

O problema é que, desde o início do vazamento, centenas de moradores da região se queixam de fortes dores de cabeça, sangramentos nasais, náuseas e vômito. Cães, gatos e aves não tiveram melhor sorte. Cerca de 2,5 mil famílias já foram evacuadas e outras 6,5 mil solicitaram sê-lo, o que está causando uma crise caótica num estado de orçamento apertado. 

Para que o metano, inodoro, se torne perceptível, recebe aditivos como os mercaptanos, que lhe conferem cheiro de ovo podre. Segundo especialistas, são esses aditivos que estão causando diversos efeitos adversos na população local, mais do que o metano em si.

História de um desastre

A área onde ocorreu o acidente foi palco de exploração de petróleo até os anos 1970. Quando os poços secaram, a empresa passou a utilizar as cavidades subterrâneas, agora vazias, como depósito de gás, que era reinjetado no subsolo através dos mesmos poços que antes serviam para extrair petróleo.  É uma solução econômica e esperta, mas tem seus riscos. Por isso, alguns países exigem a instalação de duas válvulas de segurança em cada poço – no caso do poço que está vazando na Califórnia, o advogado das populações afetadas afirma que a empresa SoCalGas deixou de substituir uma válvula de segurança que está com defeito desde 1979.

Entre os gases de efeito estufa, o metano tem muito menos fama que seu colega de classe, o dióxido de carbono (CO2), embora seja de 35 a 80 vezes mais eficiente que o CO2 em gerar efeito estufa. Ganhou alguma notoriedade quando os céticos do clima exploraram, com piadinhas de gosto duvidoso, o fato de o metano estar presente em arrotos e flatulências de ruminantes. Nada como desviar o foco e folclorizar, não é mesmo? Já vimos esse filme muitas vezes e ele não sai de cartaz; só mudam os atores e as locações.

Escatologias à parte, a emissão deste gás inodoro, mas inflamável na Califórnia já aumentou em 25% a contribuição deste estado norte-americano para o efeito estufa e equivale às emissões de 3,5 a 7 milhões de automóveis. 

Não por isso, e sim devido ao assédio da imprensa e dos moradores, o governador da Califórnia declarou, no dia 6 de janeiro, estado de emergência na região mais afetada, Porter Ranch, em Los Angeles. Vale lembrar que há uma centena de outros poços de gás na região.

Deve ser terrível morar num país onde empresas e poder público se omitem durante meses diante de uma catástrofe ambiental de grandes proporções. Deve também ser terrível morar em um outro país onde a grande imprensa ignora a mesma catástrofe durante os mesmos meses. 

Se de fato as regras e normas se tornarem mais rígidas, teremos nos movido para a frente empurrados por uma tragédia

Com a decretação do estado de emergência, “todas as agências estaduais irão utilizar pessoal, equipamento e instalações do estado para garantir uma resposta contínua e definitiva a esse incidente”. 
Em comunicado, o governador diz ainda que as prioridades são conter o vazamento, proteger a saúde e a segurança dos moradores e garantir a prestação de contas – para que todas as despesas com reparos e assistência à população sejam pagas pela Southern California Gas Co. –, além de reforçar a supervisão, com a emissão de regras de emergência para empresas que exploram o armazenamento e comércio de gás.

Se de fato as regras e normas se tornarem mais rígidas, teremos nos movido para a frente empurrados por uma tragédia. Até o Titanic afundar – embora fosse supostamente insubmersível –, não havia botes e coletes salva-vidas para todos os passageiros de navios, o que se tornou norma apos o naufrágio. É só um exemplo entre tantos.

Também não foi a primeira vez que vimos a imprensa, temerosa do poderoso lobby do petróleo, ou simplesmente conivente com o mesmo, minimizar o episodio até a corda arrebentar. Nas próximas semanas, certamente veremos mais análises sobre o impacto da catástrofe no valor das ações da empresa e no custo da energia nos EUA do que relatos acerca dos impactos do acidente sobre a saúde e orçamento dos moradores. 

Não foi o primeiro, não será o último

É difícil não associar esta catástrofe ao megavazamento de petróleo em uma plataforma da British Petroleum no Golfo do México em 2010. Mesmo porque, quando fotografado ou filmado em filme infravermelho, o local do vazamento na Califórnia exibe uma pluma negra se elevando aos céus, como a fumaça negra de um incêndio, ou como um vazamento de petróleo no fundo do mar, se dispersando em seu caminho rumo à superfície. 

Desastre rápido de solução lenta
Em 2010, vazamento de petróleo no Golfo do México também levou meses para ser controlado. (foto: Michon Scott/ Nasa Goddard Space Flight Center)

Portanto, nada de novo sob o Sol. Falando nisso, não custa lembrar: com uma fração ridícula da energia que recebemos do Sol, poderíamos atender todas as necessidades energéticas da população mundial, presentes e futuras.

É mais um episódio que levanta uma boa pergunta: o melhor a fazer com o petróleo não seria simplesmente deixá-lo quieto onde está?

E, como além de chato sou insistente, gostaria de lembrar, segurando o riso com supremo esforço, que a indústria carbono-intensiva (petróleo, gás, cimento, siderurgia e, claro, carvão) propôs com toda seriedade do mundo captar o carbono nas chaminés e reinjetá-lo nos poços de onde se tirou o petróleo ou gás.

Se você for um engenheiro da área de petróleo e gás, a ideia talvez lhe pareça genial. Mas... se não conseguem conter metano, conseguirão conter CO2? Du-vi-de-o-dó.

 

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Tags:
COMPARTILHAR