05 outubro 2012

Mundos ambientes; paisagens envolventes

O que está por trás do anseio pela conservação do meio ambiente, além da sobrevivência da espécie humana? Luiz Fernando Dias Duarte reflete, em sua coluna de outubro, sobre os valores e sentidos que permeiam a relação homem-natureza na cultura ocidental.

O grande investimento na construção de jardins a partir do século 17 é um aspecto fascinante da transformação do mundo em uma ‘paisagem’ a ser admirada. O jardim de Versalhes é um exemplo clássico dessa transformação. (foto: urban/ CC BY-SA 3.0)

A intensa preocupação contemporânea com a preservação do meio ambiente suscita um dos mais fundamentais movimentos sociais em curso, uma vez que se dirige à sobrevivência da espécie humana como um todo sobre a face deste planeta, o único em que sua vida pode se desenvolver – pelo menos por enquanto. Não apenas isso: visa também à sobrevivência do fabuloso tesouro das formas de vida que hoje povoam a Terra, companheiras de nossa própria e tão improvável e frágil evolução.

Os argumentos para esse empreendimento são, em primeiro lugar, práticos: a sobrevivência narcisista dessa espécie que se ameaça a si mesma; a sobrevivência do cenário vital que a viu emergir e que guarda, por assim dizer, algo de sua ‘humanidade’.

Mas o ambiente não é apenas um ‘meio’ neutro e pragmático; é um ‘mundo ambiente’, cheio de conotações simbólicas, de sentidos vitais, frequentemente experimentados sob a forma do que chamamos vulgarmente de ‘paisagens’.

Embora toda a experiência humana (na verdade, de todo ser vivo!) só faça sentido imersa no contexto em que se institui e este seja participante ativo da forma e sentido geral de sua vida, nem todas as culturas organizam a percepção desse mundo envolvente como uma ‘paisagem’.

O sociólogo alemão Norbert Elias descreveu bem, em seu estudo clássico sobre a ‘sociedade de corte’ europeia do século 17, o processo pelo qual se desenvolveu na cultura ocidental uma modalidade de relação com o ambiente em que o distanciamento entre observador e campo de observação se tornou uma estratégia básica de construção do sentido do mundo.

Esse campo de observação podia ser o mundo exterior, sob a forma das paisagens visuais naturais ou artificiais, da perspectiva das alamedas de um jardim barroco ou da perspectiva embutida nas então inventadas pinturas ‘de paisagem’. Mas podia ser também o mundo interior, os ‘horizontes interiores’ a que se refere Elias, através da prática dos exames da consciência ética e da exploração dos tesouros da sensibilidade. 

Paisagem
O ambiente não é apenas um 'meio' neutro e pragmático; é um 'mundo ambiente', cheio de conotações simbólicas, de sentidos vitais, frequentemente experimentados sob a forma do que chamamos vulgarmente de 'paisagens'. (foto: Mihai Tamasila/ Sxc.hu)

Distanciamento e visibilizações

O processo do distanciamento, da colocação do mundo em perspectiva, fazia parte da grande transformação dos valores característica da modernidade, de suspensão da crença em uma razão divina e da consequente inquietação sobre o estatuto da razão humana.

Qual seria sua relação com o testemunho dos sentidos corporais no contato com a empiria produtora das sensações? Uma enorme ênfase na sensibilidade acompanha assim a disposição em olhar o mundo à distância: entre a sensibilidade nervosa periférica e a sensibilidade afetiva íntima.

Uma enorme ênfase na sensibilidade acompanha a disposição em olhar o mundo à distância: entre a sensibilidade nervosa periférica e a sensibilidade afetiva íntima

E não podemos dissociar desse processo a generalização do olhar científico sobre o universo, pela via dos telescópios ou microscópios certamente, mas sobretudo da dúvida sobre a evidência do senso comum, em busca da verdade oculta sob a aparência banal das coisas.

Um aspecto fascinante da transformação do mundo em uma ‘paisagem’ a ser perscrutada ou admirada é o enorme investimento que mereceu a construção de jardins, a partir do século 17.

