03 maio 2013

Família, desvio, aceitação

O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte trata, na coluna deste mês, das relações entre as famílias e seus membros homossexuais. Ainda marcadas por ansiedade e sofrimento, são reveladoras dos caminhos possíveis de nossa cultura e dos valores cruciais que a compõem.

Cena do filme ‘Orações para Bobby’, em que uma mãe ultrareligiosa não aceita a homossexualidade do filho e tenta curá-lo por meio da fé. Muito elogiado pela sensibilidade com que trata da questão, foi indicado a vários prêmios.

Uma das mais candentes questões morais a agitar as sociedades ocidentais contemporâneas é a da normalização social da homossexualidade, sob diferentes formas e em diferentes registros.

A proposta de legislações favoráveis ao casamento de pessoas do mesmo sexo e à adoção de crianças por casais homoparentais em diversos países tem suscitado intensas polêmicas, como as que se seguiram à recente aprovação pelo parlamento francês de uma lei naquela direção.

A homossexualidade, mais até do que o aborto, desafia as formas convencionais da família e do parentesco ocidentais

A homossexualidade, mais até do que o aborto, desafia as formas convencionais da família e do parentesco ocidentais, autorizando uma individualização radical, capaz de subverter a equação entre sexualidade e gênero prevalecente nas sociedades humanas até recentemente.

Os princípios da liberdade e da igualdade, base ideológica da cultura ocidental moderna, sempre se combinaram de forma tensa com o formato da família, apesar do sucesso da fórmula de compromisso inventada no século 18, de uma família hierárquica, baseada na diferença de gênero e de geração e destinada à reprodução humana, como sempre fora, mas voltada para a produção dos novos e ideais indivíduos autônomos, livres e iguais.

Ao longo do século 20, novas condições sociais ensejaram uma crescente liberalização do formato hierárquico, com a generalização do divórcio e da liberdade sexual – associada ao maior controle das doenças venéreas e à pílula anticoncepcional; pelo menos até a chegada da Aids –, assim como a emergência de uma atenuação da distância entre as gerações e a possibilidade técnica da reprodução artificial.

Casamento gay
A proposta de legislações favoráveis ao casamento de pessoas do mesmo sexo em diversos países tem suscitado intensas polêmicas. (imagem: Wikimedia Commons)

A vida social é, porém, sempre mais complexa do que seus princípios abstratos e suas tecnologias. Enormes ansiedades emergem quando as fórmulas tradicionais da construção da família e da pessoa são ameaçadas: teme-se pelo fim da reprodução natural, teme-se pelo fim da unidade moral que se atribui à formação familiar, teme-se pela contenção da sexualidade aos limites da união heterossexual estável. E tanto se teme aqui e ali, quanto se anseia pelas mesmas transformações em tantos outros lugares – todas as posições sendo representadas por fortes vozes no embate público.

“Gramática da preocupação”

Uma tese recém-defendida por Leandro de Oliveira sobre os sentidos da ‘aceitação’ (ou não) da homossexualidade pelos pais no contexto metropolitano brasileiro aporta uma rica informação sobre o modo como essas ansiedades e sofrimentos se desencadeiam, se estabilizam em novos acordos e influenciam, por sua vez, a dinâmica dos confrontos que a cada dia se renovam, quiçá em novos patamares.

O autor trabalhou com materiais de pesquisa direta com sujeitos envolvidos nesses dramas, mas também se muniu de informação sobre movimentos sociais associados, como o ‘Grupo de Pais de Homossexuais’, criado por Edith Modesto nos anos 1990, em São Paulo.

As formas de relacionamento entre pais e filhos que se revelam homossexuais são apenas uma das facetas do complexo relacional que atrela as carreiras individuais à trama familiar, essa ‘persona coletiva’, como sublinhou a antropóloga Adriana Vianna em sua arguição da tese. Na verdade, todo o processo da vida afetiva e sexual dos jovens se vincula às normatividades e afetos construídos na cena familiar original e, mesmo quando se refugiam no segredo, não deixam de estar envolvidos pela questão maior da ‘aceitação’.

Todo o processo da vida afetiva e sexual dos jovens se vincula às normatividades e afetos construídos na cena familiar original

A trama familiar é o lugar mais denso de aglutinação dos afetos em nossa cultura; sendo mesmo uma característica estrutural de seu formato: amor materno, amor paterno, amores filiais, amores fraternos. Mas amor se conjuga com dívida, culpa, vergonha, ressentimento, gratidão, reconhecimento, consideração, deferência, respeito e muito mais. O autor fala de uma “gramática da preocupação” que amarra as relações parental-filiais e se enovela nos desafios do famoso “coração de mãe”.

A fenomenologia dos afetos em curso nessas arenas relacionais é minuciosamente explorada por Oliveira, com base nos recursos analíticos disponíveis hoje na antropologia das emoções e na antropologia da família, mas é também calibrada em relação com as múltiplas dimensões estruturais da forma família.

Ressalta assim, de seu trabalho, a importância do eixo dívida / reconhecimento, corolário inevitável da hierarquia geracional e do trabalho de criação pessoal aí implicado. Como se trata, no entanto, de um ‘contrato’ social que é vivenciado sob a forma de um status natural, os balanços relacionais são de imensa delicadeza e instabilidade, em constante reavaliação – em situações dramáticas ou cotidianas.

É inseparável desse registro o eixo segredo / sinceridade, que põe em cena a adesão íntima de cada membro da rede ao compartilhamento coletivo, para o melhor ou para o pior. Sentimentos de culpa e vergonha acompanham as negociações da trama sócio-afetiva, impondo encruzilhadas de autoafastamento, de expulsão ou de acolhimento.

Meme trollando mãe
Vídeos em que filhos enganam os pais sobre suas preferências sexuais para registrar suas reações viraram mania no YouTube. Em um deles, um menino apanha da mãe ao conversar com o suposto namorado por telefone.

Descendência, herança moral, mudanças

As reações da rede familiar original à assunção de uma disposição homossexual em seus novos membros são indissociáveis de uma configuração de valores muito complexa, que envolve a expectativa de reprodução do ente familiar (nome de família, propriedades, tradição profissional, status social etc.), mas também – e sobretudo – desse alto valor da descendência dita ‘de sangue’ (hoje travestida nos discursos genéticos).

Em um contexto social em que o gênero estatutário parece fadado a ser substituído, as tensões da reprodução familiar que herdamos do século 18 terão que ceder a um novo horizonte de expectativas

Não se trata apenas de uma reprodução mecânica da herança socioeconômica ou de sangue; trata-se também da defesa de uma herança moral, de uma honra familiar, atrelada fundamente às definições de gênero e de decoro público. Não querer saber da orientação sexual dos filhos, por exemplo, é atitude de preservação de fachada que só pode se sustentar quando esses não ‘derem pinta’, ou seja, não desafiarem as convenções das performances de gênero.

Em um contexto social em que o gênero estatutário parece fadado a ser substituído crescentemente por um gênero situacional, contratual, instável, as tensões da reprodução familiar que herdamos do século 18 provavelmente terão que ceder a um novo horizonte de expectativas.

Recentes pesquisas de opinião revelam que as novas gerações apresentam patamares de aceitação à homossexualidade em suas famílias muito mais altos do que nas precedentes. As muitas reações coletivas importantes a esse processo que ora nos cercam tornam-no ainda mais fascinante de estudar e urgente de compreender.


Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões de leitura:

Butler, Judith. O parentesco é sempre tido como heterossexual? Cadernos Pagu, 21, Campinas: Unicamp, 2003.

Natividade, Marcelo; Gomes, Edlaine de Campos. Para além da família e da religião: segredo e exercício da sexualidade. Religião e Sociedade, v.26, n.2, p.41-58, 2006.

Oliveira, Leandro de. ‘Os sentidos da aceitação: Família e orientação sexual no Brasil contemporâneo’. Tese de doutorado em Antropologia Social, PPGAS / MN / UFRJ. 2013

Uziel, Anna Paula. Homossexualidade e Adoção. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

Vale de Almeida, Miguel. A chave do Armário: homossexualidade, casamento, família. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010.
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