Embora já o Renascimento, concomitantemente com o gosto pela perspectiva linear, tivesse investido fortemente naquilo que hoje chamamos justamente de ‘paisagismo’, ou seja, de tratamento do mundo ambiente como uma paisagem, o apogeu desse gosto se deu com a estética barroca, seja no formato inicial italiano, seja no formato tardio francês – comumente chamado de ‘clássico’, como no exemplo notório do palácio de Versalhes.

O jardim de Versalhes, esse lugar por excelência da lógica de corte, era organizado como uma gigantesca máquina do olhar sensível, com alternâncias de ritmo e de intensidade que as fontes monumentais sublinhavam mais dramaticamente ainda do que o tratamento das plantas e da estatuária. Seu modelo, generalizado na Europa, logo viria a ceder lugar a uma outra lógica da visibilização e do distanciamento, a dos jardins chamados de ‘ingleses’, íntima engrenagem do gosto romântico. 

Essa transposição é exemplar da constituição do regime de ‘mundos ambientes’ e de ‘paisagens envolventes’ que ainda nos caracteriza. O distanciamento não deve ser mais apenas o de um olhar soberano, de visibilização externa, mas o de um olhar sentimental, de visibilização interior – capaz de acolher e reverberar a dinâmica das emoções desencadeadas no íntimo de cada sujeito.

Pragmatismo x sensibilidade

O ‘jardim paisagista’ (landscape garden), que foi trazido para o Brasil pelo botânico francês Auguste Glaziou em meados do século 19 e ainda hoje se pode ver nos sítios cariocas da Quinta da Boa Vista, do Parque da Tijuca e do Campo de Santana, combinava a ênfase no distanciamento das ‘vistas’ com recursos de intimização, em suas grutas, colinas, lagos e bosques discretos.

Quinta da Boa Vista
A Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, é um exemplo de 'jardim paisagista', conceito trazido para o Brasil pelo botânico francês Auguste Glaziou que combina a ênfase no distanciamento das 'vistas' com recursos de intimização, como lagos e bosques. (foto: Marcus Mansur/ Wikimedia Common)

Vocês me dirão que já não damos tanta atenção aos jardins quanto os ingleses do século 18 e que a questão do meio ambiente não tem nada de sentimental. Mas a verdade é que por sob nossas pragmáticas lutas por um mundo ambiente sustentável e protegido pulsa a sensibilidade afetiva da percepção de uma paisagem envolvente.

A defesa da mata atlântica ou da Grande Barreira de Corais não é apenas um gesto de autopreservação economicista. Opõe-se na verdade a fortes interesses comerciais imediatistas. Mas contém sobretudo um cultivado afeto por essas preciosas paisagens de um mundo natural em que vemos espelhados nossos valores mais íntimos de singularidade, diversidade, beleza, liberdade e autonomia.

Falarei sobre tudo isso nos próximos dias 5 e 6 de novembro, em seminário organizado na UFRRJ sobre ‘Manifestações Artísticas e Ciências Sociais: reflexões sobre arte e cultura material’. Escolhi inclusive esse tema para compartilhar com outra convidada, a socióloga francesa Nathalie Heinich, uma das mais importantes especialistas da arte contemporânea e grande divulgadora do pensamento de Norbert Elias – com quem comparti em Paris, durante meu pós-doutorado, a observação admirada e a reflexão sensível sobre os jardins e as paisagens que calidamente nos envolvem.

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões de leitura:

Duarte, Luiz F. D. O Império dos Sentidos: sensibilidade, sensualidade e sexualidade na cultura ocidental moderna. In: Heilborn, Maria Luiza (org.). Sexualidade: o olhar das Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1999, p. 21-30.

Elias, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001.

Heinich, Natalie. A sociologia de Norbert Elias. Lisboa, Temas & Debates, 2001.

Schama, Simon. Paisagem e Memória. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

Simmel, Georg. Philosophie du paysage. In: Simmel, George. La tragédie de la culture. Paris, 1988, p.231-255.
Tags:
COMPARTILHAR